No último dia 23 de abril, foi o comemorado o Dia Mundial do Livro. Especialistas apontam que a literatura é a base para o desenvolvimento integral das pessoas, conforme entrevista dada ao do Centro de Referências em Educação Integral

Alfabetizada ainda quando criança, foi na fase adulta que Noeme Costa da Silva, 53, experimentou pela primeira vez uma outra forma de ler o mundo. Após acidente de carro, a profissional de relações públicas da Biblioteca Braille Dorina Nowill, de Brasília, foi pouco a pouco perdendo a visão, o que lhe colocou diante do desafio de reaprender a ler. “Quando eu aprendi o braile e comecei a juntar as letras foi emocionante, foi uma alegria, pois com isso eu consegui iniciar a faculdade de filosofia. É indescritível pra quem perde a visão voltar a ler com as mãos; é como se a leitura estivesse interligada com o seu coração”.

A paixão pela leitura, no entanto, não é tarefa fácil. Noeme aponta que uma das maiores dificuldades para a pessoa com deficiência visual que gosta de ler é a espera pela tradução dos livros para a linguagem via tato. “Fazer em áudio pode ser uma opção, é mais rápido, mas tocar as palavras é mais especial”.

Os desafios do direito à leitura

O caso de Noeme se configura entre os desafios que o Brasil ainda precisa percorrer para que o direito à leitura seja realmente efetivado para todos. Para a representante do Movimento Brasil Literário, Liane Muniz, os percursos para a sua efetivação são permanentes e passam pelo esclarecimento de que ler também é um direito. “Um dos desafios é mostrar que a literatura também deve ser vista como um direito. Para isso precisamos de adultos leitores, de bibliotecas públicas, escolares e comunitárias, de políticas de leitura e de formação de leitores que tratem a leitura de literatura como um bem social”.

Volnei Canônica, coordenador do programa Prazer em Ler do Instituto C&A e especialista em literatura infantil e juvenil, aponta que, em um país de grandes proporções como o Brasil, os desafios desse direito se ampliam, uma vez que cada estado ou município promove as políticas públicas de maneira diferente.

No entanto, o especialista aponta que nos últimos dez anos, a pauta do direito à leitura vem ocupando espaço na agenda política, com a criação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), instituído em 2006, a partir de parceria entre os Ministérios da Educação (MEC), e Cultura (MinC) e da sociedade civil.

Canônica explica que o plano vem colaborando com a participação, pressão e controle da sociedade no que diz respeito à garantia do direito à leitura para todos. Exemplo disso é a experiência de construção do plano de Porto Alegre, no qual participaram mais de duas mil pessoas. “A população só vai entender o direito à leitura se ela participar desses processos de construção de políticas públicas”, afirma.

Dentre os desafios aparecem ainda a ampliação das literaturas indígenas e africanas nas escolas, a obrigatoriedade de que toda escola tenha uma biblioteca até 2020 e a inclusão de ferramentas digitais na Política Nacional do Livro, expõe o especialista.

A literatura como base para a formação integral

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra”, dizia o educador Paulo Freire, que entendia o ato de ler como uma descoberta do mundo por meio das palavras. Dessa forma, a leitura se mostra como elemento essencial no processo de alfabetização e desenvolvimento integral de todo sujeito, já que envolve não apenas a língua, mas o significado simbólico, histórico e cultural de cada cultura.

Para Canônica, a literatura é fundamental para uma educação que contemple vários aspectos do indivíduo. “Além de conseguir decodificar o código escrito, a partir da literatura o sujeito pode ir além, se confrontar, se reconhecer e também se desconhecer. Essa ação do conhecimento e desconhecimento faz com que ele reflita sobre as questões que o norteiam, ampliando as possibilidades e questionamentos presentes em seu cotidiano”.

Liane também concorda. “Ao ler, o indivíduo se depara com experiências, relatos, sensações, possibilidades e situações pensadas ou não por ele antes. E, assim, se reconhece e se indaga. Assim, percebe melhor a si e ao seu entorno de maneira mais consciente, a fim de transformá-lo”.

O escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012) costumava discursar que pensar a literatura já era em si um ato político, pois o leitor utiliza recursos de comparação que o fazem refletir sobre a sociedade. “Quando você questiona o seu mundo já está fazendo um ato politico, quando questiona por meio da literatura sua rotina, vendo outras rotinas em personagens, vai tendo referenciais para discutir sobre seu dia a dia”, aponta Canônica.

Só se aprende a gostar de ler, lendo

Além das bibliotecas públicas, diversos outros setores vêm contribuindo para com o direito à leitura. Fundação, ONGs, escolas e demais projetos. Mas de todos esses, um aparelho se destaca, o das bibliotecas comunitárias, já que nascem a partir das demandas levantadas por cada local, fazendo o gosto pela literatura chegar onde o estado ainda não possui equipamentos públicos. Para Canônica, é preciso criar demanda, pois quanto mais a população ocupar esses espaços, mais equiparados serão. “É importante que a comunidade demande e entenda que a literatura é um direito, assim como a alimentação, moradia, ou saneamento básico”.

Há variadas formas de promoção da leitura na vida de uma pessoa, como contação de histórias e projeção de filmes sobre o tema, mas a prática mais eficaz na efetivação desse direito continua sendo o próprio ato de ler.

“Para que a prática de ler ocorra, é importante a afetuosa presença de um adulto. É preciso que a família incentive a criança a acessar a biblioteca da sua cidade e da sua escola ou demandar por esta, caso não exista. É preciso que exista o professor leitor, que concilia sua vida leitora com sua profissão e transmite e provoca nos alunos a curiosidade de virar a página, de buscar outro livro, e de descobrir que depois de terminar aquele, ele vai sempre querer outro”, explica Liane Muniz.

Ao pensar o sujeito de uma maneira integral, é preciso pensar formas de oferecer a ele um cardápio de leituras que possam complementar aquelas que já realizou, com vários gêneros literários que complementem seu aprendizado. “A pessoa não se constitui só de romance ou só de poesia, ela se constitui de todos os gêneros e fantasias que uma leitura permite”, é o que diz Canônica.

O dilema entre os livros e as TICs

Será que o livro impresso vai acabar com a ampliação das ferramentas digitais? Será que os estudantes deixam de ler com as redes sociais? Será que a tecnologia é a pedra no sapato da leitura?

De acordo com Volnei Canônica, não. Para o especialista, as ferramentas digitais permitem maiores possibilidades de leitura. O importante, nesse processo, é que os professores, pais e demais envolvidos no processo de aprendizagem, mostrem como mediar as tantas informações que os estudantes acessam diariamente. E, você leitor, em sua opinião, a internet ajuda ou atrapalha a leitura?

2 Respostas para “Dia Mundial do Livro”

  • Vanilda Liziete Ribeiro Lopes |

    Quando se trata de “literatura”, minha opinião é de que a internet jamais poderá substituir a magia do livro impresso: o cheirinho bom de livro novo, o prazer de virar cada página para a subsequente surpresa, a decoração surpreendente como livro de cabeceira…

  • Maria do Carmo Ferreira |

    A internet é uma ferramenta que bem utilizada vem a colaborar com a diversificação de leituras existentes no mundo e isso contribui para que o leitor tenha variados tipos de textos, levando ao seu próprio enriquecimento, ampliando assim seus conhecimentos para a sua inserção cada vez maior na sociedade.

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