“Fazia um frio terrível; caía a neve e estava quase escuro; a noite descia: a última noite do ano.” Assim tem início “A pequena vendedora de fósforos”, de Hans Christian Andersen, que conta a história da menina miserável que sai à rua na noite de ano novo para vender fósforos, e no qual voltarei a falar adiante. Não sei precisar o primeiro livro que li ou que ganhei. Ao tentar organizar em minha mente uma cronologia das minhas leituras, um turbilhão de imagens, sons, sentidos e palavras, que pensei terem se perdido, vem à tona de uma forma desordenada e fugaz. Lembro-me dos clássicos, A chapeuzinho vermelho, João e Maria, A Polegarzinha e me lembro de A Arca de Noé, livro de poemas infantis de Vinícius de Moraes, editado pela José Olympio e que releio até hoje. Não consigo esquecer também do Menino Maluquinho, que minha irmã ganhara de Natal e eu queria para mim. Já maior, lá pelos doze anos, conheci Clarice Lispector. Depois veio Manuel Bandeira (de quem não gostei muito naquela ocasião) e Drummond. E mais Vinícius, e Raquel de Queiroz, e tantos outros que foram aos poucos se juntando à minha Clarice.

Minha geração foi formada pela leitura escolar da famosa Coleção Vagalume: Xisto e o pássaro Cósmico, Barcos de Papel, Escaravelho do Diabo. O que eu lia além disso, era literatura que tinha na minha casa, entre os livros de direito da minha mãe e de plantas medicinais de meu pai. Mas o fato é que a triste história de Andersen, lida quando eu tinha uns seis anos, nunca saiu da minha cabeça. Como aquele vergalhão que cruzou a minha perna direita quando eu deixava a padaria, após rodopiar exaustivamente para ver nos ladrilhos hidráulicos do piso o efeito que a tontura causava, e cuja cicatriz nunca desapareceu. Pelo contrário, ela cresceu junto comigo, prova e castigo do meu ‘crime’ infantil. E creio mesmo que é assim, como cicatriz, e não como afago, que a literatura vive em mim. É a busca por aquela angústia primeva, sentida na leitura da “Pequena Vendedora de Fósforos” que me move como leitora. Como uma espécie de droga para manter a lucidez, cada história, cada poesia é para mim. Como uma chama acesa de cada palito de fósforo da pequena vendedora, não para mostrar a fartura escondida por trás dos vidros, mas a miséria humana que tão bem nos especializamos em negar.

Por isso, mais do que a defender a leitura, trabalho na defesa da possibilidade de ler. Porque a possibilidade nos remete a um direito que deve ser de todos (e digo “deve” sabendo que poucos se sabem detentores deste direito), que é a Liberdade de ler o que, quando, onde e se quiser.
Na narrativa andersiana, tão rapidamente quanto a menina acendia os fósforos, as chamas se apagavam. De acordo com a Física, para a chama se manter ativa é necessário que haja calor, oxigênio e combustível. No frio intenso, as chamas não resistem e logo se dissipam. Esta também é uma boa imagem para refletirmos sobre o nosso trabalho pela leitura.

Flávia Tebaldi, julho de 2013

Flavia Tebaldi é Mestre em Letras pela UFRJ e doutoranda em Estudos Literários pela UFF. Atua como Assessora Técnica de Literatura no Departamento Nacional do Sesc, onde desenvolve e supervisiona os projetos e ações nacionais de leitura e literatura da Instituição

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