Ainda me lembro da cartilha, minha alfabetização como caminho suave. Aprender a ler mesmo, porém, entendendo o contexto, só aconteceria um pouco mais tarde, com alguém muito especial: Monteiro Lobato.

Eu tinha sete anos quando peguei uma hepatite. Houve diagnóstico comprovado por exames, não foi uma dessas “viroses” tão comuns inventadas pelos médicos.  Na época o tratamento exigia repouso absoluto, fiquei dois meses de cama.

Minha avó Heloísa morava no Rio de Janeiro. Em uma de suas vindas a São Paulo, começou a ler-me Reinações de Narizinho. Líamos e comentávamos. Fiquei logo íntimo da Emília, do Visconde, Pedrinho, toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo. Comigo, desde então, sempre foi assim, geralmente faço amizade fácil com as personagens dos livros. Quando vovó precisou voltar para resolver uns problemas em casa, prometendo retornar o mais brevemente possível, andávamos pela metade das aventuras contadas na obra. Eu olhava aquele volume cheio de páginas em cima da mesinha de cabeceira dividido entre a falta de coragem de enfrentar tantas letras, e a curiosidade em saber como tudo terminaria. Resolvi tentar ir em frente sozinho. E logo de cara adorei a experiência.  O sentimento mais forte foi de independência. Eu podia “ouvir” histórias quando tivesse vontade, sem precisar pedir para ninguém. Acabei lendo tudo de Lobato, até Emília no país da gramática, e não fiquei racista pelo que me conste, diga-se de passagem.

Minhas leituras sempre foram mediadas.  Papai comprava livros, trazia para casa, recomendava, discutia comigo e com o meu irmão o enredo, ler sempre foi assunto de nossas conversas. A gente se emocionava, sofria, comemorava, torcia por nossos heróis vivos da imaginação. Um dia eu chorei lendo o Cuore, de Edmondo de Amicis. Fiquei um tempo olhando o livro impressionado. Como uma coisa como aquela, feita basicamente de papel, podia me tocar a ponto de me deixar tão triste?

Naquela época as crianças tinham horário para dormir. Era uma coisa mais ou menos rígida. Às oito e meia da noite, quando tocava a musiquinha dos cobertores Parahiba na televisão avisando ser hora de dormir, não esperávamos mamãe mandar, íamos para cama. Mas havia um acordo. Podíamos ler mais um pouco deitados. E a gente lia diariamente, muito. Quando passava o tempo permitido vinham dar boa noite e apagavam a luz. Eu e meu irmão ficávamos quietos, esperávamos o movimento da casa se aquietar, acendíamos então o abajur e continuávamos. Era comum mamãe entrar no quarto pela manhã e encontrar-nos lendo. Tínhamos varado a noite. Íamos para a escola insones.

E assim nasceu uma paixão. Até minha adolescência li com volúpia, obsessivamente, nada me dava mais prazer. Aos poucos, porém, com a maturidade, minha relação com a leitura ficou um pouco diferente. Precisei ler alguns textos por exigência profissional. De certa forma essa obrigatoriedade fez com que aquela febre baixasse um pouco. Ou as melhores personagens não são rebeldes? Embora ler continue sendo um de meus maiores prazeres, tenho saudade daqueles momentos tão intensos em que entrava na história e não queria mais sair. Quando passava o dia alheio, sonhador, vivendo no mundo real a ficção. Esse sentimento, tenho certeza, empurrou-me para a literatura infantil e juvenil. Escrevo para aquele menino louco por livros. Eu o encontro em todas as crianças e jovens que avisto. Eles são eu no meu melhor.

Ricardo Ramos Filho/22Jun13

*Ricardo Ramos Filho é escritor. Entre sua obra, estão os livros: Sonho entre amigos, O pequenino grão de areia, A [email protected] de noé, Vovô é um cometa, O Gato que Cantava de Galo, João Bolão, O livro dentro da conha, Na travessa da macarronada, O cravo brigou com a rosa e etc..

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