Nascimento

Nenhuma água-furtada. De porta em porta José e Maria sonhavam pousada pelas travessas de Belém. Não fora por acaso que restou-lhes a estrebaria, refúgio recoberto em palmas e acolchoado de palhas. Ao por aí se adentrar, a quase família sagrada não causou assombro ao jumento nem espanto ao boi.

Vendo-se intrusa, Maria acariciou com olhos e desculpas os animais já despertados para o sonho. O gesto da mulher afagou em graça o coração das criaturas. José fez crescer um fogo para aquecer o frio se por ali ele se atrevesse. Maria pensativa suspeitava vigília pela noite que caía.

Lá fora, o luar abrandava o escuro e voos povoavam de cascata e asa a claridade. O céu se bordava em estrelas. O vento trazia lembranças do mar no cheiro da maresia.

Era singular a noite sem contudo inquietar os insetos que sussurravam evidências às raízes. E as raízes confidenciavam notícias às pedras que se faziam preciosas. Beija-flores, sem licença, se aninhavam entre a lã das ovelhas. As ovelhas permaneciam fiéis aos pastores que já não ousavam falar às flautas. Nos ninhos, os ovos se adiantavam em filhotes. Galos afinavam as gargantas para acordar com louvores os ouvidos. Nos ramos, os botões se apressavam em flores, tudo para o absoluto milagre. Mesmo o trigo se amadureceu para o pão, as uvas se mostraram prontas para a liturgia.

As aranhas desfizeram as redes e se puseram mansas entre novelos e sedas. As serpentes — traiçoeiras e ferozes — agora indefesas pela beleza.

Gabriel abriu, de para em par, as portas do firmamento. O silêncio, que até então musicava prelúdios do nascimento, cedeu lugar a falanges de anjos e arcanjos que invadiram de glórias, cítaras e clarins a paisagem inteira. Santos e profetas, querubins e serafins se debruçaram nas constelações.

O coro do menino explodiu um tamanha liberdade que ainda se ouve o seu eco.

Reis que ao longe do presépio dormiam, souberam, por sonho e estrela-guia, do alumbramento. Pesados em ouro, incenso, mirra, bejoim, Gaspar, Baltazar e Belchior seguiram para adorações.

Pastores se apresentaram com música; tecelãs presentearam com agasalhos; lenhadores trouxeram madeira; pescadores propunham peixes; padeiros dividiam o pão; agricultores repartiam a colheita; lavadeiras ofertavam lençóis. Os animais exibiam sua penas, peles, força, canto junto da manjedoura. As crianças, ansiosas, imaginavam cirandas e adivinhações. É Natal.

Bartolomeu Campos de Queirós, em nome do Movimento por um Brasil literário

(Texto originalmente publicado em Escritura, Mazza Edições Ltda.)

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