Na Mesa do MBL na Flip 2013, escritores, especialistas e militantes da causa literária relembraram como a literatura entrou em suas vidas. Com idades, repertórios e origens variadas, cada um dos presentes encantou a platéia com uma referencia ou lembrança muito particular.

Volnei Canônica , do Instituto C&A, nomeou dois atores fundamentais para abrir o caminho de seus desbravamentos no mundo literário: O velho Abílio, seu avô, e a professora Carla. “Sempre achei que quem engole muitas palavras com os olhos tem necessidade de soltá-las pela boca. Meu avó era uma dessas pessoas que tinha crescido mastigando o alfabeto. As histórias do velho Abílio ajudariam a legendar as minhas pequenas observações sobre tudo e todos”, contou Volnei. A professora Carla foi quem abriu o leque de possibilidades, através de uma atitude muito simples: destrancar a porta da biblioteca.   “A chave ficava guardada na sala da diretoria e se o professor quisesse, veja bem, quisesse, poderia pegá-la e apresentar aos seus alunos. Meus olhos corriam as páginas, letras e imagens de cada livro. A biblioteca não tinha um acervo grande, mas lembro que as prateleiras eram separadas por séries. Aparentemente só poderíamos retirar livros da 4ª série. Só que a professora Carla nos dizia: fiquem à vontade e sirvam-se de qualquer prateleira.”.

Ricardo Azevedo, escritor e ilustrador, diferente de Volnei, prescindiu de um mediador, de alguém que lhe abrisse a porta, porque em sua casa, os adultos estavam sempre lendo. “Meu pai e minha mãe nunca indicaram livros. Eles nunca me mandaram ler nada. Eles simplesmente liam. Os livros eram usados em beneficio próprio. Sempre via meus pais lendo, e os livros estavam lá. E por isso meus irmãos são leitores e meus filhos também, pois eu fiz exatamente a mesma coisa. É muita sorte quando a criança pode conviver com pessoas que lêem, que usam o livro em beneficio próprio”, disse Ricardo Azevedo.

O cânone literário de Flávia Tebaldi do Departamento Nacional do SESC, é o mesmo de geração que se encantou com a Coleção Vagalume. Flávia iniciou sua fala citando A Pequena Vendedora de Fósforos, de Hans Christian Andersen, que saia pela noite e pela neve tentando manter uma chama acesa. “Como uma espécie de droga para manter a lucidez, cada história, cada poesia é para mim. Como uma chama acesa de cada palito de fósforo da pequena vendedora, não para mostrar a fartura escondida por trás dos vidros, mas a miséria humana que tão bem nos especializamos em negar”, afirmou. “Na  narrativa andersiana, tão rapidamente quanto a menina acendia os fósforos, as chamas se apagavam. De acordo com a Física, para a chama se manter ativa é necessário que haja calor, oxigênio e combustível. No frio intenso, as chamas não resistem e logo se dissipam. Esta também é uma boa imagem para refletirmos sobre o nosso trabalho pela leitura”, completou Flávia.

O fogo também foi o substrato do encantamento com a leitura para a escritora e psicanalista Ninfa Parreiras. Foi com o carvão do fogão a lenha da casa da sua infância, que ela aprendeu a desenhar as letras: “Um fogão de lenha de paredes avermelhadas foi o papel onde escrevi as primeiras letras. Brincava de ser professora com as bonecas e a turma da rua. Enquanto minha mãe banhava o fundo das panelas em riscos indecifráveis, eu experimentava a cinza molhada em figuras e letras. Por que aquela curiosidade com as palavras? Com os sons trazidos pela brincadeira de juntar uma letra com a outra. Com a textura do resto de lenha. Por que escrever em paredes que estavam quase sempre aquecidas? Aquele fogão era um tapete mágico onde escutávamos histórias e casos. Dali presenciava o fazer doces, o sapecar o frango, o transformar o leitão em comida para o mês. Lugar da fome e da satisfação, da água aquecida para o banho, do estalar da madeira, do ajuntamento das pessoas. O que fazer com as cinzas?”. Ninfa escutava seu pai contando histórias. Ele lia para os sete filhos. “Sonetos, prosas, verbetes de dicionários e história do Brasil e do mundo. Em voz alta, chegavam notícias de jornal e textos do Antigo Testamento.”

Ricardo Ramos Filho, escritor, contou que foi a hepatite quem desencadeou todo o processo: “Eu tinha sete anos quando peguei uma hepatite. Houve diagnóstico comprovado por exames, não foi uma dessas “viroses” tão comuns inventadas pelos médicos.  Na época o tratamento exigia repouso absoluto, fiquei dois meses de cama. Minha avó Heloísa morava no Rio de Janeiro. Em uma de suas vindas a São Paulo, começou a ler-me Reinações de Narizinho. Líamos e comentávamos. Fiquei logo íntimo da Emília, do Visconde, Pedrinho, toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo. Comigo, desde então, sempre foi assim, geralmente faço amizade fácil com as personagens dos livros. Quando vovó precisou voltar para resolver uns problemas em casa, prometendo retornar o mais brevemente possível, andávamos pela metade das aventuras contadas na obra. Eu olhava aquele volume cheio de páginas em cima da mesinha de cabeceira dividido entre a falta de coragem de enfrentar tantas letras, e a curiosidade em saber como tudo terminaria. Resolvi tentar ir em frente sozinho. E logo de cara adorei a experiência.  O sentimento mais forte foi de independência. Eu podia “ouvir” histórias quando tivesse vontade, sem precisar pedir para ninguém. Acabei lendo tudo de Lobato, até Emília no país da gramática, e não fiquei racista pelo que me conste, diga-se de passagem.”

Encerrando a conversa, Ricardo Azevedo  citou o autor Wolfgang Iser para explicar o papel da literatura: “Diz o Iser que quando nos damos conta de que nascemos e que existimos já se passaram uns três anos.  Pegamos o bonde andando, e ele chama isso de um ponto cardeal inicial. Não temos consciência e nem controle. Somos atirados na vida e nosso ponto cardeal inicial é involuntário”, explicou Azevedo.  “O ponto final é a morte. Quando a gente vai morrer e poder entender alguma coisa, a gente bate as canelas e morre”, prosseguiu ele, para uma platéia risonha.  “Não dá tempo de entender nada. A morte é o ponto cardeal final. Entre estes dois pontos está a experiência. O homem é um animal complexo e que elabora um processo de preenchimento dos buracos, dos vazios, das coisas que não entendemos. A literatura e a ficção são alguns dos inventos que o homem fez para tentar preencher as lacunas, as perguntas, as angustias, os vazios.”

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