Na adaptação para os palcos do premiado livro – de cunho autobiográfico – do poeta mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, a companhia aberta (do espetáculo Farnese de Saudade, 2011) utiliza da metáfora para trilhar o percurso das palavras do autor, revisitando sentimentos como o da perda precoce da infância, o desaparecimento da mãe, a distância paterna, o esfacelamento dos laços fraternais e a consciência da passagem do tempo, permeada pelo amadurecimento. A atriz e diretora Vera Holtz supervisionou o processo de montagem do espetáculo 

Todos os dias — cotidianamente — havia tomate para o almoço. (…) Eu desconhecia se era mais importante o tomate ou o ritual de cortá-lo. As fatias delgadas escreviam um ódio e só aqueles que se sentem intrusos ao amor podem tragar. Sem o colo da mãe eu me fartava em falta de amor. O medo de permanecer desamado fazia de mim o mais inquieto dos enredos.

O trecho do romance Vermelho amargo – vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2012 na categoria Melhor Livro – foi o primeiro e único romance adulto do escritor mineiro Bartolomeu Campos Queirós, um dos grandes nomes da literatura infanto-juvenil brasileira, morto em 2012. De cunho autobiográfico traz um narrador em primeira pessoa que revisita a dolorosa infância.

O texto ganha adaptação para o teatro no segundo espetáculo da carioca companhia aberta – formada pelos atores Davi de Carvalho, Daniel Carvalho Faria e Vandré Silveira. A direção é Diogo Liberano, que divide a adaptação da obra com Dominique Arantes. A atriz e diretora Vera Holtz é responsável pela supervisão da peça ampliando o percurso do grupo durante o processo de montagem. Após três temporadas de sucesso no Rio de Janeiro, é a vez dos paulistas conferiremVermelho Amargo que estreia dia 18 de julho, sexta-feira, às 20h30, no auditório do SESC Pinheiros. No elenco, Davi de CarvalhoDaniel Carvalho Faria e Vandré Silveira.

Vermelho Amargo traz as memórias de um narrador sem nome definido sobre um período de enorme dificuldade em sua vida: o falecimento da mãe e os futuros maus-tratos de uma madrasta mesquinha e pouco cuidadosa. Na adaptação da companhia aberta, o grupo optou por preservar a maior parte do texto original. O espetáculo aborda sentimentos íntimos, vivências familiares, o passado, o amadurecimento brutal de um homem, memória, fé, ausência de uma pessoa que se ama e a possibilidade de refletir sobre as amarguras da vida.

Amiga de Bartolomeu Campos de Queirós há muito anos, Vera Holtz foi recrutada pelo próprio escritor a participar desta primeira transposição do romance para o teatro: “São jovens alegres, motivados e apaixonados. A aproximação com eles foi encomenda de véspera. ‘Cuida deles pra mim, Vera’. Assim sugeriu Bartolomeu e riu da inspirada ideia de encenar Vermelho Amargo. Essa história agora vira ato e de fato ele estava certo, os garotos têm a inocência perfeita para trazer toda aquela profundidade ao palco”, explica a atriz.

A encenação apresenta o trajeto de amadurecimento de uma criança assustada pela ausência da mãe e pela imagem recorrente (e impregnada de significados) de como sua madrasta cortava o tomate para as refeições da família. “A partir da morte da mãe, o menino faz-se homem e adquire olhos para ler o mundo e toda a complexidade da vida, numa história de superação por meio da poesia. É ‘lendo através das letras’ que este menino acompanha a tentativa dos irmãos em suprir a ausência da mãe: o irmão, o mais velho, mastigava vidros. A irmã, a mais velha, bordava incansavelmente, a outra resolveu interromper a fala. Dona de uma gato que não miava, a irmã mais nova passou a miar”, conta o ator Davi de Carvalho.

O processo criativo do espetáculo partiu de um desejo do coletivo da companhia aberta, da diretora Vera Holtz e pelo diretor Diogo Liberano: “encenar a poesia presente na obra de Campos de Queirós, sem interromper os sentidos que esta abre.”

“O tomate, que é cortado para os filhos em fatias cada vez mais finas pela madrasta, é uma metáfora da tristeza com a qual aquelas crianças são submetidas. Durante todo espetáculo, procuramos dar luz a esse tipo de imagem ao público.  Este romance, entre outras questões, aborda o exílio de um filho e se permite nomear sentimentos inomináveis”, explica Davi.

Feito a várias mãos, o espetáculo teve no processo colaborativo um elemento crucial para se chegar a esta abordagem muito própria e, ao mesmo tempo, totalmente fiel à obra de Bartolomeu: “O processo foi um verdadeiro encontro entre criadores que levantaram suas composições para a cena de uma forma muito atenciosa, de muita escuta, de muito diálogo, criando pontes e interlocuções com todos. Qualquer ‘ruído’ durante o processo criativo era de fato estímulo para a montagem. Nada era ignorado ou descartado. Tudo servia como referência para o trabalho, contextualiza Daniel.

O grupo aproveita a passagem por São Paulo para começar um novo processo em parceria com a diretora Cibele Forjaz. A companhia aberta está em residência artística para pesquisa e concepção do seu terceiro espetáculo: O Homem Elefante, de Bernard Pomarence, com estreia marcada para dezembro de 2014, no Teatro Oi Futuro, no Rio de Janeiro.

Elementos técnicos como personagens

Além do trabalho corporal, as metáforas e a narrativa de Vermelho Amargo são auxiliadas pelos elementos cênicos. A atriz e diretora Vera Holtz, supervisora da peça, amparou a equipe nos questionamentos preliminares da obra de Bartolomeu Campos de Queirós. Vera afirma que o trabalho de pesquisa da equipe foi muito apurado, o que auxiliou na fluência da montagem. “Tentei ajudá-los para que avançassem na compreensão do texto, procurando por alternativas e diferentes interpretações”, afirma.

Diogo Liberano, que adaptou e dirigiu a peça, propôs que os atores, figurinista, iluminador, diretor musical e cenógrafo construíssem seus trabalhos separados do restante da equipe, baseando-se apenas na interpretação própria do romance de Bartolomeu. Depois que todos estavam prontos, houve o processo de edição para que a montagem fosse desfechada. O trabalho técnico não ofereceu apenas suporte ao trabalho dos atores, mas sim novas significações para todo o espetáculo.

No cenário, um grande tabuleiro de memórias. Partindo do questionamento de como se materializa a memória, a cenógrafa Bia Junqueira colocou em cena uma área quadrangular saturada de vermelho, mas que possibilita, tal qual a poesia de Bartolomeu, outros desdobramentos. Na epígrafe do livro, o autor afirma que “foi preciso deitar o vermelho sobre papel branco para bem aliviar o seu amargor”.

“Em cena, sobre o piso vermelho (amargo, das experiências da vida), deita-se o branco. Assim, num sentido inverso, a encenação vai cobrindo o vermelho com o branco, porém, não para aliviar seu amargor, mas sim para cuidar das feridas, para aceitar a existência da dor como parte do amadurecimento da própria vida”, conta Davi. Os atores desdobram esse material durante a peça, trazendo à tona 40 quilos de pelúcia. A troca dos materiais cênicos – do carpete vermelho para a pelúcia branca – evoca elementos da infância do personagem.

O ator que representa o momento presente do protagonista (consciência) utiliza um figurino cotidiano.  Os outros dois utilizam roupas de linho feitas com retalhos de pano. Ao oscilar entre a abstração e a concretude, a figurinista Júlia Marini demarca os patamares distintos nos quais se encontram os atores.

A iluminação de Daniela Sanchez contribuiu para o tom memorial da montagem. Planos claros e escuros intercalam as sensações do narrador. A luz revela e esconde, dando um tom épico-dramático à montagem. Ela traceja um percurso de maturação, portanto, alterna-se entre refletores de maior intensidade e luzes frágeis. “A luz dá matéria à memória”, explica o diretor Diogo.

A trilha sonora composta por Felipe Storino é melancólica e heterogênea. Em alguns momentos, busca reaver o passado, trazendo os sons que fizeram parte da infância do protagonista.

Trajetória

No Rio de Janeiro, o espetáculo da companhia aberta foi aclamado por público e crítica. A peça foi contemplada pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2012 na categoria Montagem e indicada ao Prêmio Cesgranrio de Teatro 2013, na categoria Melhor Cenografia. Além disso, participou como espetáculo convidado da Mostra Sesc Cariri 2013, foi uma das apostas da Mostra Fringe/Festival de Curitiba 2014 (blog Horizonte da Cena).

Vera Holtz afirma que o trabalho realizado pela equipe revela um verdadeiro caráter de ator, onde não há apenas talento, mas também vocação para colocar em prática projetos que desejam concretizar.

“Eles são executivos. Montam o projeto, exploram todas as fases do processo criativo e as alinham para que sejam colocadas em ação. Essa iniciativa define o artista criativo. Eles inventam a vida”, diz Vera.

Sobre a companhia aberta

Criada no Rio de Janeiro, em 2011, pelos atores mineiros (radicados no Rio de Janeiro) Daniel Carvalho Faria, Davi de Carvalho e Vandré Silveira, com o intuito de uma investigação criativa por meio de parcerias artísticas e buscar novas dramaturgias e linguagens de encenação e atuação. A companhia tem investido na realização de dramaturgias de cunho biográfico – que dialogam com o nosso tempo -, utilizando-se do épico dramático e da aproximação com as artes plásticas para o encontro com o espectador.

Em 2011, o grupo estreou o primeiro espetáculo, Farnese de Saudade. O universo do artista plástico mineiro Farnese de Andrade é tema do espetáculo instalação, que após 16 anos de sua morte, teve sua vida e obra abordados num espetáculo teatral pela primeira vez. A estreia aconteceu em 2011 no Rio de Janeiro, onde o espetáculo realizou 02 temporadas. Em abril de 2014, Farnese de Saudadeestreou em São Paulo, realizando uma temporada na Caixa Cultural São Paulo. Em junho do mesmo ano, foi convidado a se apresentar na cidade do artista plástico (Araguari / MG), em duas sessões históricas, uma vez que o artista nunca foi homenageado em sua terra natal. O monólogo foi vencedor do Prêmio Questão de Crítica (RJ/2012) – categoria Cenário, indicado ao mesmo prêmio na categoria Especial (pela pesquisa do projeto) e indicado ao Prêmio Shell (RJ/2012) – na categoria Cenário. O espetáculo foi convidado a participar do Festival Home Theatre 2014, onde o ator Vandré Silveira recebeu ainda o Prêmio de Melhor Interpretação.

Em 2014, além de circular com seu repertório (os espetáculos Farnese de Saudade e Vermelho Amargo), o grupo realiza uma residência artística em São Paulo para o processo criativo / ensaios do seu terceiro espetáculo, O Homem Elefante, uma parceria com a diretora Cibele Forjaz (Cia. Livre) e a atriz e diretora Isabel Teixeira. Com estreia prevista para dezembro de 2014, na cidade do Rio de Janeiro, o novo projeto da companhia reafirma o desejo pela continuidade da sua pesquisa e do trabalho contínuo.

FICHA TÉCNICA:

Autor: Bartolomeu Campos de Queirós. Colaboração artística: Vera Holtz. Adaptação: Diogo Liberano e Dominique Arantes. Direção: Diogo Liberano. Diretora Assistente: Dominique Arantes.Elenco: Daniel Carvalho Faria, Davi de Carvalho e Vandré Silveira. Cenografia: Bia Junqueira.Iluminação: Daniela Sanchez. Figurinos: Júlia Marini. Trilha Sonora: Felipe Storino. Cantora:Gabriela Geluda. Direção de Movimento: Caroline Helena. Oficina Contato Improvisação: Cláudio Dias. Fotografia: Anna Clara Carvalho. Designer Gráfico e Ilustrador: André Coelho. Preparação Vocal: Verônica Machado. Assessoria de Imprensa: Arte Plural. Produção Executiva: Lívia Ataíde.Direção de Produção: Tamires Nascimento. Idealização: Daniel Carvalho Faria, Davi de Carvalho e Diogo Liberano. Realização: Companhia Aberta e Travessia Produções.

SERVIÇO:

VERMELHO AMARGO – Estreia no dia 18 de julho, sexta-feira, às 20h30, no auditório do SESC PinheirosEndereço: Rua Paes Lemes, 195, Pinheiros (SP). Temporada: sexta-feira e sábado, às 20h30. Até dia 30 de agostoIngressos: R$25 (inteira), R$12,50 (meia: usuário inscrito no SESC e dependentes, estudante, professor da rede pública, +60 anos e pessoas com deficiência), R$5 (comerciário: trabalhador do comércio de bens, serviço e turismo matriculado no SESC e dependentes). Classificação Indicativa: 16 anos. Capacidade: 99 lugares

SESC Pinheiros – Rua Paes Lemes, 195, Pinheiros (SP). Informações ao Público: (11)3095-9400.Horário de Atendimento: de terça-feira à sexta-feira, das 10h às 22h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. Horário da Telefonia: de terça-feira à sexta-feira, das 10h às 22h. Sábados, das 10h às 21h, domingos e feriados, das 10h às 19h. Atendimento também pelo site www.sescsp.org.br ou pelo 0800 118220. Estacionamento: Três pisos inferiores de estacionamento que comportam carros e motos, além de vagas de bicicletário. Preços: R$ 6,00 as 3 primeiras horas e R$ 1,00 a cada hora adicional (matriculados), R$8,00 as 3 primeiras horas e R$2,00 a cada hora adicional (outros). Horário de Funcionamento: de terça-feira à sexta-feira, das 7h às 21h30, sábado, das 10h às 21h, domingos e feriados, das 19h às 21h. Ingressos à venda nas unidades a partir de 9/07, às 17h30. Venda online a partir de 8/07, 16h30.

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