Dois pesos, uma aventura

Volnei Cunha Canônica

Estive recentemente no Japão observando a cultura deste povo.

Quando criança, acreditava que se cavasse um buraco bem fundo, pararia neste país. Já adulto, constatei que precisaria de 25 horas de voo para chegar.

Muitos foram os encantos e as surpresas. Pude conhecer um Japão que aos poucos se revelava com toda a sua riqueza entre a tradição e a modernidade.

Visitei bibliotecas, livrarias, feira de livro, escolas, museus – inclusive um dedicado à ilustração para crianças e jovens. Conheci escritores, promotores de leitura, além de um povo muito amável.

Mas foi durante a visita a um ponto turístico que me conectei com o acesso à literatura na adolescência. Ao visitar o Castelo Nijo, em Kyoto, encontrei um assoalho feito com tábuas de madeira cuidadosamente colocadas e que, ao serem pisadas, emitem o som de rouxinóis.

Conta a lenda que o Imperador mandou construir desse modo para que o chão denunciasse a presença de possíveis inimigos que sorrateiramente poderiam invadir o castelo. Outra parte não oficial da lenda diz que o piso foi construído para denunciar possíveis fugidas de suas gueixas para encontros noturnos com seus amantes.

Então, quando adentrei ao castelo e pisei no chão dos rouxinóis, logo minha memória afetiva resgatou parte do meu caso com a literatura.

Vamos lá! Meu pai trabalhou em minas de carvão em Santa Catarina. Depois casou com a minha mãe e foram morar em Caxias do Sul, região da serra, no Rio Grande do Sul. Constituiu família e investiu na profissão de pedreiro. Alguns anos se passaram até ele ter o primeiro enfarto e se aposentar dessa profissão. Mas como era muito ativo montou um ferro velho.

Nessa época, eu era muito pequeno e aos poucos fui crescendo no meio do que para muitos é lixo. Para mim, por muito tempo também foi. Na escola eu tinha vergonha de dizer que meu pai juntava lixo. Mas para ele era um trabalho e uma forma de sobreviver e manter a família.

E foi no lixo que eu tive um contato mais íntimo com a literatura.

Pensamentos como: a Literatura é para poucos; a Literatura é para letrados; é um luxo ter uma biblioteca em casa e quem tem acesso à Literatura é inteligente e mais humano, não passavam pela minha cabeça naquela época. Hoje acho que quem se agarra a esses argumentos para justificar um Brasil não leitor quer afirmar essa forma de pensar. Livro pra mim serve inclusive para segurar a porta do quarto para não bater com o vento.

Talvez essa experiência me possibilite considerar a literatura não um luxo, mas sim um direito!

Mas vocês devem estar se perguntando o que o luxo do Castelo de Nijo tem a ver com o meu castelo em Caxias do Sul. O meu castelo era de dois andares. A parte de baixo era de alvenaria e a de cima de madeira. Embaixo era o porão onde meu pai guardava as ferramentas e também servia de segunda moradia, abrigando muitas histórias. A parte de cima era a nossa moradia, propriamente dita, cozinha, sala, banheiro e quartos. O assoalho era de madeira.

Eu estudava pela manhã e logo após o almoço ajudava o meu pai. Eu odiava o trabalho e também meu pai, quando ele me fazia segurar um saco grande enquanto ele ia jogando todo o tipo de papel e papelão para dentro. Eu ajudava de tão má vontade, que de vez em quando acabava ganhando uns puxões de orelha. Mas nem tudo era sofrimento. Às vezes, o conteúdo que ia para dentro do saco eram livros e revistas. Nessa hora meus olhos arregalavam-se e meu coração pulsava mais acelerado.

Meu pai enchia o saco, amarrava-o e colocava num galpão. Os sacos eram organizados um deitado sobre o outro, formando uma pilha enorme. Meu olho corria para marcar qual era o saco que tinha aprisionava os livros. Nesse momento se estabelecia a minha relação de acesso à leitura.

O desejo de ler aquelas páginas fazia com que eu desafiasse meu pai e, às vezes, pedisse a ele para não ensacar os livros e me dar. Meu pai sempre respondia que aquilo era lixo e que valia como peso para ser vendido e ter o que comer. Na hora eu ficava tão bravo, que desejava que tudo aquilo pegasse fogo. Hoje, concordo um pouco com meu pai, pois em muitos casos alguns dos livros publicados não passavam de peso de papel.

Sempre entre às 18h e 18h30, minha mãe gritava da varanda para entrarmos, tomarmos banho e jantarmos. Por uma questão de respeito, meu pai era o primeiro.

Então, era chegado o momento de sair do meu quarto para um passeio furtivo até o barracão de papelão e ter o meu encontro com o objeto livro. Mas, para que isso acontecesse, eu teria de atravessar a casa até chegar à porta dos fundos.

Mas como chegar à porta dos fundos sem ser denunciado pelo assoalho de madeira? Era só o pé tocar no chão e a casa inteira rangia como num gemido de dor. Bem, como era de se esperar, fui pego várias vezes na tentativa do realizar esse encontro. Não fui decapitado nenhuma vez, ufa! Por isso, nunca desisti.

A noite chegava todos os dias e me convidava pra o “crime”. O que nos move é o desejo. Então, fui dedicando-me a conhecer o chão que pisava. Qual a tábua que gritava mais de dor ao sentir o meu peso? Qual tábua gemia baixinho ao saber dos meus segredos? Sentia-me um pouco como os Ninjas dos filmes da sessão da tarde.

Quando eu chegava ao barracão, abria o saco e libertava todos aqueles livros e revistas. A possibilidade de antes de dormir folear, ler, ver e vivenciar as histórias me fazia o menino mais feliz. Nesse momento eu não odiava o fato de o meu pai ter um ferro velho.

Depois de libertados meus amantes, era preciso levá-los para um lugar mais seguro: o meu quarto.

Agora o jogo com o chão de madeira era outro, porque além do meu peso tinha o peso dos personagens e das suas aventuras que eu carregava nos meus braços.

Foram muitas as fugas bem sucedidas…

Outras não. Quando isso acontecia, eu voltava chorando para colocá-los no saco e ir dormir sozinho. Ficava no meu quarto só imaginando histórias que eu nunca iria saber, que ficariam abafadas naquele barracão.

Foi dessa maneira que eu construí a minha primeira biblioteca particular.

Foi no lixo que eu conheci ao mesmo tempo a literatura e a pornografia. Ambas foram importantes para me constituir como leitor. O lixo me apresentou Alexandre Dumas, Edgar Alan Poe, Miguel de Cervantes, Virginia Wolf, Gabriel Garcia Marques, Clarice Lispector, Jorge Amado e também as fotonovelas de sacanagem.

Esse contato foi sem filtro, sem mediação, sem carimbo dizendo a faixa etária do livro. Não tinha nenhum bilhete ou aviso dizendo que eu podia ou não ter acesso ao conteúdo daquelas páginas.

Então, às vezes, ou quase sempre, questiono o politicamente correto. Politicamente correto é acolher a dúvida e conversar sobre qualquer assunto sem medo dele.

Não acredito que a literatura tenha uma função. Seria reduzir demais as possibilidades que a literatura tem de fantasiar o passado, o presente e o futuro. Esse depoimento é prova disso.

É pela capacidade ficcional que desenvolvi com as minhas leituras que estabeleço essa relação com o vivido no Japão e na minha adolescência.

Falando no Japão, fiquei muito curioso para saber se, assim como eu, as gueixas e seus amantes conseguiram se encontrar e silenciar os rouxinóis.

Não tenho certeza em relação a elas, mas eu tive vários encontros. Naquela época jamais imaginava que hoje estaria trabalhando na promoção da leitura tentando abrir as caixas de livros lacradas, armários trancados a sete chaves e livros parados nas estantes das bibliotecas.

Sou movido pelo desejo de compartilhar o que gosto. Quero que o outro tenha acesso a algo que acho importante para que ele possa fazer a escolha de ser ou não leitor.

Não consigo ver a construção de um Brasil leitor desprovido de leis, programas e pessoas conscientes do seu papel na promoção da leitura.

Trago comigo uma marca forte desses encontros adolescentes. Algo que desenvolvi para sempre como chaga de amante da literatura: alergia ao ácaro!

Um por todos e todos por um Brasil de leitores!

10 Respostas para “Texto de Volnei Canônica – FLIST 2014”

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