“Um por todos e todos por um Brasil de Leitores”, foi o lema do Encontro Nacional do Programa Prazer em Ler – Pólos de Leitura, que aconteceu em Belo Horizonte, entre os dias 1 e 5 de abril. Mais de cento e cinqüenta pessoas estiveram presentes, diariamente. Promovido pelo Instituto C&A com apoio da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, o encontro debateu questões como o papel das bibliotecas, construção de acervo de qualidade, políticas públicas voltadas para o livro, leitura e bibliotecas. A exibição do documentário A Palavra Conta, produzido pelo Movimento Brasil Literário e dirigido por Duto Sperry também fez parte das programação do evento, que aconteceu na Academia Mineira de Letras e na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte. Para o coordenador do programa Prazer em Ler e integrante do MBL, Volnei Canônica, a escolha da cidade teve um propósito muito claro: “Escolhemos fazer o Encontro Nacional do Programa em Belo Horizonte porque o cenário era propício. Apoiamos um pólo de leitura que é composto por seis bibliotecas comunitárias e que está avançando no diálogo com os gestores públicos para a construção de uma política pública para o livro, leitura e biblioteca. Política essa que deve contemplar a participação de todos os atores envolvidos com a área. Tínhamos a intenção de colaborar com a ampliação deste diálogo.” 

Para Fabíola Farias, coordenadora de bibliotecas e projetos de promoção de leitura da Fundação Municipal de Cultura, e integrante do MBL, a escolha em particular de realizar o evento em uma biblioteca não foi um mero acaso: “É importante que atividades desta natureza aconteçam dentro de bibliotecas, ‘tête à tête’ com os livros, com os leitores, e com a vida funcionando dentro do equipamento. Entendo que a formação dos profissionais que trabalham com a leitura fazem parte das atribuições de uma biblioteca”.

Foram 5 dias de programação incluindo painéis e lançamento de livro. Na abertura oficial, Paulo Castro, diretor do Instituto C&A recebeu os escritores Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti. “A literatura me deu tudo”, declarou Colasanti em uma fala que emocionou a platéia. Com bastante sutileza, a autora também descreveu as diferenças entre livros de auto-ajuda e literatura.
”Começamos o encontro abordando a leitura com um direito de todos. Então, Affonso e Marina nos trouxeram reflexões e questões como ‘que tipo de leitura?’ ‘ Quais são as diferenças entre as várias leituras (texto informativo, de auto-ajuda, literário, entre outros)’ ‘ Quais os suportes para o texto?’ ‘ Por que ler?’ “, relata Volnei Canônica.

Temas recorrentes em todo debate que se queira profundo, as mesmas questões surgiram no dia seguinte, no painel Construindo acervos literários com qualidade. Composto pelo ilustrador Nelson Cruz, o escritor Leo Cunha, a editora Anna Maria de Oliveira Renhack, a pesquisadora Maria Zélia Versiani Machado, e mediada pelo jornalista Carlos Herculano Lopes, o painel mostrou que o que determina a qualidade de uma obra não é um critério subjetivo.

 Para Volnei Canônica, o painel sobre acervo de qualidade fez uma reflexão de como criamos critérios para a escolha dos livros de literatura que abarquem a diversidade de gêneros e que atendam os diferentes públicos de uma biblioteca. “Oferecer um acervo de qualidade é a forma que temos de contribuir para a formação leitora e subjetiva dos que terão acesso a estes livros. Quando adquirimos um livro devemos levar em consideração três linguagens: o texto, a ilustração e o projeto gráfico. Foi pensando nestes aspectos que trouxemos os profissionais das diferentes áreas da cadeia criativa do livro para falar neste painel”, diz ele.

 Fabíola Farias, espectadora deste painel, define: “Um bom texto literário é o que me ajuda a problematizar a vida, a perceber o outro, a me conhecer a partir da experiência de outras pessoas, a partir da leitura da letra, da construção de imagens literárias, das palavras escolhidas e organizadas pelo escritor”.

Tecnologia e redes sócias foi assunto que permeou diversos painéis. Se para Affonso Romano de Sant’Anna, é inconcebível para a juventude não ter facebook hoje em dia, Anna Maria de Oliveira Renhack criticou o uso desmedido e sem critério da rede social. No painel O leitor e suas leituras, Frei Betto, entrevistado por Volnei Canônica, apimentou o debate ao dizer que as pessoas alegam ler pouco por falta de interesse e (conforme aparece na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil) por falta de tempo. Tempo este que sobra para a internet. Frei Betto recomenda, a exemplo dos países europeus, sair de casa sempre com um livro debaixo do braço, mesmo que não se tenha a intenção de ler. “Pode ser que você encontre uma oportunidade para ler numa sala de espera, numa fila, no transporte de um lugar pro outro”, declarou. Entretanto, para Fabíola Farias, a leitura como projeto político, não pode ser algo para as horas inúteis. “Quem é que pode definir como útil ou inútil o que se passa na intimidade do outro, enquanto ela espera ou viaja de ônibus para o trabalho? As pessoas que já são leitoras e que não podem viver sem ler, essas sim carregam um livro sempre com elas. Mas para quem a leitura ainda não é um valor, carregar um livro não diz nada”, disse a pesquisadora.

 Para Volnei Canônica, que coordena um programa de leitura com abrangência nacional, as questões que levam as pessoas a ler são inúmeras. “Você pode ter acesso ao livro e não ser leitor. Você pode ter uma família de leitores e não ser leitor. Para mim é um conjunto de fatores que “favorece” uma pessoa a se tornar um leitor literário: são políticas publicas de leitura construídas com a participação e voz da comunidade; são bibliotecas públicas, escolares e comunitárias trabalhando em conjunto para que o leitor tenha acesso a informação e obras de qualidade; são os exemplos, porque aprendemos por meio do exemplo, de professores, pais e familiares abrindo o livro e lendo e não zapeando na televisão ou navegando na internet; são encontros com escritores e ilustrações desmistificando que a literatura é para poucos; e a exclusão da necessidade de fazer uma ação após a leitura ou da didatização da leitura.”

Fabíola Farias, juntamente a Elisa Machado, do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP/MinC), Maria Marismene Gonzaga, do Ministério da Educação (MEC), Marina Nogueira , do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas (SEBP), Abraão Antunes da Silva, da Rede Brasil de Bibliotecas Comunitárias (RBBC), mediadas pela jornalista Rosaly Senra, protagonizaram o painel O papel da biblioteca para uma sociedade leitora. “Este foi um momento muito importante do Encontro Nacional do Programa Prazer em Ler”, diz Volnei Canônica. “Já faz algum tempo que estamos tentando fazer com que os diferentes sistemas públicos e privados – mas com caráter público, como as bibliotecas comunitárias- conversem. O painel mostrou a arquitetura que está construída em relação aos equipamentos da leitura. Não poderemos pensar em um Brasil de leitores enquanto estes sistemas não conversarem. Temos muitos municípios que não tem biblioteca pública e alguns que tem biblioteca mas ela está sucateada ou até fechada e quem atende a demanda e dá o acesso ao livro são as bibliotecas comunitárias. Em contrapartida, os recursos públicos não chegam as bibliotecas comunitárias que estão sobrevivendo a duras penas por projetos. Temos a lei 12.244/10 que institui que todas as instituições de ensino tenham até 2020 bibliotecas escolares. Mas algumas escolas não tem sala e nem espaço para isso. Acredito que temos avançado neste diálogo e alguns gestores públicos já estão compreendendo a importância de sentar e construir ações em conjunto. Infelizmente temos enfrentado também a realidade de gestores engessados e com dificuldade de ampliar seu olhar na compreensão de que nenhuma biblioteca substitui a outra e sim se complementa. Precisamos criar uma rede que valorize o trabalho da biblioteca escolar, pública e comunitária”, completa Volnei.

Para ultrapassar os números de pesquisas oficiais de leituras realizados no país, que compreendem como leitores aqueles que lêem em média um livro por trimestre, a política pública deve tomar outros dados como modelo de ação. “A biblioteca precisa ser um lugar de perguntas, precisa oferecer aos seus leitores “coisas” que eles ainda nem sabem que existem, conhecimentos, idéias, pensamentos, narrativas que foram construídos e registrados pela escrita ao longo do tempo. E isso tem que estar refletido em tudo o que fazemos: os livros que escolhemos, a escuta que oferecemos, as atividades que propomos e, especialmente, na crença que nos move”, declara a pesquisadora, que acredita que é preciso pensar as políticas públicas para a leitura num contexto social que é bem complexo. “À criança que falta o livro, faltam muitas outras coisas, inclusive capital cultural para a apreensão da leitura e da escrita. Acreditar que a leitura e a educação vão incluir toda a gente, sem radicais transformações sociais, é ingênuo”, completa.

O último painel, Brasil leitor: políticas públicas para o livro, leitura e bibliotecas, contou com a presença de Zoara Failla, do Instituto Pró Livro e Câmara Brasileira do Livro (CBL), Antônio Carlos Amorim da Associação de Leitores do Brasil, Suely Duque Rodarte, diretora executiva da Undime/MG, Márcia Cavalcante, diretora da ONG Cirandar, mediados pelo gestor cultural Afonso Borges. Devido as mudanças ocorridas no Ministério da Cultura, Maria Antonieta Antunes Cunha, do Plano Nacional do Livro e Leitura, não pode comparecer. Neste painel cada convidado apresentou suas contribuições e reflexões sobre a política nacional para a área. “É importante compreendermos que o cenário nacional está favorável para a construção dos planos municipais e estaduais do livro e leitura seguindo as diretrizes do Plano Nacional (PNLL). Precisamos refletir sobre as políticas publicas de nossos municípios, de nossos estados e de nosso país”, diz Volnei Canônica.

Em uma pesquisa desenvolvida pela Undime para saber se os municípios conheciam o PNLL, dos 5.565 municípios brasileiros apenas 956 responderam a pesquisa (17,2%) e destes, somente 267 (27,9%) conheciam e 689 (72,1%) não conheciam. Somados aos que não responderam pode-se afirmar um certo desconhecimento por 5.298 municípios sobre uma diretriz nacional para políticas públicas para o livro e leitura. “O Instituto C&A, por meio do apoio às bibliotecas comunitárias, tem puxado a pauta sobre a construção dos planos municipais e estaduais. Acreditamos que este é um caminho legitimo de construção de políticas publicas para a leitura com a participação da sociedade civil. Muitos planos municipais e estaduais tem sido construídos em gabinetes sem ouvir a sociedade e, por isso, continuam sendo planos de ação da gestão pública que não congregam o que os diferentes atores da sociedade estão fazendo em prol do livro, leitura e biblioteca. Os desafios são grandes, mas se acreditamos na literatura como um meio de transformação da sociedade não podemos desanimar. Como tenho sempre usado em todos os momentos de minha fala e que deu o lema para este encontro, Um por todos e todos por um Brasil de leitores!”, completa Volnei Canônica.

Bartolomeu Campos de Queirós foi amplamente homenageado durante o Encontro Nacional do Programa Prazer em Ler, através do lançamento do livro “Depois do Silêncio: Escritos sobre Bartolomeu Campos de Queirós”, organizado por Ninfa Parreiras e Lucília Soares e da apresentação da Associação Cultural Bartolomeu Campos de Queirós, dirigida por Rosa Maria Filgueiras, moradora de Papagaios, cidade natal do escritor.

Ainda, durante as manhãs dos dias 01 a 05 de abril, no hotel Liberty, cerca de 100 pessoas, entre mediadores de leitura, coordenadores e gestores de bibliotecas comunitárias de diferentes cidades do Brasil estavam em formação sobre os eixos programáticos (espaço, acervo, medicação e gestão) e os eixos estratégicos (incidência em políticas públicas e comunicação) do programa Prazer em Ler do Instituto C&A. 

”Em 2013, entramos num novo ciclo de apoio aos pólos de leitura – composto por cinco ou mais bibliotecas comunitárias de uma mesma cidade ou território e que pode agregar também bibliotecas escolares, publicas e universidades. O apoio do programa Prazer em Ler é em investimento financeiro e técnico. Este é o Encontro Nacional, mas neste ano temos previsto também dois encontros regionais e visitas técnicas das assessoras do programa aos pólos para colaborar no desenvolvimento dos projetos de leitura.”, finaliza Volnei Canônica.

Uma Resposta para “Um por todos e todos por um Brasil de leitores”

  • Ana Luisa de O. A. Magalhães |

    Olá, sou professora de Sala de Leitura na Rede de Itaboraí e sei como importante a leitura em todas as idades para todas as pessoas. Gostaria de saber se vocês visitam as escolas e como fazer para agendar.Um abraço!

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