Minha carreira de leitor literário começou aos 10 anos de idade com uma surra.

Era dia de meu aniversário, dia de semana. Lá pras 7 da noite minha mãe descobriu que precisava passar na casa de uma amiga e me pediu para ir com ela e, em consequência, quando meu pai chegou do trabalho, eu não estava em casa e ele não sabia de mim. Acontece que, tendo me trazido um belo presente de aniversário, com o correr do tempo foi ficando bem irritado com minha ausência. O pior é que voltamos depois de 10 da noite e eu tinha aula na manhã do dia seguinte. Digo o pior, porque quando chegamos ele estava fulo e eu apanhei. Não me lembro da intensidade da surra, mas lembro muito bem, até hoje, da indignação que senti, sem ter podido explicar nada diante da velocidade com que meu pai foi me atacando assim que pisei em casa.

No dia seguinte resolvi fugir de casa, logo depois da escola; na verdade saí somente depois do almoço. Antes de sair, resolvi olhar o enorme pacote que ele havia trazido pra mim. Espantado, descobri 8 grossos livros. Era a coleção completa de Rocambole, de Ponson du Terrail. Na época este personagem fazia muito sucesso, chegando inclusive a dar nome ao vocábulo rocambolesco, encontrável em dicionário. Resolvi então partir para minha aventura acompanhado do primeiro volume de Rocambole.

Fui para a rua, sem saber aonde ir. Zanzei por vários lugares de Copacabana até chegar a noite, quando então começou a cair uma chuva fininha para a qual eu não me havia preparado. Encolhi-me num cantinho da portaria de um prédio _naquela época isto era possível_ e iniciei minha leitura.

Fiquei completamente fascinado, o que entretanto não impediu que logo logo passasse a morrer de frio. Aí voltei pra casa, espirrando e com calafrios e mamãe me colocou num banho quente e depois na cama.

A partir daí, não consegui mais desprender o olhar das maravilhosas páginas rocambolescas. Ia pra aula, colocava um livro da matéria em pé na carteira e atrás o Rocambole, de modo a que a professora achasse que eu estava olhando para o livro certo. Pelo que lembro, nunca fui pego; acho que desenvolvi uma excelente estratégia de ocultação.

Até o final da adolescência, devo ter lido os 8 volumes umas 4 vezes.

Há uns 4 meses atrás, como o papel que o constitui estava se desfazendo de velhice, resolvi lê-lo pela última vez, o que acabo de concluir. Que pena, desfez-se a magia; a tradução, de 1947, é absurdamente ruim, as situações são exageradamente repetitivas e bastante piegas.

Ficou, porém, a mordida da mosca azul; nunca mais parei de ler, nunca mais deixei de sentir enorme prazer com a leitura.

Em todos os setores de minha vida, inclusive a profissional, sempre fiz, e faço, referência a contos, livros e pedaços de textos para acompanhar alguma ideia, para ilustrar alguma intenção. Uso muito, para tal, alguns contos, como Arena, de Frederic Brown, Viagem aos Seios de Duília,  de Anibal Machado, O Alienista, de Machado de Assis. Cito muito algumas frases, como por exemplo as brilhantes frases de Millôr Fernandes, e costumo lembrar algumas deliciosas tiras da Mafalda de Quino.

Livros de que também costumo falar: Todos os Homens São Mortais, de Simone de Beauvoir, História sem Fim, de Michael Ende, O Apanhador no Campo de Centeio, de J D Salinger, Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil e A Lua Vem da Ásia, de Campos de Carvalho.

É isso!

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