Por Christine Fontelles, para o Promenino

Recentemente, assisti a uma saborosa palestra do escritor Cristovão Tezza, cujo tema era “A literatura à deriva”. Perguntado sobre como promover ampliação da leitura literária nas escolas – assunto que tem sido o fundamento do meu trabalho há mais de 15 anos -, ele falou sobre a polêmica envolvendo seu romance “Aventuras provisórias”, indicado para as escolas de Santa Catarina, que foi considerado inadequado por uma auxiliar pedagógica por conter linguagem chula, discurso ao qual se somou o de alguns pais de alunos – fenômeno fácil de reconhecer nos dias atuais, quando qualquer indício de oposição ao o que se quer é seguido por uma feroz caça às bruxas, que vai de impropérios disparados pelas redes sociais a agressões às vias de fato. O episódio o motivou a escrever em sua coluna na Gazeta do Povo, de Curitiba, um texto intitulado “Não me adotem”, publicado em 2009.

Segundo Tezza, há um certo antagonismo entre o conservadorismo propagado nas escolas e o caráter libertário da literatura. Literatura é vida real e texto de escola tem os contornos do socialmente correto – termo que uma querida amiga, Silvia Castrillón, prefere substituir por “moralmente hipócrita”. Ora, banir das escolas a reflexão e o debate sobre temas que são eminentemente humanos é retirar delas sua função de formar seres humanos integrais, aptos a viver em ambientes e situações que requererão dele conhecimentos, abertura e habilidades para um mundo cada vez mais multi e intercultural.

Eu não li o livro, mas assusta a forma como o fato veiculou: um fragmento da obra foi retirado do contexto da narrativa e linchado na praça pública das mídias, como se fosse, palavras do autor, um haikai.

Como se diz há muito tempo, não se julga um livro pela capa, embora ela possa, a capa, ser fator de escolha do livro, coisa que frequentador de livrarias e de antenadas bibliotecas conhece bem. E isso não é estratégia de país tido como pouco afeito à leitura – bibliotecas recém-abertas estão sendo fechadas Brasil adentro, como é o caso das bibliotecas públicas no Rio de Janeiro, uma delas, a de Manguinhos, uma biblioteca Parque, inspirada no modelo da Colômbia, não por falta de leitor, mas por decisão da gestão pública sobre onde ela acha que é importante alocar recursos públicos. Recentemente estive num evento literário no Chile e conheci uma biblioteca em Copenhague que descarta anualmente 30% do seu acervo físico porque passa a ser encontrado em meio digital e, assim, conseguem ter espaço para expor os livros com as capas de frente, usando a estratégia para atrair leitores.

Para que serve, então, a literatura? Vejamos como é tratada nas escolas. (…)

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