Festa Literária Internacional de Paraty 2014

Mesa Movimento por um Brasil literário

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Para Alice, Betânia e Ariano

Um outro aquilo: a poesia que atravessa a rua

Volnei Canônica

         O inverno sempre gelava o uniforme. O nariz escorria até chegar nos punhos da jaqueta. O caminho da escola era curto. Era atravessar a rua, logo ali na outra margem. Não era rio, mas assim se fazia.

A escola era a possibilidade de ser. Atravessar a rua exigia cuidado. Tinha que olhar para os dois lados. Atravessar era transpor, já dizia a palavra. Na cadeira dura e gelada, o mundo se materializava nas palavras da professora.  Era um mundo descrito por ela e outro desenhado por mim.

E foi num dia, na terceira série, leia-se 9 anos, que a minha educação não acordou comigo e ficou lá esquentando-se embaixo das cobertas. No quadro, as letras somavam-se e surgia “Ou isto, ou aquilo”, da Cecília Meireles:

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou  se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão, não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

Ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Quando o ponto final se escorou na última letra “o” do “aquilo”, eu, que tinha aprendido com meus pais a nunca desafiar os mais velhos, gritei: − Não concordo!

A professora não entendendo o que se passava, perguntou: − Não concorda com o que?

− Com isto ou aquilo – respondi.

Ainda com um ar de interrogação, ela me disse: − Não entendi.

− Professora, por que só tenho duas opções? Por que não posso usar luva com anel? E eu até já vi que chove em dia de sol.

A professora me disse: − Isso é poesia!

Então, foi nesse desacordo que a palavra “poesia” se apresentou. Mais tarde, ainda na escola, ouvi dizer que a poesia era igual a um queijo suíço, cheio de buracos, cheio de furos, e o que preenchia esses furos era a minha imaginação.

Pensei eu: − se isso é verdade, então não posso chamar isso de furos e sim de crateras.

Veio o tempo em que a poesia ocupou o espaço para representar meus amores. Usava a poesia para conquistar. Era o cafajeste poético!

Depois quis ser rebelde e achei que era poeta. Com rimas e versos tortos anunciava meu desespero de me encaixar e desencaixar no mundo. O meu movimento de estranhamento e de beleza. E chegou a época de estudar poesia. Estudar poetas, fases, movimentos.

Mas o que o “Ou isto ou aquilo” me trouxe foi realmente inquietude. A vontade de não ter apenas duas possibilidades, mas uma gama de opções. Cecília Meireles inaugurou isso em mim dizendo “mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo”, me fazendo desafiar a professora para ter um “aquilo outro”.

Hoje penso que se “Ou isto ou aquilo” não tivesse chegado pra mim, talvez eu não estivesse trabalhando na promoção da leitura. Talvez o meu discurso não estaria imbuído da ideia de que a literatura me dá muito mais opções do que “um ou outro”, “isto ou aquilo”, “aquele ou aquela”, “seu ou sua”.

Estou certo de que Cecília sabia disso quando escreveu esse poema que fala de algo que acredito muito: a necessidade de conhecer as opções a partir de todas as possibilidades, para então escolher.

No meu coração convive em harmonia a possibilidade de existir leitores e não-leitores. Na minha cabeça reina a ideia de que isso seja uma escolha. E só escolhemos o que conhecemos. Quando aceitamos algo que não conhecemos é porque alguém está escolhendo em nosso lugar. Ser ou não leitor tem que ser uma escolha, não uma opção.

Mas assim como eu, muitas crianças tiveram “isto ou aquilo” em seu caminho, como por exemplo, a Alice, uma menina que viveu sob o mesmo céu pernambucano de Ariano Suassuna.

Em um relato permeado por suspiros e sorrisos, a educadora da Biblioteca Comunitária Coque de Recife, Betânia Herrera, me contou que o livro Ou Isto ou aquilo, coletânea de poemas de Cecília Meireles teve suas páginas roubadas uma a uma, dia a dia, como um calendário que tem suas folhas arrancadas depois que os dias de ontem dão espaço aos dias de hoje. As páginas sumiam da brochura, dando adeus à Biblioteca do Coque, e se empilhavam na casa de Alice. Foram-se uma a uma assim como um cortejo de formigas, ficando só a capa.

Quando a educadora Betânia se deu conta de que o livro já era só casca, que sua polpa já havia sido sugada, quis descobrir o quem tinha acontecido.

Bem, dedo-duro no mundo não falta! Logo o nome de Alice apareceu. Então, assim como se entrega um presente, a educadora deu à Alice a capa do livro, dizendo: − Isso te pertence! Fica com a capa do teu livro.

Este era o papel de uma educadora? Porque Betânia não se tornou a Rainha de Copas dessa Alice, apontando o dedo da repressão dizendo: − Foi você! Cortem-lhe a cabeça!

Que experiência Alice teria tido com a poesia se tivesse sido abordada dessa maneira? Qual a biblioteca que queremos? Qual o leitor que estamos ajudamos a formar?

Fico imaginando todas as estratégias de Alice para ter os seus poemas. O frenesi para roubar “Colar de Carolina”, o suador para ter o “Leilão de jardim”, quantas unhas foram ruídas antes de “O menino azul” se esconder no seu quarto.

Estudo poesia e se tiver que conceituá-la posso não saber. Mas tenho certeza que essa experiência da Alice é pura poesia.

Uma história não deixa de puxar outra, como o fio de Ariadne no labirinto do minotauro, que nos conduz por caminhos. A minha experiência com “Ou isto ou aquilo” me possibilitou conhecer a aventura de Alice, que puxou pra mim o conto de Clarice Lispector “Felicidade clandestina”, que traz o desejo da menina de ter o livro Reinações de Narizinho, que puxa a poesia visual de uma foto da flor do mulungu, flor preferida da Emília, se abrindo em vermelho no céu azul de Guaratiba. Bem, mas isso são outras histórias, outras poesias, outras vivências.

Acho que pouco sei de poesia. Mas sei que poesia não é sardinha na boca de foca. Não é recompensa!

O que sei foi que a poesia me desafiou desde o primeiro momento, me inquietou, me apoderou para trazer a minha opinião.

Poesia é ter de olhar para os dois lados, para cima, para baixo, antes de atravessá-la.

Naquele final da manhã, quando atravessei a rua novamente, já estava praticando a filosofia de Heráclito: “Você não atravessa o mesmo rio duas vezes”. Voltava pra casa mais atrevido, mais poético!

Não consigo afirmar porque a poesia me fez mexer a bunda na cadeira gelada e estufar o peito, nem porque os poemas grudaram na mão de Alice e quiseram ir embora com ela.

Só sei que foi assim.

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