A minha primeira lembrança de fascínio com uma história foi com a leitura do livro Viagem ao Céu do Monteiro Lobato. Meus irmãos e eu passávamos as férias de verão na ilha do meu avô, em Itacuruça. Por lá ainda não havia eletricidade, então, minha mãe, Laura, gostava de reunir todos nós num quarto, geralmente o das meninas, para ouvir  um capitulino – como ela brincava de chamar os capítulos dos livros do Lobato. Mamãe lia muito bem, passava vida em cada um dos personagens. E aquela coisa de todo mundo junto, bem pertinho dela,  também era muito bom.

Parecia que o ambiente ilhesco abria as portas para o Sítio inteiro entrar. A noite com seus barulhos inexplicáveis, os vaga-lumes, o sapos-martelo, a luz dos lampiões, enfim, magia da ilha nos proporcionava o cenário ideal para entrar naquele livro.

Quando minha mãe começou a ler me identifiquei totalmente com o Pedrinho, com a Emília, enfim, com todo o pessoal do Sítio porque eles estavam lá na lua! E ainda foram a Marte e depois ficaram perdidos na Via Láctea. Aquela história me bateu como um furacão. Fiquei louca, queria tudo aquilo para mim, mas como, se eu não tinha o pó de pirlimpimpim?

Quando eu tinha oito anos – “na aurora da minha vida” – gostava de sonhar que eu era um ser de outro planeta e ainda não tinha sido contactada pelo meu povo, mas isso iria acontecer a qualquer momento, por meio de um sinal no céu, de uma carta secreta… ou será que seria por telefone mesmo?  Eu sabia, estava na cara que algo ia acontecer para me tirar daquela mesmice de casa-escola, escola-casa: A vida não podia ser só isso! Eu tinha que ser um ser extraterrestre urgentemente!

Na ilha, em noite de lua cheia, parecia até que era dia. A luz da lua era tão forte que a gente nem precisava andar de lanterna pela mata; dava para ver tudo. Era tanta luz que até fazia sombra. Muitas vezes, à noite, íamos para ponte só para ficar procurando estrela cadente ou vendo a lua e as estrelas “a olho nu”; isso quer dizer sem telescópio; aliás, quando este saía da rouparia causava um frenesi, uma excitação na gente. Vovô guardava esse telescópio a sete chaves, era um custo convencê-lo de que nós não iríamos quebrá-lo.  Ele era mesmo pesadão, grandão, devia ser do século retrasado. Mas para a gente, ali na ilha, era a coisa mais moderna que existia. Nós não víamos televisão, luz elétrica, elevadores há mil anos. Estávamos ilhados no tempo e, de repente, aquele telescópio nas nossas mãos. Podíamos ver a lua tão próxima, com suas crateras enormes, ali parada, esperando por nós. Ali tão flicts, tão calma, simplesmente esperando por nós.

Aquela leitura do Viagem ao Céu na ilha, foi tão marcante, tão viva na memória, que, sem duvida, eu fui à lua com a turma do Sítio; não com o pó de pirlimpimpim, mas voando nas páginas do livro.

Luciana Sandroni

Foto: Angelo Antônio Duarte.

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