por Julia Priolli

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

O excerto acima foi dito por Darcy Ribeiro no outono de seus dias, se prestando a algum tipo de revisionismo crítico e histórico de seu papel na sociedade. Seus objetivos podem não ter sido totalmente alcançados, mas seus fracassos, sem dúvida, fazem parte de formação e desenvolvimento da sociedade brasileira.
Na Festa Literária de Santa Teresa (FLIST), que aconteceu no início de maio, durante a mesa dedicada aos seus 90 anos, Luiza Aieta, coordenadora do Centro Educacional Anísio Teixeira, Yolanda Lobo professora de antropologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense e a musicista Cecília Conde, relembraram os feitos, os sonhos e o legado de Darcy Ribeiro.

Yolanda, que conheceu Darcy durante a ditadura militar quando ainda era uma jovem estudante da PUC, relembrou que o antropólogo se referia a ela e a suas colegas como “essas branquinhas que precisam conhecer o mundo”. À época, pensava consigo mesma: “Mas eu conheço quase toda a Europa”, sem saber que Darcy se referia à America Latina e aos rincões mais remotos do Brasil. Foi justamente esse conhecimento de causa das especificidades latinas e brasileiras que fizeram de Darcy Ribeiro o antropólogo que ele foi. Ribeiro tinha um projeto de integração latino-americana, de proteção dos indígenas, um projeto educacional. “O maior legado de Darcy Ribeiro foi o exemplo que ele nos deixou: sua capacidade de transformar as realidades mais difíceis, a transmissão dos valores fundamentais para construir uma sociedade igualitária”, disse Yolanda Lobo.

A reunião entre o educador Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, na década de 50, foi o encontro de duas antropologias – a cultural e a filosófica -, relatou Yolanda Lobo. Anísio, dizia-se, tinha suas diferenças com Darcy. Achava que ele falava demais “e só falava de índio”. Mas Anísio precisava de alguém que o ajudasse a entender o alto índice de evasão da escola pública do Distrito Federal e a elaborar um projeto pedagógico. Anísio assistiu à uma exposição de Darcy sobre uma tribo indígena maranhense que o havia impressionado muito por causa de seu nível de organização social e civilidade. Anísio se encantou por Darcy. Percebeu que se ele era capaz de entender uma tribo com aquela complexidade conseguiria, seguramente, entender o que acontecia com a educação pública no coração do Brasil. A partir de então, a parceria entre essas duas potências intelectuais renderia muitos frutos, entre elas, a construção da Universidade de Brasília, que se propunha a estudar e desvendar a pobreza e iniqüidades do Brasil.

Eles acreditavam que a produção acadêmica latino-americana deveria voltar-se para dentro, e não reproduzir a produção européia. Era a hora de entender e valorizar as culturas autóctones e romper com esse complexo de inferioridade. Por isso, o núcleo dessas universidades deveria ser o das ciências humanas.

A musicista Cecília Conde declarou sentir-se um monumento vivo. “Preciso fazer umdownload de minhas lembranças e baixar a época em que convivia com Darcy”, disse ela, que conheceu o antropólogo na Escola de Artes Augusto Boal, onde estudou também com Ferreira Gullar, Fernanda Montenegro e Nise da Silveira. Ela ficou encantada com Darcy. Eram os anos 60, uma década privilegiada em que se sonhava em alcançar patamares superiores. “Darcy tinha uma pulsão de brasilidade e latinidade. Ele fazia a gente acreditar que o Brasil ia dar certo.”

Cecília participou, ao lado de Darcy, da criação dos CIEPs, os Centros Integrados de Ensino Público, na década de 80. Eram tempos em que as escolas eram verdadeiros depósitos de criança. Eles transformaram o conceito de ensino público no Rio de Janeiro. Tratava-se de um projeto pedagógico de assistência em tempo integral a crianças, incluindo atividades recreativas e culturais para além do ensino formal – dando concretude aos projetos idealizados décadas antes por Anísio. Os professores passaram a entender a responsabilidade política que significava ensinar. “Ele tratava o professor como um mediador do aprendizado e foi um pioneiro”, afirmou Cecília. De acordo com ela, Darcy a ensinou a sonhar. E encerrou sua palestra com os seguintes dizeres: “Continuem sonhando e leiam mais Darcy”.

Os 100 anos de Nelson Rodrigues

No tributo aos 100 anos de Nelson Rodrigues, na Festa Literária de Santa Teresa, duas figuras essenciais nos estudos de sua obra falaram ao público. Como pano de fundo, literalmente, estavam o Pão de Açúcar e o Corcovado, na vista inigualável que a Varanda dos Autores no Parque das Ruínas oferece aos presentes. As autoras em questão eram Sônia Rodrigues, filha do próprio, lançando o livro Nelson Rodrigues por ele Mesmo, e Adriana Armony, autora da biografia ficcional A Fome de Nelson. 

Adriana contou que aos 18 anos ele sonhava em ser romancista. Nelson era obcecado por Dostoievsky e seus personagens fazem referência aos personagens do autor russo, como por exemplo, Sabino de O Casamento que se espelhava em Raskolnikov. O Leleco deAsfalto Selvagem lamenta não ter sua Sônia – a personagem que quer redimir Rasklnikov e que o acompanha até a Sibéria. Armony inventou para seu romance um personagem que conviveu com Nelson quando ele esteve internado no Sanatorinho de Campos do Jordão, na década de 30, por conta de uma tuberculose. Ela recriou episódios e personagens dostoievskianos para conviver com Nelson Rodrigues em seu romance.

Sônia Rodrigues, batizada tal qual a protagonista de Crime e Castigo, é doutora em literatura clássica e falou sobre o significado de ser filha de alguém tão importante. “Cordélia, em Rei Liar, diz que ser filha de um rei é ser filha de qualquer pai. A resposta que desencadeia toda a tragédia de rei Liar explica um pouco quem eu sou. Mas Nelson não é uma voz só. Ele é polifônico. Então ser filha de Nelson é ser filha de alguém que tem vários olhares sobre uma mesma coisa”, disse. Sônia relembrou o quanto seu pai foi maltratado nas redações de jornais na década de 70. Ele se recusava a ser um homem de esquerda, de direita ou de centro. Defendia ferozmente a sua solidão.

É impossível taxar sua prosa literária. Estereótipos e clichês circundam a análise de sua obra, mas ele fez de tudo um pouco e experimentou todo tipo de narrativa. “Nelson era contraditório. Ora ele era o revolucionário e queria espalhar tifo e gonorréia na platéia, ora ele era o reacionário que achava que as mulheres deviam apanhar e, às vezes, ainda, ele era romântico”, diz Armony. 

As pessoas conhecem Nelson Rodrigues por frases isoladas do contexto em que foram ditas, disse Sônia, em reposta às frases polêmicas de seu pai, lidas pela mediadora Marlene Araujo no início do debate. “Ele disse que toda mulher gosta de apanhar, mas disse também no mesmo depoimento, que não entraria em minúcias sobre em que lugar elas devem apanhar. Ele estava se referindo a um jogo amoroso, a uma pegada mais firme. E também disse que há mulheres que abandonam ótimos maridos porque faltou a estes maridos a implacabilidade masculina na hora certa”, explica.

As tragédias pessoais do escritor foram relembradas: o assassinato de seu irmão, a decorrente morte do pai, o desabamento que ceifou a vida de outro irmão, a dificuldade de manter o filho Nelsinho vivo durante a ditadura militar, entre outros problemas. Discutiu-se como essas tragédias marcaram sua obra.

Armony identifica no assassinato do irmão a matriz dessa fonte trágica nos escritos rodriguianos. “Trata-se de um episódio digno de uma tragédia grega. Adentrou ao jornal da família uma mulher chamada Silvia Serafin, que tinha sido objeto de uma reportagem. A reportagem tinha a mesma estrutura dos contos de A vida como ela é, que tem manchete e pequenas narrativas. Essa matéria falava que Silvia Serafin tinha feito uma operação de varizes e traído o marido com o médico. Silvia Serafin queria vingança. Ela queria matar Mario, pai de Nelson. Não o encontrando, atirou em Roberto. Nelson estava em outra sala.  Escutou um urro inumano. Depois ele viria a dizer que toda verdadeira dor é caricatural. Ele viu o irmão morrer. E seu pai morreu, literalmente, de culpa”. Como se não bastasse, o jornal da família foi fechado na década de 30 e ele chegou a passar fome. Em seguida, contrairia tuberculose e ao ser internado no sanatório encontraria pessoas com histórias de vida tão sofridas que inspirariam a criação de seus personagens.

Foto: Acervo Fundar

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