Na mesa do MBL durante o 15º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, a escritora Nilma Lacerda e a pesquisadora Fabíola Farias debateram questões que fogem ao senso comum no discurso de defesa da leitura literária. “Há um discurso que funciona como um mantra da leitura, proselitista. Todo mundo acha que é importante ler, todo mundo fala de leitura, a leitura configura nas políticas públicas de educação e cultura, ela configura nos programas de responsabilidade social das empresas, ela está presente nas ações da sociedade civil organizada ou no voluntariado. Todo mundo fala de leitura. Até nas redes sociais ela está lá presente. A Clarice Lispector freqüenta diariamenente facebook e o twitter”, ironizou. “Mas pouco se vê e pouco se fala sobre as razões pela qual a leitura ocupa esse espaço. Até mesmo entre educadores, bibliotecários e professores há uma dúvida com relação às motivações da defesa do livro e da leitura”, polemizou Fabíola. Para responder sua própria indagação, Fabíola recorreu a um livro de Nilma Lacerda, Bárbara debaixo da chuva, que conta a história de um menina de uma escola rural tentando entender pra que serve aprender a ler e escrever. Ao entender a relevância da leitura, ela finalmente consegue ler.  “Isso é uma lacuna em nosso cotidiano. Nem sempre sabemos porque fazemos o que fazemos. E isso se reflete em grandes frustrações, pois fazemos muito e nem sempre vemos o resultado. As próprias campanhas de valorização da leitura, refletem o discurso esvaziados de uma leitura que te faz viajar mas que está completamente desvinculada do contexto social”.

Nilma e Fabíola atentaram para o fato de que o acesso à leitura para a criança está garantido, em certa medida,  já que a criança passa pela escola e tem contato com os livros tanto em sala de aula quanto na biblioteca escolar. Mas ambas as palestrantes apontaram a necessidade de se preocupar com as pessoas que não estão na escola. “Nós vivemos num pais onde o poder aquisitivo médio do brasileiro não permite que o livro faça parte da cesta básica das famílias. É impossível que  a família que ganhe dois ou três salários mínimos assine o jornal. A biblioteca escolar atende apenas a comunidade escolar.” É a falta de preocupação com o restante da população que não tem acesso aos livros, que na opinião de Fabíola, acaba encerrando a biblioteca escolar como uma causa isolada. “Toda a atenção para a biblioteca escolar é válida, mas é preciso um olhar atencioso também para a biblioteca pública e comunitária, que hoje chega também a muitos espaços, onde nós, do poder público, não chegamos. . Num pais onde a maioria da população não pode comprar livros, o acesso deve ser garantido por bibliotecas”, completa Fabíola.

Entender que biblioteca queremos também é um desafio no Brasil, e é uma pergunta que carrega em si questões anteriores: qual o meu objetivo com essa biblioteca e que leitor eu quero formar? Segundo Fabíola, se o leitor em questão for o leitor definido pela pesquisa Retratos da Leitura do Brasil –aquele  que leu um livro ou parte dele nos últimos três meses – haverá um modelo específico de biblioteca. Para esse leitor há um tipo de serviço, atividade e espaço dentro da biblioteca. “Esta pesquisa tem o objetivo de subsidiar a proposição de políticas publicas para o país. Mas eu também posso pensar num outro tipo de leitor. Um leitor não lê apenas um livro ou parte dele a cada 3 meses”.  Um leitor que faz do livro a ferramenta de sua emancipação, ou como define Nilma Lecrda:  “Formuladores de perguntas, e como tal, capazes de formular sentenças que são diversas das que lhes foram ensinadas como as únicas possíveis, verdadeiras ou legítimas.”

A biblioteca para o leitor  definido pela pesquisa é diferente da biblioteca do leitor definido por Nilma Lacerda.  “É diferente quando eu penso numericamente, estaticamente. No primeiro caso,  eu faço uma biblioteca para fazer o sujeito ler em três meses, não importa o quê, e nem para quê. Se eu cumpro a minha tarefa, independente de qualidade, eu cumpro minha meta”, explica Fabíola. “Mas a biblioteca que acolhe essa outra proposta de leitor exige muito mais. É uma biblioteca que escuta seus leitores, que oferece mais perguntas do que respostas.  É uma biblioteca que trabalha em função do desenvolvimento humano, como ampliação de liberdades. Eu acredito que é essa a biblioteca que deve ser garantida por projetos de promoção de leitura”, completa ela.

A partir do entendimento dessa biblioteca empenhada na educação intelectual é que pode-se pensar no acervo. Chega a hora então de outra pergunta:  Que demandas eu atender? Citando a bibliotecária francesa  Geneviéve Patte: “Ler é vontade de conhecer”.

Fabíola Farias, cuja tese de mestrado analisa o material instrucional distribuído no sistema público de bibliotecas, questiona uma recomendação primordial dos manuais de biblioteconomia: Conheça sua comunidade! “Eu me pergunto, numa proposta de formação intelectual do sujeito, qual a importância de conhecer a comunidade?”, provoca ela, respondendo categórica: “Oferecer livros de costura para costureiras, livros de peixes para peixeiros? Essa recomendação não contribui para a criação do sujeito crítico mas sim para a cristalização da sua condição. O que as pessoas precisam, elas mesmas demanadam. Eu não preciso oferecer o que é ostensivamente oferecido pelo mercado. Em termos práticos, eu ofereço Dostoievsky para uma comunidade e Sidney Sheldon para outra? O que define o caso? A renda, a moradia, as posses”, prossegue.

A palestra foi encerrada com outra provocação: “O que a literatura me oferece que o cinema não me oferece? A literatura me oferece viver a experiência do outro! Mas o cinema também me oferece. A literatura me emociona! Sim, mas a musica também me emociona. A literatura me informa!  O jornal também. O que ela me oferece exclusivamente que faz com que nos reunamos aqui por um Brasil literário? O que a legitima a querer uma política pública própria?,  prossegue Fabíola, respondendo como uma simples constatação: “Todas as formas de narração compreendem a vida humana. O romance o faz com  mas eficácia, porque seu instrumento é a língua. No romance o tempo é meu. O filme sempre durará uma hora e meia”.

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