A biblioteca pública representa, para a maioria da população brasileira e no âmbito das políticas públicas para a democratização do acesso à leitura no país, a maior possibilidade.

Junto às bibliotecas comunitárias, que são iniciativas implantadas, geridas e mantidas pela sociedade civil, as bibliotecas públicas são a garantia de acesso a livros e outros materiais de leitura, em suportes físicos e eletrônicos, para crianças e jovens em idade escolar, mas também para adultos que nunca fizeram ou já não fazem mais parte do sistema de educação formal. Num país como o Brasil, onde o poder aquisitivo médio da população não permite que livros façam parte da cesta básica da grande maioria das famílias, as bibliotecas públicas e também as comunitárias, representam, em resumo, a possibilidade de leitura antes, durante e depois da escola.

“A biblioteca pública representa, para a maioria da população brasileira e no âmbito das políticas públicas para a democratização do acesso à leitura no país, a maior possibilidade de educação permanente por meio do conhecimento registrado pela letra”

Historicamente, a compreensão do que seja e de para que serve a biblioteca pública vem sendo constantemente modificada, de acordo com o contexto socioeconômico mundial: desde um lugar para a instrução das pessoas para o mundo industrializado e para os novos mercados de trabalho, até a proposição de um espaço para a educação permanente da população, passando por tentativas de manutenção da ordem pública pela leitura e atividades de entretenimento, pela preocupação com a preservação e difusão do conhecimento e várias nuances e ramificações destas abordagens mais amplas.

As bibliotecas, não somente as públicas, têm como característica comum a guarda, a organização e a disponibilização do conhecimento registrado pela letra. Assim, dito de maneira bastante resumida, elas oferecem às pessoas a história, a literatura, a filosofia, a matemática, a física, o esoterismo, a religião, enfim, todas as formas de narrativa e de pensamento que em algum lugar e no tempo passado foram registradas por alguém pela escrita. O acesso autônomo a esse conhecimento guardado pela letra é restrito a quem sabe ler. As pessoas que não sabem ler podem acessar o que guardam os livros, mas dependem de um terceiro que decifre e muitas vezes interprete o que diz o código da letra. Para a formação de um leitor, feita na maioria das vezes pela escola, é preciso mais que a aprendizagem do código, da decodificação e até mesmo da construção de sentido do texto. É necessária a compreensão do que se faz quando se lê e, ainda, do que significa não ler.

É importante ressaltar que as pessoas podem, é claro, informar-se por outros meios que não dependam de leitura: conversando umas com as outras, ouvindo programas de rádio, assistindo à televisão etc, da mesma maneira que por meio do cinema e do teatro, por exemplo, experimentam outras narrativas. Mas a leitura da letra nos oferece, exclusivamente, a possibilidade de produção de sentido, a percepção do mundo, o conhecimento, pelo que nos funda mais intimamente: a palavra. A palavra de um outro, escrita há uma hora ou há um milênio, na sala ao lado ou em outro canto do mundo, que na sua compreensão exige “uma ação tipicamente metacognitiva, já que no momento em que lê, a pessoa não apenas explora um conteúdo como reflete sobre o texto que o apresenta de maneira muito mais intensa do que o que ocorre com outros meios” (BRITTO, 2003, p. 134)[1].

O entendimento do que se faz quando se lê, que é a matriz onde será forjada a biblioteca, aponta para proposições distintas. A primeira e mais facilmente realizável, para a biblioteca como espaço de conformação, de resposta ao sistema produtivo e a serviço do utilitarismo, traduzida em acervos bibliográficos que apenas atendem às demandas dos usuários, em atividades de entretenimento que dispensam os participantes do trabalho intelectual, em respostas a perguntas prontas elaboradas por terceiros, que oferecem aos sujeitos mais do mesmo que eles já têm e os mantêm, satisfeitos, em seus lugares; a segunda, a biblioteca que se abre para o mediato, para o tempo livre do capital, para a extrapolação do cotidiano por meio da história, das narrativas e do conhecimento registrados, ao longo do tempo e do espaço, pela escrita, em consonância com um projeto político maior, que professa a educação, especialmente no que toca à escola, como um espaço privilegiado para o livre pensar, como consignado por Jan Masschelein e Maarten Simons[2].

[1] BRITTO, Luiz Percival Leme. Contra o consenso: cultura escrita, educação e participação. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2003.

[2] MASSCHELEIN, Jan. SIMONS, Maarten. Em defesa da escola: uma questão pública. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.

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