Durante o 180 Congresso de Leitura da Unicamp, o Movimento por um Brasil Literário promoveu uma mesa para discutir o espaço da biblioteca e suas utilidades. Mediados por Patrícia Lacerda, gerente da área Educação, Arte e Cultura do Instituto C&A, os palestrantes Percival Brito, da Universidade Federal do Oeste do Pará e Fabíola Ribeiro Farias, chefa do departamento de coordenação de bibliotecas da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte surpreenderam a platéia com suas visões nada ortodoxas sobre os usos possíveis da biblioteca.

Fabíola, além de coordenar as bibliotecas de sua cidade, está redigindo uma tese de mestrado baseada em dois manuais que foram distribuídos nos municípios brasileiros no ano 2000. Destinados aos bibliotecários, estes manuais contem instruções como oferecer revistas de corte e costura na semana da mulher, promover brincadeiras na semana da criança, oficina de massinha, origami, contação de história. Aparentemente, não há nada de equivocado nisso. A não ser, pelo fato, de que a biblioteca é o espaço da leitura, e não da gincana ou do tricôt. “Esse documento sobre o qual se debruça minha tese de mestrado, trata a biblioteca pública como uma empresa. Os leitores são clientes. As bibliotecas devem atingir metas e são usadas para conseguir mais recurso financeiro”, explicou Fabíola Farias. Segundo ela, este documento oficial sugere que as bibliotecas ofereçam cursos de computação, o que deflagra que a preocupação governamental está em criar mão de obra e não intelectualizar o jovem. “O papel da biblioteca não é formar mão de obra para o sistema. O papel da biblioteca é oferecer intelectualidade”.

Percival emendou a colocação de Fabíola acrescentando que o pior problema das bibliotecas atualmente é o fato delas lidarem com metas. Elas devem atingir um numero pré-determinado de usuários, devem integrar-se ao cenário municipal como uma das diversas opções de entretenimento, quando sua natureza não é entreter. “Qual o objeto da biblioteca?”, provocou Percival Brito, respondendo em seguida sua própria pergunta: “Livros!”

Afinal, toda leitura é um ato isolado, que exige compenetração, silêncio. Até mesmo a ideia de uma festa literária é um paradoxo em si. “A última coisa que dá pra fazer numa festa é ler”, brincou Percival. Tanto ele quanto Fabíola criticam um certo proselitismo no discurso status quo que defende a leitura no Brasil. “Toda biblioteca tem a fatídica frase do Monteiro Lobato, de que um país se faz com homens e livros”, diz Fabíola. “Mas de quais livros estamos falando? De qual leitura estamos falando”. Para Percival, existem diversos tipos de leitura. A primeira delas é a leitura instrucional, imediata, pragmática. São as placas nas ruas que lemos diariamente. A segunda leitura é ligada ao trabalho ou a informação. Lemos para nos aprimorar em determinado ofício ou para saber o que acontece no mundo. E finalmente está a leitura literária, que não é utilitária. Efetivamente ela não serve para alguma coisa especifica. Ela só serve para nos propiciar estados elevados da alma, questionar o mundo, enxergar com olhos alheios. “Eu quero defender as bibliotecas apesara de inúteis. Quero defender as bibliotecas vazias. Como um bem incomensurável que não se justifica porque não são medidas e calculadas pelos valores da produtividade”, finalizou Percival Brito.

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