Por Julia Priolli

O professor Luiz Percival Britto escreve livros mas não se define como escritor. Para ele, esse é o ofício de quem faz literatura. Percival é lingüista. Pensa, pesquisa e publica livros sobre os diversos usos possíveis da linguagem. Acredita, antes de mais nada, que ler é difícil. Presente no 14º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, em um ciclo de debates promovido pelo Movimento por um Brasil Literário, ele falou sobre a dor de ler. Partiu de uma visão heideggeriana do ócio e do lazer para chegar à seguinte conclusão: “ler não é entretenimento, ou uma experiência lúdica, como preferem os pedagogos. Ler é uma atividade que exige esforço, isolamento e disposição para vivenciar a dor do existir.”

O professor não discorda da dimensão do prazer no desenvolvimento cognitivo da criança. Ela é fundamental. Mas ele atenta para o fato de que vivemos em uma sociedade em que o prazer é buscado a todo momento. E nesse contexto, o entretenimento é mercadoria. Ele deve ser de consumo fácil, ligado ao tempo ocioso, que não exige esforço ou determinação. “O tempo da diversão é o tempo do esquecimento, de não pensar em nada. Tem hora para começar e acabar. Não gera futuro e nem conseqüência”, afirma. Todo tempo livre do cidadão é suprimido com conteúdos de acesso imediato. Isso explica as televisões nos metrôs e elevadores, os rádios nos carros, os ipods, ipads e todas as variações de mídias portáteis destinadas a entreter o passageiro em trânsito.

De acordo com o linguista, o entretenimento é vendido como contraponto do trabalho, que é sinônimo de desgaste e produção. O convite ao entretenimento é um convite a uma viagem, a uma jornada, a uma experiência diferente da real, como se o real fosse sinônimo de sofrimento. “O problema dessa lógica é que ela impede que o momento do lazer seja também um momento de exercício da inteligência. Eu não vou me divertir assistindo “O Estrangeiro”, peça teatral adaptada do livro de Albert Camus, mas vou ter a importante sensação de experimentar a dor da vida”, diz ele. Quando o mesmo conceito se aplica à literatura faz-se um convite a uma “aventura” literária. Quando se busca o “prazer de ler”, exclui-se a possibilidade da leitura ser algo difícil, que demanda esforço e engajamento. E as melhores leituras são aquelas que pedem esforço. Quando indagado sobre Harry Potter e sua ação sobre o comportamento leitor de uma geração inteira, Percival Britto é categórico: “Nem toda leitura vale a pena!”.

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