A poesia e seus caminhos de fazer ler

                                                               

Por que a Poesia é importante na nossa vida?

Flávio de Araújo

Sinto a necessidade de responder, ou mais devidamente, tentar responder exemplificando tal importância sob uma ótica particular de acontecimentos, assim penso que o desafio se torna um tanto mais imaginativo, mais palatável enquanto físico e visual. Porque se tornará outra a matéria de dizer primeiramente o que é, porque poesia não é uma descrição racional, exata,  e sim uma percepção eloquente do incognoscível , em detrimento do que significa, porque na maioria das vezes não significa coisa alguma porquanto é tudo o que precisa ser, esse é o grande mistério da poesia: a prova inteligível e insondável do que existe de mais comum e perceptível, impregnada ou surgida em tudo e em todos.

A poesia está presente na ausência e na exacerbação; no agora ou no vindouro estalar de dedos; a poesia é o soco abaixo da linha cintura que nos faz render-nos diante do belo e do que nos deslumbra e também da incômoda estranheza. Geralmente a importância da poesia está atrelada a certo equívoco de prestimosidade e lógica, e é quase impossível escapar do questionamento sobre a utilidade da poesia, se contêm glúten, se os lactobacilos da poiesis trazem algum benefício à fauna intestinal. A poesia não está na esfera das coisas. Talvez esteja aí a resposta sobre o porquê do capital não ter se apoderado da poesia, principalmente por ela não ser um produto, uma manufatura mas, sobretudo por ser uma importância que raramente se compra, pois que é de natureza perene e arredia. O capitalismo sim, a grosso modo, conseguiu transformar vários sentimentos em produtos, como por exemplo, o amor aos pais em loção pós-barba; a paixão dos namorados em coração de pelúcia com bracinhos e ácaros; e no natal, os sentimentos mais nobres do ser humano deglutidos entre um pernil e nacos fartos de panetone, pondo-os no calendário aonde só é satisfeito plenamente o conceito de dádiva não pelo que significa mas, pelo quanto custa.

A poesia não dobra os joelhos diante da Santíssima Trindade do homem moderno: o Estado, o Mercado e a Razão. Ou seja, não é produto de consumo. Quando alguém que sobrevive sob o discurso de que viver é produzir e vice-versa, se depara com o inominável da poesia, sente inicialmente certo desconforto, porque poesia é dada de graça, apesar de ter altíssimo preço. Ao esquadrinhamento dessa indisposição inicial sempre rememoro a frase clichê das sapatarias, ou seja, não se desespere se mesmo calçando o seu número o sapato continua apertado, pois que na poesia é notoriamente assim, se caso pelo instante a poesia não lhe cabe, lhe aperta ou cria calos keep calm, ou ela ou você “vai ceder com o uso” – o que no caso da poesia – ou não. Desconfie do poema que oferece uma poesia funcional, tipo esses multiprocessadores dos comerciais de tv que cortam, picam, mastigam e engolem. A poesia é uma espécie de punhal de Virgulino Lampião, mas que deve ser segura não pela empunhadura, mas pela lâmina, pois que em poesia ninguém há de sair ileso. É como no poema Explicação de Drummond que diz “Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou”. Eis a grande contradição, pois a semântica da palavra poesia significa criar, fazer, enquanto verbo, é a própria que estabelece o modo de fazer a quem subjugado pela mesma fora impactado, mesmo que o indivíduo não tenha compreensão do estado poético em que vive. O grande poeta Manoel de Barros, esse exímio curvador de rios, em seu poema Matéria da Poesia, alinhava muito bem o que inexplico ao que em poesia tudo é matéria quando diz “Tudo aquilo que a nossa/civilização rejeita, pisa e mija em cima,/serve para poesia”. Essa física do abstrato dá nome, alimenta e manda a escola até aos nossos natimortos pessoais, porque tudo na vida é motivo, é fagulha de nossa incandescência vital, causa primária do que nasce e morre em nós mesmos.

A arte existe porque a vida a transborda

Eu não descobri o continuísmo da vida tentando decifrar o O Grito, de Munch, ou por cada vez estar absorto diante da arte lúcida de Arthur Bispo do Rosário, antes de pasmar-me com a arte que é a própria vida, a vida comum de todos nós. Como disse Valéry, “um homem é infinitamente mais complicado que seus pensamentos.” Exatamente essa complexidade que evidencia presente ao pensamento criativo, a arte enquanto vida, pois que são inerentes. Viver é o melhor que há, e poesia é vida. É por isso que em princípio discordo da fala de Ferreira Gullar quando afirma que a arte existe porque a vida não basta. A arte existe porque a vida a transborda. Na infância e também agora, isso é clarividente, tomo, por exemplo, todas as vezes que Seu Euzébio, meu pai, chega da pesca após 20, 30, até 60 dias pescando em alto mar, fazendo um relato minucioso de tudo o que acontece entre o estado do Espírito Santo a divisa do Uruguai. Eu compreendo assim que estou diante de um homem em estado de graça, porque há de se entender primeiramente que os pescadores desbravam um mundo onde poucos sabem, aliás, sabemos mais da atmosfera do planeta Marte do que das regiões abissais, explicitando poeticamente de que (incompreensão) às vezes o vazio é maior que a imensidão. Contava-me sobre monstros que adernavam embarcações, luzes misteriosas no céu e também submersas, ilhas surgidas do nada, tempestades, motins etc. Supra importante dizer que eu não tinha conhecimento ainda de Moby Dick de Herman Melville, ou do velho Santiago de Hemingway, e é por isso que extremamente me identifico com o poema Infância de Carlos Drummond quando diz “ E eu não sabia que minha história/era mais bonita que a de Robinson Crusoé.” No discurso de José Saramago, após ganhar o prêmio Nobel, ele menciona que o homem mais sábio que conheceu em toda a vida não sabia ler nem escrever, e ele falava do próprio pai. A importância da poesia? Pessoalmente foi deparar-me com a arte impregnada de escamas no semblante vermelho-guelra de Seu Euzébio. E é preciso dizer que eu descobri a primeira biblioteca em meu pai, e eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Júlio Verne.

A poesia é importante no sentido de nos fazer buscar as respostas sem a certeza de achá-las.

Não era tão exímio nas pelotadas, mas possuía sim a modesta fama de ser bom na estiradeira, também chamada de estilingue e baladeira. Era meter algumas boas pedras no saquitel, uma espécie de aljava que cada um costurava com um dos recortes da barra de calça, preferencialmente jeans, e sair mirando garrafas, lâmpadas e pássaros que insistiam sobrevoar na alça de mira de nossos parabéluns talhados em pau de goiabeira. Para assassinar pássaros eu tinha apenas o álibi de não ter consciência do que isto significava. Nunca gostei muito bom de comê-los fritos, diferente da turba que churrascava qualquer ossos ocos cobertos de penugem. Eu apenas fazia a vez dos Canhões de Navarone, uma singular bateria antiaérea contra qualquer revoada. Às vezes, quando uma pedra resvalava uma ave qualquer, tonteando-a apenas, sabia que, para dar alento ao pássaro desacordado, bastava tão somente soprar em sua cloaca (cu do bicho) e, por milagre, ela voltava de seu sono quase perpétuo. Esta ciência tinha algo de bíblico, e desde a tenra idade compreendia pelas Escrituras que as coisas viventes tomaram vida pelo sopro e eu tentava recordar deste fato, principalmente quando lembrava o versículo do livro de Gênesis (Cap.2 vers.7) que diz “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente. Era esta parte da Bíblia que me encheu de proezas dando-me poderes para ressuscitar os mortos, pelo menos àquela velhinha, uma donazinha que eu gostava muito e que sempre me aconselhou a não matar pássaros, e que agora estava deitada num caixão não tão esplêndido, mas que germinavam nele margaridinhas brancas e amarelas dos Campos do Senhor, debaixo de um véu encardido. Gostava daquela senhorinha vencida pela idade, ao contrário dos companheiros que só se importavam pela matança de passarinhos. Em minha cabeça pessoas surgiam pelo sopro de Deus e eu ali, um menino. Tomei então as prerrogativas do Grande Eu Sou para, com meu próprio fôlego, dar vida àquela senhora que se perpetrava entre flores mil. Tinha um plano e uma coragem aflorada. Esperei o momento exato ao milagre e ao espanto. Temia somente não ter ali, quando a velha levantasse, alguém para ajuda-la a tossir o algodão de sua boca, nariz e ouvido. Era necessário apenas uma boa estratégia para eu não ser descoberto, afinal, eu não queria aparecer no noticiário das 8 e ser convidado para ressuscitar todas as velhas da cidade. Ficaria difícil ter tempo para mirar as asas das rolinhas sobre os jambeiros e saborear o pirão de cavala seca nos dias de sábado, dia esse preferido das bicentenárias para serem veladas sob a louvação dos hinos 036, 196 e 198 da Harpa Cristã. Então, entre os pilares da minha antiga igrejinha, e fora do raio bisotrônico do dirigente da congregação, eu, um menino, investido de plenos poderes, enchi os pulmões do mais santo oxigênio e, ao passar fingindo ir a algum lugar algum, soprei pelo canto extremo da boca em direção das narinas da velhinha e…nada! Nem mexer uma pétala eu consegui. Pensei “Claro, a distância havia impossibilitado o levantamento da velha!”, mas então, já sem medo, sentei-me o mais próximo da defunta, dava até para sentir o perfume das margaridinhas regadas a formol. Minha missão era simples, consistia em tão somente soprar no nariz e ouvir a gritaria de glória glória! dos irmãos ao ver a morta dar um duplo twist carpado entre os bancos, expelindo as flores de sua morte e, claro, cuspindo o chumaço de algodão de sua boca e outros orifícios. Não tinha como dar errado! Tomei o mais abissal dos fôlegos e tendo posse de um vento impetuoso do litoral, soprei um Vushhhhhh! Mas antes de terminar toda aquele assopramento meu avô, Mestre Ambrósio, me pegou pelo braço e me levou ao pátio dizendo: – FILHO, ISSO NÃO É HORA DE RESSUSCITAR NINGUÉM! Vô Ambrósio era um desses que sacavam a feitura de um bom milagre fora de hora, e, por sua tamanha sabença, abri mão de ser o milagreiro da família, deixando também a estiradeira de lado. Conclui que, se eu não tinha o direito de ressuscitar minhas velhinhas preferidas, também não era digno levar as coisas vivas que voam ao chão de morte. Cresci e deixei de lado aquela teologia de minhas próprias exegeses e hermenêuticas, tendo que aprender, como qualquer mortal, a lidar com as perdas, mas que no fundo continuo achando inegociáveis. Mas ninguém, nesta ou noutra vida, me tirou a certeza de que possuía o poder para levantar aquela velhinha posta entre margaridinhas brancas e amarelas. Ainda tenho dúvidas se a ressuscitei ou não naquela manhã fria da minha infância.

O Menino que roubava livros

Na tentativa de ter compreensão das coisas pela escrita me enveredei numa vida criminosa, e como um Rimbald às avessas, comecei a furtar livros na esperança de encontrar respostas, pois deseja realizar outros milagres. Pelo difícil acesso aos títulos comecei roubando gibis, tendo complicações com os best sellers e num surto de impunidade, arrombei os dois cadeados em formato de Cérbero do armário que guardava os livros intocáveis da velha escola. Sendo denunciado, a própria diretora foi buscar-me debaixo da minha cama para que eu devolvesse, vejam só, apenas 16 livros que eu havia roubado. Tudo o que ando aprendendo com os livros parte do princípio de posse, claro, descobri logo então que não é necessário roubá-los para tê-los comigo, entretanto temos que facilitar essa descoberta dentro família, da escola e em qualquer lugar. O personagem principal da formação de uma sociedade leitora não é o livro enquanto objeto, nem o escritor, enquanto celebridade, mas sim o leitor. Porque em suma peixe concebe peixe e elefante elefantinho, porém um escritor não gera escritor, escritor gera leitor. São os leitores que geram leitores. Um escritor que não foi parido pelos livros é uma espécie de filho de chocadeira.

Bem, o tempo passou e eu já escrevia há alguns anos para o jornal local, mas era preciso dar um passo maior na escrita e o passo era a edição do primeiro livro, mas isso era apenas uma lonjura, não compreendia a distância e direção para chegar a editar, estava em crise, e a coisa se complicou no exato momento em que Paraty estava em completo reboliço com mais uma edição da FLIP (2006) e eu trabalhando como motoboy, entregando marmitex a sempre20, sempre30 por hora, tipo o Mad Max das quentinhas, totalmente frustrado por não estar assistindo aos grandes nomes da literatura nacional e mundial como Ferreira Gullar, Affonso Romano, Christopher Hitchens, Alberto da Costa e Silva … mas repito, frustrado por não estar participando da maior festa literária da América Latina bem no quintal da minha casa, por isso o único meio de estar atento e participando de algum modo da festa era mudar todo o itinerário de entrega dos pedidos, passando com a motoca  em frente à tenda do telão e assim, de algum modo, ver alguns nomes, ainda que muito rapidamente. Por fim, naquela balbúrdia toda, emputecido, acelerei a motoca e do nada quase atropelo um cara de rastafári que surgiu fantasmagoricamente à minha frente, e parando a minha “Harley Davidson” com o coração na boca vi que era nada mais, nada menos, que Benjamin Zephaniah, performer de dub., autor de poesia infantil, DJ de reggae, dramaturgo, apresentador de TV e rádio, ativista político, mestre em artes marciais ou seja, perdi de atropelar um dos nomes mais importantes da FLIP e ficar famoso por passar por cima de um cara que é tanta coisa! Depois deste quase fatídico episódio, mas também iluminador, desistindo de tentar atropelar escritores com feijoadas e risotos, conheci o escritor Ovídio Poli Junior, um cara do bem que me deu a maior força para o surgimento do meu primeiro livro, Zangareio, editado pelo Selo OFF FLIP, aliás, foi o primeiro livro da editora e hoje com mais de quarenta títulos. Os desdobramentos de muitos acontecimentos foram seguindo, por exemplo, acabei por participar do maior festival de poesias de Cuba, convidado para a Fliporto em Pernambuco, Flap no Amapá, Festival no México e tantos outros pelo Brasil e meu primeiro livro está sendo vertido para o inglês pela poetisa americana Rachel Morgenstern-Clarren. Atualmente coordeno junto com Ovídio a programação literária da OFF FLIP DAS LETRAS, evento que congrega dezenas de nomes promissores e já consagrados da literatura nacional e estrangeira, as atividades seguem paralelas à FLIP, assim facilitamos para que muita gente tenha oportunidade para mostrar seu trabalho durante os dias da Flip.

Contei essas histórias para dizer que tudo o que acontece, ora trágico ora surpreendente, é, como disse Manoel de Barros no sentido de que “Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma/e que você não pode vender no mercado/como, por exemplo, o coração verde/dos pássaros,/serve para poesia”. Para que serve a poesia? Para nos tornar infratores daquilo que nos delimitam. Para levar o alimento quente à alma e, para quem o entrega, a oportunidade de atropelar o inesperado e libertar-se do itinerário das obviedades. Eu poderia neste exato momento estar matando, roubando ou atropelando escritores com bifes acebolados…

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