A mesa Biblioteca da Escola promovida pelo Movimento por um Brasil Literário, na FLIP 2012 moveu emoções. Silvia Castrillón, bibliotecária colombiana, especialista em políticas públicas de apoio à leitura e um dos nomes mais importantes no desenvolvimento de bibliotecas da América Latina e a professora da Universidade Federal Fluminense e escritora premiada Nilma Lacerda debateram os usos e possibilidades da biblioteca. Mediada pelo jornalista e escritor Márcio Vassallo a mesa começou explorando a problemáticas das proibições nos espaços destinados a leitura. “Com belíssimas exceções, é lugar de interdições: não fale, não corra, não deixe seu coração bater tão alto para não fazer barulho”, colocou Márcio. Local preferido pelos inspetores escolares para “castigar” os insubordinados, a biblioteca é impopular entre os alunos. Nilma Lacerda relatou a experiência de uma de suas alunas de graduação. Ela decidiu ler um livro de poemas da Rosa Rios a um grupo de crianças que estavam de castigo na biblioteca da escola. De avessos e entediados, eles passaram não só a apreciar, como tecer considerações sobre o modo como a leitura estava sendo realizada. O exemplo revela as múltiplas possibilidades de ação que o educador tem dentro daquele espaço. Entretanto, a colombiana Silvia Castrillón declarou achar discutível a noção de que toda a atividade dentro da biblioteca deva ter um caráter lúdico e prazeroso. “Aprender a ler é difícil. Faz com que as escolas invistam em fazer da leitura um jogo. Isso se converteu em um slogan. Dourar a pílula para que os meninos possam engolir livros com facilidade, com atividades criativas. Promovemos demais a facilidade em todos os sentidos da aprendizagem e nos esquecemos de promover o esforço”, disse Castrillón.

Nilma Lacerda reconheceu que existe uma mentalidade demagógica e paliativa por trás de políticas públicas que colocam a leitura como redentora da sociedade. Reduzir a pena para os presidiários que lêem livros literários é uma delas. Entretanto, ela é defensora de que a literatura forma pessoas melhores. Citou o livro Infância, de Graciliano Ramos, para pontuar a transformação que ocorreu na vida do autor, quando conseguiu compreender um livro. “A literatura é capaz de abrir um dialogo subjetivo entre leitor e obra. A metáfora literária acolhe a experiência do leitor sem ignorar suas singularidades. Nos permite reconhecer aos outros, sem excluir a nós mesmos. Ler nos dignifica”, disse a escritora.

Castrillón, embora concorde que a leitura de fato dignifique, relatou conhecer muitos leitores que nunca souberam o que fazer da vida. E outros que, embora leitores críticos de importantes obras literárias, foram governantes anti-éticos e desumanos. “Temos demasiadas expectativas com a leitura, de que ela nos dignifica e nos torna pessoas melhores. Quem muda o mundo são pessoas e não livros. Claro que a oportunidade da leitura deve ser um direito de todos e que os livros nos fazem enxergar sob o ponto de vista de outro, mas isso não é garantia para a integridade do caráter do leitor”, salientou.

Até mesmo a obrigatoriedade da leitura foi polêmica na mesa do Movimento por um Brasil Literário. Embora as palestrantes, como já dizia o francês Daniel Pennac, concordem que temos também o direito de não querer ler, Castrillón questionou se a obrigatoriedade não vale a pena. “Estamos tomando muita distancia na educação, com um medo enorme de intervir, de obrigar e isso não faz bem às crianças. Nos afasta da convicção de que eles podem ir mais além”. Para concluir, Nilma Lacerda recordou que Penac era francês e pensava em condições ideais. “Na frança, antes das questões migratórias, a educação era universal. Todos tinham acesso à literatura e ai sim, a criança tem o direito de não gostar de ler. Mas em uma realidade em que a literatura não faz parte, esse direito ainda não pode existir”.

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