Saudades de Tatiana

A primeira vez que entrevistei Tatiana Belinky foi há exatamente 10 anos, quando São Paulo estava às vésperas de completar 450 anos.  Tatiana fazia parte de uma lista de notáveis paulistanos, que embora nascidos em países distantes, representavam as raízes culturais da cidade. Ela me contou que nasceu na Rússia, que era poliglota e escritora desde sempre,  e  que chegou ao Brasil aos 10 anos, fugindo com a família da revolução comunista que, em 1917, fez nascer a antiga União Soviética.

Encontrei Tatiana Belinky 5 anos depois. “Shalom”, ela disse, respondendo ao meu protocolar “tudo bem”. “Todos me perguntam se estou bem” – prosseguiu.  “Mas no fundo ninguém se preocupa como estou de fato”.  Sentei-me em sua sala cheia de livros, falei do meu filho, o Francisco, que tinha então, 8 meses. Ela falou de seu bisneto. Confidenciou uma lembrança, como quem desse um conselho de matriarca, afinal ela era mãe, avó e bisavó. Disse que quando perguntou ao pediatra com que idade deveria começar a ler para seu primeiro filho, então com quatro meses de vida, ele respondeu: “Você já está atrasada”.

Foi Tatiana quem me ensinou que até os bebês gostam de ouvir histórias. Que embora não decodifiquem as palavras, eles se encantam com o encantamento da voz narrativa dos pais. Por causa dela, o Francisco ouviu muitas e muitas histórias no pé da cama, antes mesmo de aprender a falar.

Eu lembro que na época, andava na moda corrigir “politicamente” as canções de ninar, substituindo os afazeres do Boi da Cara Preta, impedindo que as crianças apedrejassem um hipotético gato que berra. “Sou contra”, protestou Tatiana, afirmando que as canções de ninar são historicamente nefastas em todas as culturas, em todos os cantos do mundo, porque criança adora emoção. “Deve ser por isso que hoje as crianças não dormem direito”, pensei comigo, lembrando do sono frágil do Francisco e das corruptelas que andávamos cantando para ele.

Perguntei à Tatiana o que achava de moral da história. Eis o que  me respondeu: “Uma vez, a dona Benta contou uma história cuja moral era “fazer o bem sem olhar a quem”. A Emília discordou: “Para os maus, pau!”. Que me desculpe a Capitu, mas a Emília é a mulher mais inteligente do Brasil!”.

Passaram-se outros cinco anos, e o Francisco aprendeu a ler letra cursiva. Na primeira página da Cesta da Dona Maricota ele encontrou um autógrafo da Vovó Tati, sem saber ao certo, que avó era essa que ele nunca conheceu. Foi entre emocionada e honarada que eu expliquei que foi essa avó que ele só conhece nos livros, quem rabiscou as primeiras letras dessa estória de um menino que adora ler.

por: Julia Priolli

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