13º Seminário FNLIJ de LIJ

Rio de Janeiro, 13 a 16 de junho de 2011

“Por um Brasil Literário” –

Lendo literatura na biblioteca do

Colégio Universitário Geraldo Reis,

Da Universidade Federal Fluminense

Nilma Lacerda 

Universidade Federal Fluminense

Doída confissão: 

Bartolomeu Campos de Queirós, com quem eu dialogo neste texto, não estava na apresentação que fiz no 13° Salão do Livro para Crianças e Jovens, em junho de 2011, no Rio de Janeiro. 

Preso em outra atividade, chegou pouco depois do término, desculpou-se. Prometi revisar o texto, enviar para que lesse. Era dele, afinal. Não consegui fazê-lo. No processo tão meu e tão contemporâneo de adiar tudo o que não é urgente, e sem contar com o radicalismo da vida que um dia põe a morte na agenda, soube, numa segunda-feira pela manhã, que Bartolomeu não mais o leria.

Desta carta, ele soube por ouvir dizer

Para Bartolomeu, 

encantado.  

Entre Niterói e Rio de Janeiro, 14 de junho de 2011

Bartolomeu, querido escritor e amigo,

De muito nossos caminhos se cruzam, de muito nos lemos ambos, conversamos e nos ouvimos. Beagá, Rio, Bogotá, Havana, Aracaju, haja mapa. Você me dá tantas histórias, já dei algumas pra você. Pois vai outra.

O menino franzino, uns dez anos, ou podiam ser catorze, é tão indefinível a idade deles, conseguiu a muito custo escolher um livro. Abraçou-o, esperou na fila a vez para o empréstimo. A professora respirou fundo, orgulhosa, finalmente!, ele pegava um livro. Preencheu as fichas, botou o livro de volta entre as mãos dele. No fim do dia, quase hora da saída, olha ele à porta da biblioteca, livro abraçado, e logo posto em cima da mesa. “Não vou levar não” – e antes que a professora expusesse qualquer pergunta ou argumento, ele adiantou – “eu não tenho onde guardar”.

Foi simples assim, meu amigo: “Não tenho lugar pra guardar.”

Onde é que ele morava? Que casa é essa onde não existe um cantinho de armário, uma caixa embaixo da cama, uma gaveta de roupa para guardar um livro? Pode ser algo como um corredor, uma espécie de beco entre paredes? Ao que parece.

Não contei que estávamos entre professoras, numa reunião de estudos. O silêncio atordoou, começaram os depoimentos sobre as várias soluções encontradas para que as crianças não deixassem de levar livros para casa e pudessem devolvê-los dentro de certa integridade física. Mas pasta plástica, envelope, bolsa de pano precisam do lugar em que caiba o livro.

Sei que dentro é um lugar. Mas sei que dentro talvez não baste. Apesar do investimento determinante no conceito de apropriação, a história da leitura faz-se sobre a materialidade do suporte. Para apossar-se do livro é preciso que o corpo toque o papel, que o contato com o objeto não seja breve como um clique ou efêmero como o brilho da tela. É preciso que o leitor manuseie as palavras encorpadas no escuro da tinta, concorda, Bartolomeu? Em “Ler por Ler”, Armando Petrucci observa que a ordem tradicional da leitura consiste “[…] em determinadas liturgias de comportamento dos leitores e de uso dos livros que requerem ambientes apropriadamente equipados e mobiliário e instrumentos especiais” (PETRUCCI, 1999, p. 220).

Instalado um novo “[…] modus legendi representado pelos jovens leitores […]”, este

[…] compreende, também, uma relação física intensa e direta com o livro, muito mais do que nos modos tradicionais. O livro é fortemente manipulado, amassado, dobrado, forçado, carregado junto ao corpo, e dele se toma posse, através do uso intensivo, prolongado e violento, que é típico de uma relação não tanto de leitura e de aprendizagem quanto de consumo (PETRUCCI, 1999, p. 222).

Disposto junto a gadgets os mais variados no quarto de um jovem contemporâneo, caracterizado como um dentre tantos objetos de consumo, onde fica o livro para quem sequer pode nomear casa ao espaço onde mora?

O advogado e professor Geraldo Reis deu nome a um CIEP que a Universidade Federal Fluminense tomou a si para comprovar o que sabemos sobre educação, pública ou privada: atenção ao aluno, investimento em tempo de estudo para o professor e pesquisa determinam o sucesso escolar. O Colégio Universitário Geraldo Reis da Universidade Federal Fluminense, o COLUNI, tem como diretora a professora da Faculdade de Educação, Iduína Mont’Alverne Chavescomo bibliotecária Joseni Bernardo da Silva, que acolhem o projeto em que as bolsistas de 2011, Deise Cristina Goulart Amaro, Ingrid Marcelina da Silva, Marcela Pinto Reis e Mariana Fernandes da Silva Bastos, alunas do Instituto de Letras e do Curso de Pedagogia continuam o trabalho de 2010, de Mariana e Carolina Lacé, e o de 2009, de Luziane de Oliveira Souza, Michele Saldanha Vieira, João Gimenez Neto e Mariana, veterana do projeto por mim orientado em Pesquisa e Prática de Ensino em Letras, que tem no conceito de biblioteca como espaço de docência um de seus pilares. Quando me chegou o convite para aderir ao Movimento por um Brasil Literário feito por você, olha lá a sua utopia já em movimento, querido amigo.

Por aí, pela utopia, andava Darcy Ribeiro com aquelas bibliotecas dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEP). Se alguém leria os livros daquelas bibliotecas? Como saber de antemão? O fato era que a biblioteca precisava estar lá, como Ítaca esperando por Ulisses. Como o vermelho coroando vida e morte, os limites tirados no fio da faca. Pois é, para continuar nossa conversa, tomo Vermelho Amargo, seu livro chamadoadulto, recém-publicado. Leio com travo na garganta, mesmo e outro daquele que me causou o “não tenho onde guardar”. Cato frases para a gente falar de coisas triviais, como “Vim ao mundo molhado pelo desenlace” (QUEIRÓS, 2011, p. 8).

Biblioteca de escola para o povo costuma nascer molhada pelo desenlace. Livros guardados para não serem estragados, livros fechados por não se saber o que fazer com eles, livros em arapuca para não ensinar ardil. “Preencher um dia é demasiado penoso, se não me ocupo das mentiras.”, você escreve (QUEIRÓS, 2011, p. 7).

Fingir abre caminho de verdades, põe na vida sendas de hipóteses. Como fruto de produção cultural, devedora da mentalidade que a gerou, no século XXI a escola deixa ver ainda o risco do caracol em grande parte de suas práticas: visgo, lentidão e ruga brilhosa no chão. Sem lembrar que vassoura e água virão apagar os rastros, costumamos nos deixar seduzir pela trilha breve das cartilhas.

O narrador de Vermelho Amargo retoma a infância de luto e usurpação num texto que se constrói para atestar a própria existência. Morta a mãe, a madrasta de faca em punho e ciúmes desenxerga as crianças mais o pai nas amputações a que submetia o tomate colhido na horta à hora da refeição. Impressionam o menino, e ainda no presente o adulto, o fino véu que define as fatias, a lâmina vermelha encostada no céu da boca, hóstia jorrando sangue sem ter sido mastigada. “Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência.”, escreve você à página 9 (QUEIRÓS, 2011, p. 9).

Os filhos da outra não eram vistos nem pelo amor, nem pela simples existência.  A biblioteca do COLUNI, ao contrário, era vista. E alvo de desejos. Na condição de coordenadora pedagógica em 2009, a professora Betty Silva fala da necessidade de um projeto para o espaço, de seu desejo em vê-lo fiel à origem do nome. Terminado o projeto anterior (“Leituras e escritas sobre a escola: literatura e cinema”), volto-me para a biblioteca, a fim de evitar os desenlaces. Voltada ao objetivo primeiro de restabelecer a identidade do local – a biblioteca é um lugar de ler –, tem início o projeto “Uma arte de fazer: a formação da leitora e do leitor”. Tal como definido pelas bolsistas Luziane e Michele, a biblioteca, na época, mostrava-se um ringue, em que defrontavam-se em peleja final os adversários cuja contenda tinha começado no pátio. Em trabalho para a Agenda Acadêmica da Universidade, em 2009, as duas bolsistas constatam que a atividade

[…] “Biblioteca escolar: pensar uma prática” vem tomando corpo, e pouco a pouco sendo desenvolvida a ideia germinal de revitalização da biblioteca do Colégio Universitário Geraldo Reis. O exercício da docência deve ser alimentado pela perspectiva de articulação com as atividades da biblioteca escolar, espaço indispensável a um projeto pedagógico de qualidade. A leitura literária e a leitura informativa formam o cidadão para ação no mundo, possibilitam a geração de respostas para as questões inerentes à própria condição humana (Souza, Vieira, Lacerda, 2010).

Se “O medo de permanecer desamado fazia de mim o mais inquieto dos enredos.” (QUEIRÓS, 2011, p. 10), não se podia permitir que esse mesmo destino fosse dado à biblioteca. Fui à diretora, conversamos sobre a urgência de maior engajamento para a revitalização em que estávamos empenhadas. A professora Iduína assegura sua colaboração, informa da próxima chegada da bibliotecária havia muito prometida. No primeiro semestre de 2009, Joseni Bernardo da Silva assume a coordenação do espaço. Em trabalho para o Seminário de Práticas Pedagógicas, as bolsistas desse período atestam.

[…] a continuação do trabalho na Biblioteca do COLUNI, em que se pensa a prática da biblioteca escolar como também um lugar de docência, ganhou melhor dinâmica e direcionamento, visto que chegou uma bibliotecária para dirigir o espaço, conferindo-lhe organização, melhor aspecto e cuidado com a apresentação visual, o que nos possibilitou cumprir de forma mais adequada o que era proposto, isto é, propiciar leitura literária às crianças, buscando formar leitores e dar o devido sentido à biblioteca (CANEDO, LACÉ, FERNANDES, LACERDA, 2009).

Com experiência na universidade, Joseni procura conhecer bibliotecas escolares, e vamos todas à biblioteca infantil da Casa da Leitura, sede nacional do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER), da Fundação Biblioteca Nacional.  Em reuniões semanais de estudo, de planejamento, de preparação de leituras expressivas, de um lado, e empenho de Joseni, de outro, assegurava-se à biblioteca sua identidade. A metodologia de trabalho prevê a leitura de textos literários para as turmas em horários de atendimento dentro de um planejamento temático, mas aberto às chamadas leituras selvagens ou anárquicas, conforme acepções de Chartier e Petrucci (CHARTIER, 1999, p. 104; PETRUCCI, 1999, p. 222). O atendimento individual aos leitores também faz parte de nossas atividades, com leitura solicitada pela criança que chega, procura a bolsista e pede: “Lê pra mim?”. Constrói-se assim a biblioteca interior na apropriação dos textos e produção de sentidos.

Mas “A mesma palavra que me desvela, me esconde.” (QUEIRÓS, 2011, p. 12).

Na biblioteca, sou um fluxo de narrativas e tomadas poéticas, me perco de mim, abrigada em Ulisses, acreditada como Penélope. E se encontro, Bartolomeu, em teus vermelhos, os tomates tal como os descreve – “Cortados em cruzes eles se transfiguravam em pequenas embarcações…” (QUEIRÓS, 2011, p. 14), me abro em páginas de dúvidas. Para onde os barcos de Ulisses levam este narrador? Meus barcos, onde me deixam? E os destinos na biblioteca, como se conduzem?

Em “Ler por ler”, Armando Petrucci não arrisca profecias para o futuro da leitura, mas acredita que o ato de ler será cada vez mais tomado em si, por si, o que conduz à gratuidade, à banalidade, mas igualmente à natureza mais estrita do ato de ler, ou seja, reconhecermo-nos nesses sinais grafados pela irremediável necessidade que temos de assegurar, por essa forma, nossa intrínseca humanidade. Voltado, ainda nas palavras de Petrucci, à desordem, “[…] constituído […] de caos produtivo e de consumo selvagem […]” (PETRUCCI, 1999, p. 225), continuará o ato de ler apontando para a direção que John Adams, citado por Hannah Arendt, identificara nos Discourses on Davila (Discursos em Davila)? Lá, ele dizia: “Ser totalmente ignorado e ter consciência disso, é algo intolerável. Se Crusoé tivesse a biblioteca de Alexandria em sua ilha, e a certeza de que nunca mais veria a face de um homem, será que ele jamais abriria um volume?” (ARENDT, 1988, p. 55).

“A construção de toda biblioteca pública passa pela cooperação da sociedade”, informa o site da biblioteca do Colégio Universitário, acrescentando que “É fácil encontrar a biblioteca cheia nos horários de intervalo do almoço e do lanche” (http://www.proac.uff.br/coluni/content/biblioteca-coluni). Podemos argumentar que, ali, leitores e leitoras estão certos de ver e de serem vistos? Que é um espaço onde se desenha e reconhece a face humana?

“Ao cortar o tomate […] ela o fazia exercitando um faz de conta” (QUEIRÓS, 2011, p. 16). Minha sensibilidade se encrespa, decido assinalar a frase, deixar à margem a marca da passagem da leitora. (Fica também a sensação de macular o livro, tão elegante o projeto gráfico.)

Nenhuma leitura deixa o texto sem marca. Quando um leitor comenta com outro o que leu, o que achou, o que desgostou, essas marcas assinalam sentidos, definem a comunidade, marcada por sua vez pelas leituras realizadas. Texto marcado, leitor marcado. Falar em macular talvez seja demasiado, talvez não, se guardarmos a dimensão do papiro, assinalado e raspado sucessivas vezes. Quem passa pela leitura literária vai acumulando traços e inscrições, modificando subjetividades. A avaliação do trabalho de 2010 feita por Mariana Fernandes evidencia relações entre texto e leitor:

Além disso, a leitura de Oliver Twist foi marcante, pois um dos alunos que não se importava tanto com o momento de prazer literário na biblioteca foi tocado, quando, logo no início na história, o narrador falou que as crianças abandonadas fabricavam estopas. Os alunos indagaram o que era estopa, e aí ele respondeu que servia para polir carro. A partir desse dia ele se interessou mais pelas aulas na biblioteca, porque, de fato, a história falava de um elemento que ele conhecia, já que seu pai trabalhava polindo carros e usava a estopa (FERNANDES, 2011).

A perspectiva do projeto guiava-se pela construção do valor da biblioteca, valor ao qual me tenho dedicado como formadora de leitores, destacando nas práticas de leitura o valor da biblioteca na relação acima aludida (GOULEMOT, 2001, p. 108). A relação entre obras lidas permite construir sentidos para os textos presentes e aqueles ainda por ler, assim como os elementos conhecidos no cotidiano permitem a aproximação do processo de representação estética, abrindo caminho para a fruição. Ao contrário, o texto que se afasta do universo do leitor, as práticas que ignoram suas necessidades podem constituir-se sério obstáculo à integração ao “prazer literário” referido.

Como Enzensberger, apontado por Petrucci (1999, p. 223), e Daniel Pennac, que dele se apropria (PENNAC, 1993), acreditamos nos direitos do leitor, reconhecemos a recusa de uma obra, o anseio por outra. Assisti a uma dessas escolhas na semana passada. Terminada a leitura, os alunos levantaram-se para mexer nas estantes, retirar os títulos e discuti-los com as bolsistas. Com tranquilidade e firmeza, olhavam, selecionavam, expressavam, escolhiam. Na biblioteca, aqueles jovens estavam no lugar deles, diferente do narrador de Vermelho Amargo. “Não havia opção: em qualquer lugar eu estaria em outra margem.” (QUEIRÓS, 2011, p. 17).

Acreditamos que a experiência literária pode brindar-nos com a acolhida da margem em que estamos.

Um outro livro que foi bem marcante foiAs aventuras de Huckleberry Finn. O livro tinha sido comprado pela biblioteca para que fizéssemos a mediação de leitura, só que devido a alguns contratempos não pudemos lê-lo e surgiu a ideia de emprestarmos os livros, a fim de que eles lessem e trouxessem de volta suas impressões. Quando levantamos a proposta, surgiram certos rostinhos de contragosto, só que, como diz PENNAC, expliquei-lhes os direitos imprescritíveis do leitor, e disse-lhes que poderiam ler algumas páginas, pular páginas, ler o livro todo, ler um pedaço etc. Disse ainda que não teriam nenhuma obrigação sobre o total conteúdo do livro. Para a surpresa minha e de minha colega, a expressão mudou e quase faltou livro de tanto interesse que tiveram. Na devolução da obra, conversamos um pouco, o que nos permitiu saber que alguns leram só o início e não gostaram; alguns leram até a metade. Independente do quanto tenham lido, o que mais chamou atenção foi o interesse por um livro que era considerado bem extenso para os padrões deles (FERNANDES, 2010).

“Minha mãe afirmava que muitos passam pela escola, mas a escola não passa por eles.” (QUEIRÓS, 2011, p. 52). Sábia, essa mãe. Para a escola passar por seus alunos e suas alunas, não basta “ler, escrever e fazer conta de cabeça” (QUEIRÓS, 1996) como se pensava outrora. Neste século XXI, as exigências que atravessam a escola incluem a necessária apropriação da literatura. Em “Uma literatura anfíbia”, Silviano Santiago levanta a discussão de que, no Brasil, o livro corre pelas margens, rotulado como objeto inatingível pelo povo, e só é consumido quando se associa à imagem de um intelectual em voga na mídia. Para modificar tal panorama, a educação tem papel preponderante, e deve dispor dos meios que modifiquem esse quadro histórico (SANTIAGO, 2004. pp. 63-73).

Não queremos o livro pelas margens. Para tal, é preciso sustentar que biblioteca é o lugar privilegiado de contato do indivíduo com o quinhão do conhecimento universal que toca a cada um. E que poucos lugares falam melhor de justiça e futuro que a biblioteca escolar.

Por aí andamos, atendendo a essa vocação. Os alunos e as alunas do colégio já visualizam com clareza a identidade do lugar. Sabem que não é um espaço de reforço escolar, de resolução de contendas, de brincadeiras livres, longe dos olhares de docentes e inspetores. Sabem que é um lugar para ler, para ouvir outras pessoas que leem literatura para eles, um lugar para tomar emprestados os livros que escolherem, para consultar dicionários, enciclopédias, mapas – como gostam de mapas, Bartolomeu!  Como passeiam os dedos no globo, como passeia e passa por eles a escola.

O mundo é pátria ou exílio. Quando exílio, o prato de comida nutre e amarga, mas permite vela, oceano e cais. Se o menino necessitou de palavras para vencer o oceano, reconhecemos este lastro que a biblioteca dá à menina que

E como não se surpreender quando uma aluna, com o livro em mãos e indicando a exata página em que paramos há um mês atrás, vem nos pedir que continuemos a leitura?  Ou, numa brincadeira de mímicas os pequenos leitores representem personagens, de boas ou más-artes, de histórias já lidas faz tempo? Ou ainda, e de tão igual prazer, quando um aluno vem nos perguntar qual é o nome do cavalo do Dom Quixote de Miguel de Cervantes, e, em nossa resposta, nos interrompe rimando um Rocinante? (Amaro, 2011)

Consciente de que a letra é tecnologia, e como tal não tem patrão, de que escrita e leitura não redimem o mundo das incertezas e perversidades, me alegro ao embalar o Movimento por um Brasil Literário, na mesma confiança com que ando por este país e constato mudanças e fruições. Ando por tempos, sou menina, sou adulta, sou inquieta. Como a professora de Antônio em Indez, mando alunos e alunas guardarem os objetos e, na frente da turma, abro o livro para ler mais “[…] um pedaço da história que falava de primavera, verão, outono e inverno. Histórias encantadas onde bruxas e fadas viviam entre reis e rainhas” (QUEIRÓS, 1988, p. 71).

Esta história dentro de um livro que eu queria que o menino levasse para casa, para desfrutar por mais tempo da relação física com o livro, para iludir-se sobre a propriedade daquele volume e aprender assim a exigir das autoridades um país em que fosse um direito do cidadão: ter livros. Um país em que todos fossem, realmente, cidadãos. Queria, quero. E, como te disse, foi simples assim, meu amigo. Ele devolveu o livro, virou as costas, deixando a professora perplexa de dor. Foi simples assim: “Não tenho lugar pra guardar.”

Sei que dentro é um lugar, e sei que não basta.

A biblioteca precisa existir, significativa, libertária. Escolar, pública e pessoal.

Abraço nestes frios de junho, meu querido Bartolomeu,

Nilma 

Referências

Amaro, Deise C. G.; Silva, Ingrid M. da; Reis, Marcela P.; Bastos, Mariana F. da S.; Lacerda, Nilma G. Por um Brasil Literário – Lendo literatura na Biblioteca do COLUNI. Apresentação em ppt. Niterói: Universidade Federal Fluminense,VIII Mostra de Iniciação à Docência, 2011.

Canedo, Angelica, Lacé, Carolina A., Bastos, Mariana F. da S.; LACERDA. Biblioteca escolar: A hora do conto. Niterói: Universidade Federal Fluminense, VII Mostra de Iniciação à Docência, 2010.

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Conversações com Jean Lebrun. 2ª reimp. Trad. Reginaldo de Moraes. São Paulo: Editora UNESP /Imprensa Oficial do Estado, 1999.

LACERDA, Nilma G. Uma arte de fazer: a formação da leitora e do leitor. Subprojeto de ensino. Niterói: UFF, Faculdade de Educação, 2010.

PENNAC, Daniel. Como um romance. Trad: Leny Werneck. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

PETRUCCI, Armando. Ler por ler: um futuro para a leitura. In: CHARTIER, Roger, org. História da leitura no mundo ocidental. São Paulo: Ática, 1999. pp. 203-227.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Ler, escrever e fazer conta de cabeça. Belo Horizonte: Miguilim, 1996.

______. Manifesto por um Brasil Literário. Disponível em http://www.brasilliterario.com.br/ManifestoAcesso em 22/10/2010.

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura anfíbia. In: ___. O cosmopolitismo do pobre; crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. pp. 64-73.

Souza, Luziane de O., Vieira, Michele S., Lacerda, Nilma G.Biblioteca escolar: pensar uma prática. Niterói: Universidade Federal Fluminense, Agenda Acadêmica, 2010.

http://www.proac.uff.br/coluni/content/biblioteca-coluni

Acesso a 12/06/2011.

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