Vou citar alguns livros que me marcaram no período que vai da infância até meus dezoito ou dezenove anos, por aí.

O primeiro deles é, na verdade, uma coleção de 18 volumes: o Thesouro da Juventude. Tenho a coleção de capa dura azulada até hoje. Cada volume trazia cerca de oito ou dez versões de contos populares e aquilo para mim representou um tesouro de verdade. Li e reli aquelas narrativas diversas vezes. Conheci nessa maravilhosa coleção, muitos dos contos que mais tarde recontei.

O segundo livro que ficou na lembrança é Robin Hood de Monteiro Lobato, publicado pela Editora Brasiliense. Amava esse livro o qual li diversas vezes.   Li quadrinhos quando era criança mas não muito, com uma exceção: As aventuras de Tintin.  Acho o universo de histórias e imagens criado por Hergé simplesmente extraordinário. Tenho certeza de que personagens como o capitão Haddock e o professor Girassol, entre outros, deixaram marcas no meu trabalho. Isso sem falar nos desenhos.

Preciso citar Três contos infantis do suíço Peter Bichsel. Entrei em contato com esses textos lá pelos meus quinze anos por meio da revista Humboldt, de intercâmbio cultural Brasil-Alemanha. Nela, autores de língua portuguesa tinham seus textos traduzidos para o alemão e vice versa. Quando li os contos de Bichsel, disse para mim mesmo: “quero escrever que nem esse cara!”. Mais tarde, por minha insistência, a Ática publicou o livro que, na verdade, tem sete contos: O homem que não queria mais nada e outras histórias. Belíssimo.

Não posso deixar de mencionar as crônicas, particularmente de Rubem Braga, Sergio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) e Fernando Sabino. Saíam nas revistas da época e foram publicadas em livros lá pelos anos 60 pelas editoras Sabiá e do Autor. O contato com esses textos sensíveis, claros e competentes que buscavam retratar e discutir aspectos da vida cotidiana foi muito importante na minha formação como escritor.

Na década de 60, John Steinbeck ganhou o prêmio Nobel de Literatura e teve seus livros publicados no Brasil. Li vários deles: As vinhas da ira, A leste do Eden, Ratos e homens e A um deus desconhecido entre outros. Todos me marcaram muito tanto pelos temas humanos e densos como pela linguagem direta do autor. Considero “Junius Maltby” um dos melhores contos que já li.

Pela mesma época, foram publicadas as obras de Franz Kafka, traduzidas por Torrieri Guimarães. Li com meus 16, 17 anos e talvez tenham sido dos textos que mais me impressionaram na vida: O castelo, A colônia penal, O artista da fome, Meus onze filhos, Expedição à montanha e tantos outros.  A leitura de Kafka me fez perceber, ainda moleque, o tamanho, a poesia, o mistério e a importância humana que a literatura pode ter.

Por último, gostaria de citar Macunaíma, de Mário de Andrade. Fiquei deslumbrado com esse livro, pela liberdade com relação à linguagem, pelo humor transgressivo e por me apresentar, de forma original e surpreendente, a rica e complexa contradição cultural existente no Brasil.

Tenho certeza de que esses livros e textos representaram para mim um tipo de iniciação.

Ricardo Azevedo, junho de 2013

Ricardo Azevedo é escritor e ilustrador autor de Contos de enganar a morte (Ática) e Fragosas brenhas do mataréu (Ática) entre outros livros. Doutor em Letras (USP) e pesquisador na área da cultura popular. Site: www.ricardoazevedo.com.br

Deixar comentário