Xico da Cruz

 

Xico da Cruz nos visitava uma vez por mês. Junto com ele vinham cheiros e sabores da Fazenda de Crucilândia: queijo fresco mergulhado em água de soro e doces secos – de figo, de abóbora, de laranja, de cidra. O seco e o molhado numa visita só. Sua boca desdentada era puro sorriso. Pedia papel e lápis de ponta grossa. Olhos molhados, boca seca de sede.

Sua habilidade: desenhar igrejas. Catedrais eram as preferidas dele. As capelas, as preferidas nossas. Isso porque sobrava espaço no papel para mais um desenho. O código para realizar nosso desejo era diferente do código do matuto. Não me lembro do uso de borracha para apagar algum traço. Ele fazia o traçado em um único roçar.

Xico não lia nem escrevia palavras. Falava quase nada, resmungava, sorria e pedia com os olhos e a boca. Com a boca, queria papel. Com os olhos queria matar a fome e a sede. Enquanto houvesse papel e lápis, ele trazia o mundo das igrejas para nós: de Bonfim, de Itaguara, de Rio Manso, de Itatiauçu…

Ao final de uma jornada de visita, minha mãe fazia movimentos com as sobrancelhas. Era um aviso para cortar a brincadeira de desenhos. A gente queria entrar em outra igreja, o Xico queria acabar com aquele lápis. Ela queria sossego na casa.

A verdade é que a cada retorno dele, novos desenhos eram feitos. E a meninada da rua fazia uma roda em volta da mesa de ofício do Xico. Quanto mais lanches oferecidos, mais ele caprichava na feitura da arte. Se servisse uma refeição de almoço, ele trazia logo uma matriz. Daí, seu desejo de desenhos fartos e saborosos.

Seus olhos eram dois lagos para a gente navegar manso, sem pressa. Como atravessar de um lago a outro sem descer do barco? Como agradar ao Xico e não desobedecer à mãe? Era o que a gente aprendia a fazer.

Xico deve ter desenhado milhares de igrejas ao longo da sua vida. Ia da casa de um para outro. Morava na roça, apreciava montar em seu cavalo e visitar os conhecidos na cidade. Queria ser amado. Acreditava que estava agradando ao povo e a Deus. Daquele jeito, teria seu lugar garantido no céu.

Se há anjos, Xico é um anjo desenhista. Com ele, vi além das fachadas, das curvas, das linhas retas, das torres. Provei sinos tocarem. Com ele, abri portas e descobri vitrais. Fotografei a generosidade de quem não dominava a língua escrita, mas dominava a língua das paixões. Com ele, entendi a gratidão sem palavras. O texto sem letras. O sonho de existir com as igrejas.

Xico da Cruz me faz pensar sobre ler e escrever. Ele não sabia, era cidadão do centro-oeste mineiro, com seu cavalo, suas roças, suas igrejas, sua boca de pedir mais. Deslocava-se por terras de chão e estradas asfaltadas. Ele aprendeu a desenhar: via, fotografava e reproduzia. Fazia isso com desenvoltura, era sua lida no mundo.

Atualmente, pessoas como o Xico participam da vida social e desenvolvem seus trabalhos, com direitos de cidadão? Como estão engajadas na sociedade? Ler e escrever são ferramentas que a vida contemporânea nos exige para participamos das relações sociais e do mundo de mercado que vivemos.

Como ter cidadania, com competência para ler e escrever? Não saberia responder. Tampouco sei desenhar igrejas. Tenho as do Xico dentro de mim. Minha lida é ler e escrever, não sei viver sem isso. É assim que brinco, trabalho, me divirto, aprendo… Decifro palavras, saboreio imagens. Desenho letras e sons. Meu encontro com as estranhezas da vida.

Ninfa Parreiras

FLIST 2014

Foto: Dafne Parreiras

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