Novo Núcleo de Literatura MBL, formado em Ilhéus, na Bahia, publicou nesse mês o  Manifesto Movimento por uma Grapiúna Mais Literária, no sentido de reforçar o Manifesto por um Brasil literário e se unir a nós para que a leitura literária possa ser garantida localmente, onde passam a atuar como integrantes dessa  rede. O Manifesto pode ser acessado na sessão de Acervo de nosso site, na aba de Núcleos, e também lido na íntegra abaixo.

Mas não foi só o pessoal baiano que teve tal iniciativa! Lembramos aqui da carta aberta lançada pelo Coletivo Canto de Página no dia do lançamento do Núcleo Potiguar, de Natal, no dia 18 de abril de 2013. Confira também abaixo!

 

“COLETIVO CANTO DE PÁGINA

Núcleo Potiguar do Movimento por um Brasil Literário

POR UM RIO GRANDE DO NORTE DE LEITORES

a folha pássaro

verde suspenso

num canto

de página

(Diva Cunha)

Suspende-se num canto de página a letra, à espera do leitor que dá sentido. Suspende-se num canto de página o desejo pela lágrima, pela dor, pelo riso, pela aventura e pelo siso do leitor que dá vida. A página do livro espera pelo leitor, a literatura espera.

A literatura espera por um leitor que não enxergue a leitura como uma atividade entediante, de um leitor que seduza e que se deixe seduzir, que não tenha de preencher fichas, que leia por prazer e sem burocracia. E nesse sonho, se expressa o desejo por uma escola em que a literatura seja liberdade, fruição e possibilidades.

Em busca do sonho comum de disseminar o livro e a leitura literária é que surge o coletivo Canto de Página, no Rio Grande do Norte. Uma homenagem à poetisa e pesquisadora potiguar Diva Cunha. Um desejo por mudança a partir de um grupo de professores, escritores, profissionais que se movimentam por uma sociedade de leitores.

Um grupo de pessoas que se compromete com a literatura e pela literatura. Um grupo que se propõe a lutar pelo livro e pela literatura por meio de ações, eventos, pesquisas, de tudo o que possa ampliar a leitura literária no Estado. Um grupo que acredita que a literatura é um direito de todos.

Um coletivo que se une em prol de uma literatura que esteja na praça, na rua, nas salas de aula. Por um leitor ativo, que interprete o mundo, que estabeleça conexões, que discuta valores, que construa novos textos, que tome a leitura literária como parte de sua prática de vida.

Porque a literatura mantém a língua em exercício.

Porque a literatura contribui para a construção da identidade.

Porque a literatura exercita a liberdade e a criatividade.

Porque a literatura nos apresenta verdades universais.

Porque a literatura educa.

Porque a literatura, como afirma Vargas Llosa, pode nos afastar da barbárie.

Por que a literatura, enfim, desenvolve em nós, como pensa Antônio Cândido, a nossa quota de humanidade.

O coletivo Canto de Página, um núcleo potiguar do Movimento por um Brasil Literário, para na soma de esforços, construir um Brasil de leitores de literatura.

Natal, 18 de abril de 2013.”

“O Manifesto Movimento por uma Grapiúna Mais Literária

A nação Grapiúna tão bem definida, contada e reverenciada em verso e prosa pelos nossos grandes ícones literários, Jorge Amado e Adonias Filho, teve seu início com outros grandes nomes das letras nacionais, Sabóia Ribeiro e Afrânio Peixoto.

A Universidade Estadual de Santa Cruz, nosso centro de debates, inquietações e estudos da região sul baiana, adquiriu desde sua fundação essa vocação literária, expressa em suas mais diversas atitudes, como no batismo dos seus prédios homenageando seus escritores ilustres, Jorge Amado, Adonias Filho e Pedro Calmon. Por meio do Centro de Estudos Portugueses Hélio Simões – CEPHS do Departamento de Letras e Artes –– DLA – da UESC tem-se editado as leituras, as pesquisas, as práticas leitoras e os novos talentos da região. Vale destacar que a UESC oferece a disciplina Literatura do Cacau I e II. Conforme depoimento do professor visitante Wiliam de Menezes, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a disciplina Literatura do Cacau representa uma experiência exitosa e que deve servir de exemplos para outras instituições de ensino e pesquisa.

A Academia de Letras de Ilhéus – ALI – entidade cultural acolhedora dessa riqueza artística e cultural da Região Grapiúna, associada as Academia de Letras do Brasil e Academia de Letras da Bahia, esforça-se para manter a tradição literária nessa Região e inovar. Outras Academias surgiram na Região.

Coerente com o principio de valorização da leitura literária, especialmente, a UESC criou a Editus, editora desta Universidade com vocação literária bem assumida e contou na trajetória dessas com a extraordinária contribuição da poeta e professora Maria Luiza Nora, carinhosamente conhecida por Baísa Nora.

Essa editora teve a felicidade de editar nomes e livros de inegável valor artístico e cultura em diversas áreas do saber. O selo Editus representa o que de melhor a Bahia teve (tem) a honra e o prazer de publicar. Destaque para o trabalho primoroso do artista visual Alencar Júnior, que tem nos brindando com uma notável qualidade visual associada as suas belas criações artísticas, enriquecendo, assim, o dialogo entre palavra e imagem.

A acadêmica e bibliotecária Eliene Sabóia contribuiu (contribui) com esse estudo e a essa valorização da nossa Literatura Grapiúna. Filha do escritor Sabóia Ribeiro, ela teve oportunidade de conviver com diversas personalidades, escritores e poetas. Retornando ao nosso chão, procurou articular a criação do PROLER UESC, com a reunião de segmentos desta região. Com esmero e muita pesquisa, Eliane cuidou da publicação de Rincões do Fruto do Ouro, livro no qual seu pai ambientou os contos a partir das terras de cacau e foi agraciado com prêmio da Academia de Letras do Brasil.

A partir da parceria firmada entre Fundação Biblioteca Nacional, representada pela Casa da Leitura, sede do Programa Nacional de Incentivo à Leitura, e a UESC, a comunidade uesqueana e a região começou a pensar efetivamente na formação do leitor. Os idealizadores deste empreendimento cultural, Professora Eliana Yunes e o presidente-poeta Affonso Romano de Sant’Anna mantiveram dialogo e encontros que garantiram a consolidação do Comitê Regional do PROLER, que hoje é coordenado pela brilhante Glória de Fatima.

Retorno ao escritor Jorge Amado para relembrar seu discurso no dia da posse na Academia de Letras do Brasil, 17/7/1961: “Nunca desejei senão ser um escritor de meu tempo e de meu País. Não pretendi e não tentei nunca fugir ao drama que nos coube viver, de um mundo agonizante e um novo mundo nascente. Não pretendi nem tentei jamais ser universal senão sendo brasileiro e cada vez mais brasileiro. Poderia mesmo dizer, cada vez mais baiano, cada vez mais um escritor baiano. E se meus livros foram felizes pelo mundo afora, se encontram acolhimento e estima dos escritores e leitores estrangeiros, devo essa estima a esse público à condição brasileira daquilo que escrevi, à fidelidade mantida para com meu povo, com quem aprendi tudo quanto sei e de quem desejei ser intérprete.”

Neste exato momento reporto-me ao Discurso de Recepção ao Acadêmico Adonias Filho (28/4/1965), proferido pelo escritor Jorge Amado, destacando essas palavras: “Que diriam os coronéis de cacau. Sr. Adonias Filho, aqueles que matavam e morreram para plantar a terra, ao ver-nos aqui, a vós e a mim, com tão estranho fardamento, membros da Academia Brasileira? Os seus meninos, que eles desejavam doutores, médicos, advogados ou engenheiros, sugaram ao nascer os seios da violência desatada, da indômita coragem e da vida vivida enfrentando a morte; assim cresceram mais do que eles pediram e esperaram, e, em vez de bacharéis, foram escritores, criadores de vida. E somos apenas dois entre os muitos escritores de cacau, a eles nos referimos mais adiante.”

O próprio Adonias em sua festa na Academia nos diz textualmente: “Seria imperdoável não mover o tempo, fazendo-o recuar, retomando o passado como a demonstrar que a infância não morre. O menino está deitado na terra, sombras na roça de cacau, os homens cortam os frutos. O agreste de Ilhéus, Itabuna e Itajuípe, em todas as aventuras do povo do sul da Bahia, chega pelas vozes que narram. Heróis que se isolam, o sangue escorre na fala, o menino escuta. A saga é violenta, guerra e ódio, também piedade e amor, a carga humana pesa como o chão de árvores. Ouviu, o menino ouviu. E quando o romancista se debruça para escrever – sem reinventar a fábula regional, sem trair as vozes, sem esquecer as figuras – é o menino quem na verdade escreve.”

Neste contexto de fruição, esmero e partilha da palavra literária por esses homens e mulheres de letra, que compreendo a Grapiúna Mais Literária. Invoco as reflexões do contista Ruy do Carmo Póvoas e autor de Fazenda de conta/fazendo de conta: “O que ficou após a vassoura de bruxa? Acabou o ciclo da literatura do cacau? Quais os arquétipos de agora, logo que o coronel, o jagunço e a mata se dissolveram? Nomes consagrados foram-se para sempre, outros tantos se aposentaram da arte de contar, sob forma de ficção, as glórias, os pesadelos e os padecimentos da desistência de nossa gente. E a interrogação continua persistindo. Então, por que não tentar sentir isso mais profundamente?”

O Manifesto do Movimento por um Brasil Literário, escrito e assinado pelo encantado poeta Bartolomeu Campos de Queirós, nos convida a olhar a cultura e a história literária da Região Grapiúna de forma singular e plural. Singular, porque temos uma história marcadamente cultural e amplamente lida em toda parte do mundo. Plural, porque, dentre tantas possibilidade para formar leitores literários, ainda estamos caminhando com os pés calçados em sapatos errados. É hora de tirarmos esses sapatos errados, metáfora do Mia Couto, em um texto lido afetuosamente pela professora e ex-coordenadora do PROLER UESC, Siomara Castro Nery. Acredito e partilho da ideia de que a leitura literária nos salvará da inércia e que essa realidade construída nos ajuda a sonhar sonhos possíveis. Viva a utopia literária. Viva a sensibilidade. Viva a gentileza. Viva a palavra poética.”

 

Uma Resposta para “Núcleos de Literatura MBL publicam manifestos locais”

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