Homenagem a José Mindlin

por Anna Claudia Ramos*

“Leitura é um vírus que eu procuro inocular, porque uma vez inoculado é incurável”. Essa era uma fala típica do bibliófilo José Mindlin, que partiu desta vida no dia 28 de fevereiro de 2010. Mas uma criança, ou mesmo um jovem, diante dessa frase pode se perguntar: que história é essa de inocular vírus da leitura? Vírus não faz mal? O que é inocular? Essas são apenas algumas perguntas que as crianças e os jovens podem nos fazer. Até porque, eles aprendem desde cedo que vírus é algo ruim, nocivo ao nosso organismo. Se um adulto buscasse um dicionário para explicar a eles o significado de inocular, talvez optasse pela definição que diz que essa palavra vem do latim: inoculare, gravar no espírito.
Mindlin se foi, mas deixou gravado em nosso espírito esse vírus que agora temos o compromisso de propagar. Vírus que não tem cura. Porque, uma vez contraído, é eterno. E quando morrermos ele estará gravado em nosso espírito onde quer que possamos estar. O próprio Mindlin nos explica: “o amor à leitura e ao livro é uma coisa que eu contraí não sei como na infância e que me acompanha até então. Eu procuro inocular no maior número possível de pessoas que eu encontro, especialmente crianças e jovens, o vírus do amor ao livro e à leitura. Quem pega o gosto pela leitura na infância, tem esse gosto para o resto da vida. O vírus do amor ao livro é especial, porque nos faz sentir bem e não mal como os outros vírus, e tem uma característica importante, ele é incurável. Temos que nos dedicar a essa tarefa: formar leitores.” Pois é, temos que nos dedicar a essa tarefa, e como!
Aliás, foi por este motivo que o foi criado o Movimento Brasil Literário. Para mobilizar a população brasileira para a importância da leitura de livros literários na vida de todos nós, porque a literatura é capaz de nos transportar para outros mundos e nos colocar em contato com todos os paradoxos da vida. É capaz de nos emocionar, de nos fazer pensar e nos transformar. Mindlin dizia que não gostaria de viver em um mundo onde não existissem livros. É incrível pensarmos que muita gente ainda não descobriu esse encantamento que a leitura é capaz de nos dar.
O país perdeu um grande homem, mas ao mesmo tempo ganhou a eternidade de suas palavras. “As palavras sabem muito mais longe”, como já disse nosso querido Bartolomeu Campos de Queirós. Agora ficamos com as palavras de Mindlin a ecoar em nosso espírito. Temos a obrigação de dar continuidade ao seu sonho de formar leitores. E quanto mais cedo melhor. Quanto mais cedo as crianças forem contagiadas por esse vírus do bem, mais chances teremos de formar leitores apaixonados. Temos a obrigação de fazer toda a população entender que leitura não é algo ruim, não é obrigação escolar, mas sim uma paixão, algo contagiante. Temos que transmitir esse vírus para que todos entendam a leitura como o bibliófilo entendia: “Quem não lê não sabe o que está perdendo como fonte de conhecimento e como fonte de prazer na vida. A leitura não é uma obrigação, ela é um privilégio. Pode mudar a qualidade de vida de quem não lia. Leitura é uma forma de inclusão social”. Esse privilégio não deve ser para poucos, por isso o Movimento Brasil Literário tem a missão de propagar esse vírus aos quatro ventos. Para que em cada cantinho deste Brasil tão imenso possam existir crianças com livro nas mãos, sonhando mais alto, ganhando novos horizontes, mesmo que o livro esteja de cabeça para baixo, como Mindlin fazia para ler antes mesmo de ser alfabetizado.
Quer coisa melhor do que uma criança brincando de ler? Reconstruindo sua história e seus sonhos pelas páginas de um bom livro? Se conseguirmos transmitir esse vírus desde cedo, teremos mais chances de construir uma nação mais justa, menos desigual. “Os homens passam, os livros ficam”, dizia Mindlin. Poderíamos dizer que os homens passam, suas ideias ficam. E ideias como essas, precisam ser levadas adiante. As ideias de Mindlin estarão para sempre gravadas em nosso espírito, afinal, nós já fomos pegos por esse vírus, mas temos o compromisso de propagar cada vez mais seu sonho de formar leitores apaixonados. Aliás, não é esse o sonho do Movimento Brasil Literário? Não foi para isso que nos juntamos? Que unimos nossas forças e pensamentos?
A hora é essa: vamos transmitir esse vírus saudável para toda a população brasileira! Não existem propagandas para combater o vírus da dengue? Que tal criarmos uma propaganda para transmitirmos o vírus do amor aos livros e à leitura? Onde quer que Mindlin esteja, ele irá sorrir. Sorrir porque estaremos eternizando seu sonho.

*Anna Claudia Ramos é escritora, ilustradora e presidente da Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ)

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