Poesia com hora marcada

                                            Simone Monteiro de Araujo

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O pardalzinho nasceu

Livre. Quebraram-lhe a asa.

Sacha lhe deu uma casa,

Água, comida e carinhos.

Foram cuidados em vão:

A casa era uma prisão,

O pardalzinho morreu.

O corpo Sacha enterrou

No jardim; a alma, essa voou

Para o céu dos passarinhos!

                                                                                                                                                             (Pardalzinho – Manuel Bandeira)

 

            Na estrada, voltando para casa, pensei no texto que deveria escrever para falar de minha relação com a poesia, conforme o convite recebido e aceito. Também estava na estrada quando, revendo as primeiras anotações para o texto, busquei sua forma final. E, por um momento, uma imagem me veio à mente: a ideia de seguir pela estrada, olhando para frente, e, ao mesmo tempo, olhando pra trás. Lançando-me ao novo, diante do inesperado em cada nova curva e revirando memórias, rememorando momentos, em busca de mim mesma no espelho retrovisor de minha vida. Lembrei-me da criança que fui, das primeiras experiências de leitura e do primeiro encontro com a Poesia. E não era ao encontro dela que justamente a estrada me conduzia? De volta ao meu futuro, pensei em como a poesia entrou na minha vida; de que modo este encontro me afetou e deixou suas marcas e como tudo isso continua pleno de sentidos e significados.

Meu primeiro encontro com a poesia, até onde minhas lembranças alcançam, não foi o que considero definitivo, mas fundamental como marco desta retrospectiva. Na verdade, foram muitos os momentos que marcaram, cada um ao seu modo, minha trajetória de leitora de textos poéticos. Mas não considero aqui a doce lembrança nos versos quase sussurrados por minha mãe na hora de dormir ou as quadrinhas rimadas e divertidas, lidas e cantaroladas, nas festas juninas da escola ou qualquer outra circunstância nas quais ouvimos belas canções, contemplamos belas imagens, que nos afetam de algum modo, emocionam, provocam certo deslocamento e acabam por povoar nosso baú de memórias, mas sem que nos demos conta da poesia ali presente. Falo de um encontro com hora marcada, daqueles em que alguém chega e diz alguma coisa, muitas vezes em tom quase solene, para introduzir ou encerrar um assunto, colocando o poema na roda.  E foi assim, naquele dia na escola. “Para nossa primeira atividade, vamos ler um poema”, disse a  professora querida. Mas isso foi tudo. Após a leitura da história do pardalzinho da asa quebrada que recebe os cuidados de Sacha, nos envolvemos em um rol de atividades que iam desde explicar o que Manuel Bandeira já havia dito, até descobrir outras palavras com som de X, SH ou CH… Tal como o pardalzinho, morria ali o poema e embora, quem sabe, não desejasse ou não soubesse, minha professora com seu excesso de zelo, assim como Sacha, adiava meu verdadeiro encontro com a liberdade poética.

E assim, mesmo sem saber quem era o Senhor Manuel Bandeira, autor da triste, mas bonita, história daquele passarinho, a turma seguia respondendo a questões de “interpretação do texto”. Enquanto eu e meus amigos mais próximos nos perguntávamos se Sacha era menino ou menina. De onde ele/ela saiu? Como e para quê deu uma casa para o passarinho. Casa de passarinho não deveria ser árvore? Como a alma do pardal voou se o corpo foi enterrado? E voou para onde? Mas nossas dúvidas conceituais e filosóficas não cabiam no momento antes anunciado. Só mais tarde, me formando professora, descobriria que, na verdade, aquele era apenas um pretexto para as verdadeiras intensões pedagógicas da adorada mestra. O poema não cabia naquele tipo de aula.

No outro ano da escola me recordo de um segundo encontro. Desta vez com Vinicius e suas borboletas. Não preciso dizer quantas borboletas colorimos, quanto aprendemos sobre a vida das borboletas, entre outras atividades, mas desta vez, brincamos com os sons das palavras, lendo em conjunto os versos rimados. E, aos poucos, nossa mesma querida professora nos apresentava o autor e seu universo poético. Talvez porque agora, segundo suas convicções teóricas, já fôssemos mais maduros para isso. Conhecemos todos os bichos da arca e, pela primeira vez, me dei conta de que havia ali um jeito diferente de dizer as coisas do dia a dia, deixando tudo mais bonito, melódico, poético. A partir dali, comecei a me aventurar pela escrita de alguns versos ou, como diria o poeta, a lutar com as palavras. A típica adolescente (do meu tempo) e seu caderno de poesias preferidas, criadas ou copiadas. Este foi o passo para que outros muitos encontros ocorressem. Em cada encontro uma nova paixão, em cada paixão a descoberta de um novo amor: Drummond, Quintana, João Cabral, Gullar, Leminski, Manoel de Barros… Uma prova definitiva de minha promiscuidade literária, que também incluía paixões femininas: Cecília, Cora, Clarice, Tatiana, Hilda… Isto para, numa breve citação, revelar minhas principais paixões poéticas. Mas aquele que considero o encontro definitivo ou o mais marcante com a poesia foi quando li um poema de Vinicius para meu pai, um “operário em construção”. Naquele momento único, repleto de carga emocional, meu pai, a quem me orgulho de ter auxiliado a aprender a “juntar as letras”, como ele costumava dizer, se reconheceu no texto e, com os olhos marejados, se viu nas palavras do outro. Percebi, então, além da beleza da fina arquitetura das palavras, a força da poesia. Melhor dizendo, a beleza que há na força, que vem da força que há na beleza. Daquele momento, em diante, meu pai não seria mais o mesmo, também eu já era outra, assim como Vinícius passaria a ser outro pra mim, para muito além das borboletas e de todos os animais da arca.

Já professora da Rede Pública Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, uma das primeiras escolas em que tive minha origem funcional no município tinha o nome de Narcisa Amália. Nunca trabalhei lá de fato, pois consegui antes transferência para uma região mais próxima. E só anos depois descobri quem era Narcisa, poeta, nascida em São João da Barra/RJ, primeira jornalista profissional do Brasil. Combateu a opressão da mulher e a escravidão, sendo conhecida por sua fina sensibilidade social. Narcisa publicou apenas um livro de poemas: Nebulosas (1872).

Não foi a biblioteca o lugar onde encontrei a poesia. Como muitas crianças de minha geração, não tive a sorte de frequentar boas bibliotecas públicas na infância e na adolescência. Imagino o quanto poderia ter sido diferente minha trajetória se aquele encontro marcado ocorresse mais cedo… Mas ao longo de minha trajetória profissional fui descobrindo este lugar e reconhecendo sua importância, até que me vi diante da responsabilidade de coordenar ações voltadas para a leitura de literatura nas escolas públicas, incluindo a implantação de bibliotecas escolares. Aprendi que poesia, sobretudo nos anos iniciais de escolaridade, não deve ser ensinada ou utilizada apenas como mero pretexto pedagógico, pois poesia é para ser vivida, sentida e partilhada, de modo que a partir desta experiência poética, pessoal e intransferível, dentro ou fora da escola, cada um possa, a seu modo, encontrar a poesia nas pequenas e nas grandes coisas do mundo. Porque a poesia contida em um poema está naquilo que o olhar poético extrai da vida e que aflora, emerge e salta de qualquer tipo de texto, no ato de sua leitura. E nisso me lembro de Guimarães Rosa, pois como não reconhecer em toda a sua obra a dimensão poética com que costurava seus textos, nos deixando um precioso legado? Com a força dessa herança poética que recebi ao longo da vida, faço eco com aqueles que acreditam ser de fundamental importância assegurar a cada criança o direito de acesso a uma boa biblioteca. Mas também acredito ser de igual ou maior importância que cada criança tenha o desejo de ter sua biblioteca, assim como o menino desejoso de sua “Biblioteca verde”, descrito poeticamente por Drumond, para que, a partir deste encontro marcado, meninos  e meninas, crianças, jovens e adultos, enfim, seres humanos de todas as idades, possam voar com suas próprias asas.

2 Respostas para “Poesia com hora marcada”

  • João dos Reis |

    Cara Simone Descobri pela sua palestra como cada um de nós tem uma história para contar sobre o encontro com a poesia. No antigo curso ginasial, descobri tantos poetas, que não lembro quem foi o primeiro amor-poético. Cheguei até (que ousadia de jovem de 13 anos!) a escrever sonetos a partir de textos (me lembro de um, de José de Alencar). Obrigado! um abraço João dos Reis

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