Por Julia Priolli

A manhã da quinta-feira (19) foi cheia de reflexões para o Movimento por um Brasil Literário no auditório do 14º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro. Enquanto centenas de crianças percorriam os estandes das mais variadas editoras, um ciclo de palestras reuniu nomes como o do doutor em lingüística Percival Britto, a bibliotecária francesa Geneviève Patte, a editora e professora Maria da Graça Castro, a escritora e professora Nilma Lacerda e a diretora de Educação e Cultura do Instituto Ecofuturo, Christine Castilho Fontelles. Sob prismas variados, eles discorreram acerca da leitura, biblioteca e formação de leitores.

Defensor de que não há leitura literária sem esforço, Percival Britto questionou o conceito de entretenimento na literatura. Para o pesquisador paulistano residente em Santarém, a leitura é banalizada quando atrelada a uma lógica mercadológica que se presta a distrair o leitor. Segundo ele, nem toda leitura é válida. “Questiono a idéia do prazer ligado à leitura porque ler é também um processo difícil, que exige isolamento e recolhimento”, disse Britto. A literatura possibilita também a experimentação da dor de existir, o que não é exatamente prazeroso, mas reconciliador para quem se aventura. “O apelo à felicidade eterna banaliza o prazer como se ele não contivesse dor e vice-versa”, completou o pesquisador.

A bibliotecária francesa Geneviève Patte, com décadas de experiência frente a projetos de leitura para a infância, relatou a importância da horizontalidade na relação entre adulto e criança no ato de ler. “Os pequenos gostam de se aninhar a um adulto ao ouvir uma história, independentemente do lugar onde eles estão.” Para Patte, a experiência de rodas reduzidas de leitura no âmbito das bibliotecas é um privilégio para crianças e adultos. As crianças sentem mais intimidade na leitura em situações mais reservadas, e os adultos tem a oportunidade de aprender com a emoção e a vibração dos infantes, quais são as histórias mais adequadas para cada ocasião. Patte enfrentou condições adversas para introduzir o comportamento leitor em regiões de vulnerabilidade social na França. Munida de uma cesta de pães, que no lugar de brioches continha livros, ela promovia rodas itinerantes de leitura que foram determinantes na transformação de crianças e adultos. As crianças se apaixonaram pelos livros e passaram a ler em suas casas.

Maria da Graça Castro e Christine Fontelles implementaram importantes projetos de biblioteca no país nos últimos anos. Atenta às políticas públicas de fomento à leitura e à criação de acervos, Fontelles apresentou uma pesquisa sobre o retrato das bibliotecas no país hoje. Graça Castro elucidou a diferença entre espaços de leitura e bibliotecas. Para a pesquisadora, tratam-se de locais de naturezas distintas. “Uma biblioteca não se faz com doações dos livros que não queremos mais em casa. Isso é sucata”, afirmou ela. As bibliotecas tem acervos consolidados, com processamento técnico e indexação. Os títulos escolhidos devem condizer com as demandas do público de cada biblioteca. À frente do Projeto Leia Goiânia,  Castro conseguiu, entre 2001 e 2004,  implementar 92 bibliotecas escolares na rede municipal de ensino e 98 bibliotecas circulantes para centros municipais de educação infantil.

Para a escritora Nilma Lacerda, uma biblioteca não se faz com doações e nem com um silêncio sepulcral: “A biblioteca é um lugar de silêncios e burburinhos que vem dos leitores e dos infinitos personagens contidos nas páginas dos livros.” Embora seja um local onde o silêncio é palavra de ordem, nem sempre a interação das crianças com esse espaço pode ser tão contida. Nilma Lacerda acredita que o comportamento leitor acontece paulatinamente. “Qualquer leitura é comparativa, resultado do contato com os livros que a antecederam. A segunda leitura é sempre mais fácil que a primeira”, afirmou a escritora,  explicitando a importância da persistência no processo de leitura. Por isso, a figura do bibliotecário deve ultrapassar os limites do zelo. Ele não deve ser apenas o guardião de um acervo. Ele deve auxiliar os leitores no encantamento  pela leitura.

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