biblioteca

O Movimento por um Brasil literário está reunindo depoimentos e ideias acerca do tema “Qual Biblioteca Queremos”, para elaborar um documento que dê referências sobre qual Biblioteca falamos, quando nos referimos a ela.  Já é um desejo do MBL, há algum tempo, a publicação de referências neste sentido, e agora combina com uma excelente oportunidade: o Movimento é participante da coalizão Eu quero Minha Biblioteca.  Esta campanha enviou um pleito pela universalização de bibliotecas em escola nos programas de governo dos candidatos aos cargos executivos estadual e federal.

Dessa forma, nosso documento poderá contribuir para esclarecer a diversos públicos formadores de opinião e tomadores de decisão, além de apoiar políticas públicas efetivas de leitura e biblioteca, compondo também nosso acervo de publicações e ser distribuído entre as diversas redes que todos compomos.

Nesse sentido, enviamos um convite aos Núcleos de Literatura MBL para que cada um enviasse um breve texto sob o título “BIBLIOTECA QUE QUEREMOS E PRECISAMOS”, para ser usado como referência para a construção do documento final, de modo a compor uma ideia plural mas convergente sobre o que o Movimento por um Brasil literário entende por Biblioteca que queremos – e precisamos. Recebemos o retorno dos Núcleos de Florianópolis – A Barca dos Livros – e de Natal – Coletivo Canto de Página, que você pode conferir abaixo!

Você que faz parte de um Núcleo de Literatura MBL, envie sua valiosa contribuição para o e-mail [email protected] Esperamos ansiosos!

 

Que biblioteca queremos?

pelo Núcleo A Barca dos Livros (Florianópolis – SC)

“Desejamos uma biblioteca-viva, um espaço que transcenda a ideia de estantes repletas de possibilidades adormecidas nas letras de livros fechados. Desejamos uma biblioteca em que o leitor seja atuante, explore, examine, comente. Na biblioteca que desejamos, ele é o protagonista. Entendemos que assumir esse protagonismo é, no entanto, tarefa que requer coragem, já que o livro é, ainda, visto como esfinge, “decifra-me ou te devoro”. Desejamos uma biblioteca que ofereça possibilidades da desconstrução de mitos, da discussão de valores e verdades absolutas, e do combate aos truísmos e aos lugares-comuns. Para isso, acreditamos que é necessária a intervenção de todos os que atuam no espaço da biblioteca. É importante que tenhamos todos uma visão comum do que significa ler e da importância desse ato para a real transformação da sociedade. Sim, acreditamos nessa transformação. A leitura é uma via. O livro pode ser descoberta. Na biblioteca que desejamos, o objetivo principal é promover esse encontro: leitor, livro e possibilidades.”

 

A biblioteca pública que eu quero

por Ilane Ferreira Cavalcante, do Núcleo Coletivo Canto de Página (Natal – RN)

“Eu poderia começar esse texto dizendo: “Eu tenho um sonho…”. Mas, eu vou além, eu não tenho um sonho, eu tenho um desejo imenso de que haja uma biblioteca em cada bairro, em cada escola, em cada comunidade.

Em minha casa sempre houve livros, mas eu sempre amei as bibliotecas. Em uma escola onde minha mãe trabalhava, eu me sentava em grandes mesas e olhava encantada as estantes lotadas de livros. Eu era feliz nessa biblioteca, porque eu podia manusear os livros, ler as histórias, escolher o que eu leria a cada dia. As bibliotecas enriqueceram a minha infância de menina tímida.

Sou hoje professora, da área de Letras, apaixonada por literatura e tenho minha pequena biblioteca. Aos meus alunos e filhos eu tento demonstrar o amor pelos livros e pela literatura e o prazer que é o de descobrir, a cada página, novas histórias, novas paisagens, novos conhecimentos. Por isso, fico triste ao ver as bibliotecas fechadas, as bibliotecas trancadas, as bibliotecas esquecidas em tantas escolas, em tantas comunidades.

Eu quero uma biblioteca realmente pública, um lugar onde todas as faixas etárias se encontrem. Um lugar limpo, amplo, claro, cheio de cor e repleto de pessoas. Que nessa biblioteca haja um espaço lúdico onde as crianças se sentem e possam ler, confortavelmente, os mais diferentes livros, nos mais diferentes formatos. Que nessa biblioteca, as crianças tenham acesso àcontação de histórias, espetáculos de fantoches e mamulengos. Que seja uma biblioteca viva,  dinâmica, atrativa. Uma biblioteca também para os jovens, com espaço para estudos em grupo, com espaço para pesquisas no computador, com acesso à internet, com funcionários felizes por lidarem com livros e com gente. Uma biblioteca para os velhos, um ponto de encontro para comentar as coisas do dia a dia, as leituras feitas, para contar as histórias de antes. Quero essa biblioteca em minha cidade, em cada escola, em todos os lugares.”

Considerações sobre livros e literatura

por Conceição Flores, do Núcleo Coletivo Canto de Página (Natal – RN)

“Sou neta de professora primária e cresci numa casa onde havia livros. A paixão foi despertada ali, mas foi alimentada e fortalecida pelos livros da biblioteca pública Calouste Gulbenkian que havia no Faial, a minha ilha. Ir à biblioteca, escolher os títulos, trazer os livros para casa e ler à vontade foi um dos prazeres da minha juventude. A paixão me fez escolher o curso de Letras e hoje uma das atividades que realizo é instigar os jovens à leitura.

Essa atividade permeia o meu fazer profissional, sou professora de literatura portuguesa, norte-rio-grandense e de literaturas africanas de língua portuguesa. Vejo o retorno da minha atividade quando alunos dizem que se tornaram leitores a partir das minhas aulas. Fico triste quando algum aluno diz que o diretor da escola não autorizou a atividade planejada, porque literatura não é arte.

Creio que a formação de leitores não é exclusividade da escola, mas a nós professores cabe um papel fundamental nessa formação. Se a escola não promover a leitura, sobretudo a literária, quem o fará? Às vezes o acaso encarrega-se de despertar o leitor adormecido que existe em alguns. Recentemente, Thiago Gonzaga, meu ex-aluno, me contou como se tornou leitor. Aos 24 anos, era quase semianalfabeto. Tinha deixado a escola na 3a série para começar a trabalhar a fim de ajudar a mãe no sustento da casa, em virtude da morte do pai. Fazia biscates e um dia pegou um jornal no lixo para procurar emprego nos classificados. Quando abriu o jornal, viu uma foto de uma mulher bonita e um texto. Ficou instigado pela beleza da mulher e começou a ler o texto, com muita dificuldade. Foi a foto dessa mulher, a escritora Clotilde Tavares, a responsável pela sua volta à escola, pois queria ler mais e melhor. Voltou para a escola, fez o EJA. Entretanto, começou a frequentar os sebos da cidade do Natal e a comprar livros. Aos 26 anos, fez o ENEM e entrou no curso de Letras. Hoje, aos 34 anos, é dono de uma biblioteca com 5.000 exemplares, sendo 2.000 de literatura norte-rio-grandense.

Esta é uma história triste com final feliz. Mas nós não queremos que continue a acontecer, pois revela um lado trágico da vida de muitos brasileiros. Por isso, escolas e professores têm um papel especial na formação de leitores. Mas esse papel não cabe só aos agentes da educação, cabe à sociedade, em especial, ao Estado, nas esferas estadual e municipal. Como pode uma cidade como Natal permanecer há tantos anos sem a Biblioteca Pública Câmara Cascudo, fechada para uma interminável reforma? A Biblioteca Municipal Esmeraldino Siqueira tem um acervo de 10.000 exemplares e funciona apenas para consultas no local. A do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte está encerrada para obras.

Será que podemos formar leitores numa cidade onde só há uma biblioteca pública em funcionamento? Será que é possível formar leitores sem se estabelecer um vínculo entre o leitor e o livro, sem que este passe a ser um objeto de desejo? Será que as escolas estão cumprindo esse papel?

Para finalizar, vejo com tristeza e preocupação os resultados do Ideb do RN. Mas vejo também que há exceções nesse cenário. A Escola Municipal IV Centenário, onde o Cais da Leitura, projeto de extensão que visa promover a leitura literáriapor meio de encontros semanais em que são lidos textos de gêneros literários variados e de diferentes autores, realizado pelos bolsistas do PET /Letras – Literatura no RN, destaca-se no cenário do RN com um Ideb de 5,2, acima dos 4,6,  meta planejada para 2013. Acredito que, na formação de leitores, a literatura tem um papel primordial a desempenhar. Quem lê bem um texto literário, lê bem um texto pragmático, entende as questões formuladas no Ideb. Acredito que precisamos formar professores leitores, precisamos ter bibliotecas públicas que emprestem livros, precisamos de mais iniciativas para estimular a leitura literária. Por isso, iniciativas como a do Brasil Literário precisam ser multiplicadas.”

 

Uma Resposta para “Que Biblioteca Queremos?”

  • Ary C. France |

    A biblioteca deve ser um espaço lúdico para atrair CRIANÇAS. Estas devem ser o foco principal e indispensável. Depois, atrair os jovens, também prioritários, à atividades coletivas de seleção, leitura e troca de opiniões. Convidar empresas para patrocinar bibliotecas, dando possibilidade de aquisição de livros novos, divulgar entre os pais das coletividades mais carentes, principalmente.

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