TEXTO  DA  FLIST

Participei, neste último fim de semana da FLIST, a Festa Literária de Santa Teresa: gosto de literatura, e gosto de Santa Teresa; e gosto também, especialmente, dessa amiga sábia e querida Ninfa Parreiras, que é uma das organizadoras do evento e me convoca.

Pois foi lá que tive oportunidade de dizer que até os 15 anos só lia história em quadrinhos. Minha motivação de jovem idealista se voltava inteiramente para a ciência. Fui excelente aluno de matemática, física e química e considerava a ciência a única atividade ou preocupação digna do ser humano ético, isto é, dedicado ao bem da humanidade.

Apareceu então na minha vida uma professora de literatura portuguesa no Colégio Mello e Souza. Chamava-se Cleonice Seroa da Mota (hoje, Berardinelli). Era jovem, bonita e radiosa; falava sobre escritores portugueses e lia trechos de Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Eça de Queiroz; dizia, sem ler, com uma emoção contagiante, inesquecível, poemas de Camões, Sá de Miranda, Antero de Quental.

Mudou a minha vida. Li “A Brasileira de Prazins”, e depois li “Os Maias”: um deslumbramento verdadeiro. Li “A Cidade e a Serra”, depois “Mar Morto”, “Capitães da Areia” e “São Jorge dos Ilhéus”; e não parei mais de ler Eça de Queiroz e Jorge Amado. Um interesse completamente novo animava minha vida. Fui compreendendo que, se a ciência busca o bem da Humanidade, a literatura leva ao conhecimento da Humanidade, à compreensão do Ser do Homem, e é uma atividade, uma ocupação tão ou mais digna do que a ciência.

Já estava, porém, encaminhado definitivamente para a carreira científica por todo o saber que havia adquirido, e ingressei na Escola de Engenharia, a velha Politécnica, que era, então, no início dos anos 50, o templo das ciências físicas no Brasil. Diplomei-me mas nunca fui um engenheiro, que é um prático por excelência; o que eu buscava era a ciência; acabei me interessando pela economia, ingressei no BNDE e findei achando na Política o meu caminho para o bem da Humanidade.

Continuei, entretanto, para o resto da vida, lendo, amando e me interessando pela literatura. Li tudo de Machado de Assis e de Guimarães Rosa, os dois brasileiros que, como Celso Furtado, teriam merecido o Prêmio Nobel se não houvesse o preconceito europeu contra o Brasil, país sem cultura e sem seriedade. E comecei a escrever: fiz um livro de contos, chamado “Gente do Rio”, que não existe mais. Li Proust, difícil, que exige determinação e só compensa depois de muitas páginas de descrições detalhadas na mais fina sensibilidade, e tive então o meu segundo deslumbramento literário, entendi o espaço e o tempo do ser humano. O terceiro deslumbramento foi com o “Grande Sertão”, também exigente em determinação de ler, páginas e páginas de esforço até compreender e entrar naquela paisagem vasta do Brasilzão, na sonoridade daquela língua brasileira criada misturando o português com o sertanejo.

Prossegui na política, tive muita sorte nas minhas eleições de deputado e senador, e um azar massacrante na minha gestão na Prefeitura. Saí muito machucado, politicamente linchado e profundamente ressentido com a injustiça do julgamento público. Lembrei-me então da literatura. Depois de Gente do Rio, havia 30 anos, absorvido pela política não tinha escrito outro livro. Apliquei-me então na escrita, resolvido a nunca mais me ocupar da política. Escrevi o que ficou sendo o meu primeiro livro: “História do Rio em Dez Pessoas”, um conjunto de dez pequenas histórias, contos, passados no Rio com personagens de diferentes décadas, desde os anos trinta quando eu nasci. A Editora Record publicou, o que parecia um carimbo de sucesso. Não foi; não vendeu nada; mas fortificou a minha decisão de virar um escritor.

A política, porém, continuou me espicaçando e eu quis dar a chamada “volta por cima”. Candidatei-me e me elegi, primeiro vereador, e depois novamente senador, mas era mesmo para encerrar. E continuei escrevendo: publiquei 15 livros, nenhum de sucesso de vendas, mas todos muito importantes para mim; pretendo fazer outros.

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