Por Julia Priolli

No tributo aos 100 anos de Nelson Rodrigues, na Festa Literária de Santa Teresa, duas figuras essenciais nos estudos de sua obra falaram ao público. Como pano de fundo, literalmente, estavam o Pão de Açúcar e o Corcovado, na vista inigualável que a Varanda dos Autores no Parque das Ruínas oferece aos presentes. As autoras em questão eram Sônia Rodrigues, filha do próprio, lançando o livro Nelson Rodrigues por ele Mesmo, e Adriana Armony, autora da biografia ficcional A Fome de Nelson.

Adriana contou que aos 18 anos, ele sonhava em ser romancista. Nelson era obcecado por Dostoievsky e seus personagens fazem referência aos personagens do autor russo, como por exemplo, Sabino de O Casamento que se espelhava em Raskolnikov. O Leleco deAsfalto Selvagem lamenta não ter sua Sônia – a personagem que quer redimir Rasklnikov e que o acompanha até a Sibéria. Armony inventou para seu romance um personagem que conviveu com Nelson quando ele esteve internado no Sanatorinho de Campos do Jordão,  na década de 30, por conta de uma tuberculose. Ela recriou episódios e personagens dostoievskianos para conviver com Nelson Rodrigues em seu romance.

Sônia Rodrigues, batizada tal qual a protagonista de Crime e Castigo,  é doutora em literatura clássica e falou sobre o significado de ser filha de alguém tão importante. “Cordélia, em Rei Liar, diz que ser filha de um rei é ser filha de qualquer pai. A resposta que desencadeia toda a tragédia de rei Liar explica um pouco quem eu sou. Mas Nelson não é uma voz só. Ele é polifônico. Então ser filha de Nelson é ser filha de alguém que tem vários olhares sobre uma mesma coisa”, disse. Sônia relembrou o quanto seu pai foi maltratado nas redações de jornais na década de 70. Ele se recusava a ser um homem de esquerda, de direita ou de centro. Defendia ferozmente a sua solidão.

É impossível taxar sua prosa literária. Estereótipos e clichês circundam a análise de sua obra, mas ele fez de tudo um pouco e experimentou todo tipo de narrativa. “Nelson era contraditório. Ora ele era o revolucionário e queria espalhar tifo e gonorréia na platéia, ora ele era o reacionário que achava que as mulheres deviam apanhar e, às vezes, ainda, ele era romântico”, diz Armony.

As pessoas conhecem Nelson Rodrigues por frases isoladas do contexto em que foram ditas, disse Sônia, em reposta às frases polêmicas de seu pai, lidas pela mediadora Marlene Araujo no início do debate. “Ele disse que toda mulher gosta de apanhar, mas disse também no mesmo depoimento, que não entraria em minúcias sobre em que lugar elas devem apanhar. Ele estava se referindo a um jogo amoroso, a uma pegada mais firme. E também disse que há mulheres que abandonam ótimos maridos porque faltou a estes maridos a implacabilidade masculina na hora certa”, explica.

As tragédias pessoais do escritor foram relembradas: o assassinato de seu irmão, a decorrente morte do pai, o desabamento que ceifou a vida de outro irmão,  a dificuldade de manter o filho Nelsinho vivo durante a ditadura militar, entre outros problemas. Discutiu-se como essas tragédias marcaram sua obra.

Armony identifica no assassinato do irmão a matriz dessa fonte trágica nos escritos rodriguianos. “Trata-se de um episódio digno de uma tragédia grega. Adentrou ao jornal da família uma mulher chamada Silvia Serafin, que tinha sido objeto de uma reportagem. A reportagem tinha a mesma estrutura dos contos de A vida como ela é, que tem manchete e pequenas narrativas. Essa matéria falava que Silvia Serafin tinha feito uma operação de varizes e traído o marido com o médico. Silvia Serafin queria vingança. Ela queria matar Mario, pai de Nelson. Não o encontrando, atirou em Roberto. Nelson estava em outra sala.  Escutou um urro inumano. Depois ele viria a dizer que toda verdadeira dor é caricatural. Ele viu o irmão morrer. E seu pai morreu, literalmente, de culpa”. Como se não bastasse, o jornal da família foi fechado na década de 30 e ele chegou a passar fome. Em seguida, contrairia tuberculose e ao ser internado no sanatório encontraria pessoas com histórias de vida tão sofridas que inspirariam a criação de seus personagens.

Deixar comentário