Clarice à beira da tarde
Nilma Lacerda

Para meu amigo Luiz Percival Leme Brito,
autor de “O leitor interditado”

– Clarisse com dois esses, por favor. Santos de Oliveira.
Abraçava a pasta como uma âncora. Enquanto procuravam o nome dela nos formulários, o olhar caía sobre o meio-dia lá fora. Que luz cegante, pensou. Pensou também que o nome que acabou de dizer traía uma condição, judia nova, devia ser, não tinha certeza, nem ideia de que há quantas gerações isso tinha acontecido, toda a família era brasileira, mas tinha lido em algum lugar que sobrenome com nome de árvore indicava judeu na família. A generosidade das árvores dava fruta e nome, para salvar quem era perseguido, nos ataques frequentes contra aqueles que não eram cristãos. Oliveira, pereira, macieira, carvalho, pinheiro, nenhuma negou o nome.
Clarisse tinha se apresentado para escolher a escola da segunda matrícula. Um único emprego na educação infantil, impossível, não dá pra viver. Tinha planos para o futuro. Não sabia bem quais, mas tinha. Como a grana andava curta até para ter planos, resolveu dobrar a carga de trabalho. Verdade que muitas coisas na vida dela que esperavam um tempo para acontecer, continuariam esperando. Que fazer? Pedir à arvore outro nome?
Pediria antes uma escola perto da primeira para não ter de gastar um tempo enorme indo de uma a outra, o que a obrigaria a comer sanduíche no ônibus, em vez de almoçar, a sair de uma sala e entrar em outra esbaforida. Teve sorte: apontou, tímida, uma escola que parecia situada próximo à primeira, havia uma vaga. Respirou fundo. Voltou para casa abraçada à carta de apresentação, posta dentro da pasta junto às fichas de observação dos alunos.
Monike: calada e alheia na maior parte do tempo, não responde ao nome da primeira vez que é chamada. Não se integra ao grupo, recebe as tarefas com indiferença, nunca traz novidade para a rodinha.
Rita: integra-se bem ao grupo, viva, muito faladora, prestativa, às vezes bem autoritária, realiza as tarefas com facilidade e rapidez.
Uéslei: hiperativo, sociável e obediente. Esforça-se para prestar atenção à história, o que não dura mais que dois minutos. No entanto, é capaz de equilibrar-se numa linha imaginária como nenhum outro dos meninos da turma.
…o menino ergue-se com dificuldade. Cambaleia sobre as pernas, com a atenção inteira para dentro: todo o seu equilíbrio é interno. Conseguido isso, agora a inteira atenção para fora: ele observa o que o ato de se erguer provocou. Pois levantar-se teve consequências e consequências: …
Que viagem. O “Menino a bico de pena” amarfanhava-se na pasta, dentro de Felicidade Clandestina, um conto tão curto e não tinha conseguido terminar a leitura. Vinte crianças na turma esgotam qualquer corpo sensato. E são tão pequenos: mesmo que fossem grandes, as colegas comentam que é o mesmo su – não pode pensar suplício. Deveria pensar cansaço. Ajudaria muito se os dois turnos de trabalho fossem na mesma escola, no mesmo município, deveria dizer. Dois municípios, regras diferentes, salários diferentes. Se os dois turnos de trabalho fossem na mesma escola, com a mesma turma, pra criança ficar o tempo que deve na escola, o trabalho seria menos cansativo, os resultados muito melhores. Por que ninguém nunca pensou nisso ainda?
É uma fantasia, reconhece. Como a fantasia que ela tem de ser uma dançarina em Sevilha. Nunca foi a Sevilha, mas viu muitos postais, um pedaço de documentário na tevê. Um dos resultados da fantasia moura, a cidade acende o imaginário dela.
Diversas coisas se alinham na memória
numa prateleira com o rótulo: Sevilha.
Coisas, se na origem apenas expressões
De ciganos dali; mas claras e concisas
A um ponto de se condensarem em coisas,
Bem concretas, em suas formas nítidas.

Mouros e ciganos, qual o parentesco entre eles?  Como se condensam expressões em coisas? Como afetar a vida, essas coisas concretas?
Como num sonho, denso e distraído, os ciganos montavam suas tendas em terreno vago, sempre perto do descampado da igreja, enquanto pelas frestas de portas e janelas tantos olhos os vigiavam.
Nascia assim, de repente como a morte, uma vila colorida que se aninhava naquele povoado antigo.
A presença dos ciganos mudava o ritmo de ser da cidade. Portas eram cerradas, roupas não dormiam em varal, nem cavalos soltos nos pastos.
Essa maneira milenar que os ciganos tinham de estar no mundo – nascendo em cada chegada e morrendo em cada partida – incomodava os habitantes da cidade, sempre a perseguirem o eterno.
Acordava com sono. Não gastava menos de hora e meia para chegar ao trabalho. Mal tomava café, a maior parte das vezes. Não havia dia em que a mãe não brigasse, fica trabalhando até tarde, e agarrada nesses livros, eles não dão de comer. De manhã é isso, levanta se arrastando, os olhos inchados. Quando é que cê vai tomar jeito?
– Quando é que você vai tomar jeito, Clarice?
– Com dois esses, não se esqueça, dona Dora.
– E doida, ainda por cima? Estou falando, não escrevendo, que história é essa de dois esses? E que diferença faz? Clarisse é Clarice, de qualquer jeito que se escreva, curva pra um lado ou pra outro.
Pela primeira vez, Clarisse olhou a diretora com simpatia. Não é que ela sacou a grande questão?
– Era a direita ou a esquerda?
– O quê? – perguntei sem entender.
– A orelha que o van Gogh cortou. Era a direita ou a esquerda?
– Não sei – eu disse, já irritado com aquela história. – Foi você quem leu o livro. Você é quem deve saber.
– Mas não sei – disse ele, desconsolado. – Confesso que não sei.
Falara para interromper a cantilena, pra não ter que ouvir o sermão, repetido em casa e na escola. Mas a outra sacou. Direitinho. Que não se sabe, nunca, se direita ou esquerda. O Van Gogh pinta um autorretrato, e olha – para quem olha Van Gogh? Para si mesmo, no espelho? Para o outro, que não compreende a sua dor? Que posição é essa que conseguiu, um pouco de lado, um pouco de frente? Um corte enviesado para olhar o mundo. Van Gogh e ela própria. Por que repisava essa observação, Clarisse com dois esses? Se fosse gauche, era importante. Uma troca de letras e virava guache. De esquerdo a tinta solúvel, não era um bom caminho. Bem legal aquela professora na faculdade. Com ela aprendeu o desdobrável, que Adélia Prado anuncia tão bem. Adélia teve também o seu anjo, diferente do outro, que trazia artes do Canhoto.
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Faltavam alguns versos na memória, paciência. Adélia disse o que quis. Não caiu de paraquedas no mundo. Já Clarisse com dois esses parecia viver caindo de paraquedas na vida. Encantada com a biblioteca da escola da segunda matrícula, foi cheia de sede ao pote.
Descobriu. Professora lê o que o aluno deve ler. Fariam com ela o que a menina gorda fez com a xará, Clarice com cê? A escola da manhã não podia chamar de biblioteca a salinha envergonhada de prateleiras improvisadas, livros meio de qualquer jeito, o mofo como coisa de pegar. Taí, mofo, essa era uma coisa volátil que virava peso. Taí também, cadeia era uma coisa pesada que virava verdade. Uma cadeia de ideias prende mais que um calabouço.
– Quero que me digam claramente o crime que cometi; quero juízes; quero que me fuzilem, se me consideram culpado; ou que me ponham em liberdade, se inocente.
– Darei uma olhada no registro dos presos, para saber detalhes do seu caso.
– Examinando meu registro, verá que não tenho
culpa.  Se puder, fale ao Sr. de Villefort. Ele sabe de tudo e prometeu amparar-me.
–  O Sr. de Villefort foi transferido para Toulouse.
– Para Toulouse? Não me espanto: meu único protetor tinha de ir para longe.
– De qualquer forma, espere com paciência: o registro dirá…
A porta se fechou, mas a esperança que descera com o inspetor geral ao escuro calabouço de Dantès passou a fazer-lhe companhia a partir daquele instante.
Ai, Clarisse, viajou de novo?! O conde de Monte Cristo acompanhou-a em tantas viagens de ônibus. Não resistiu quase nada, o pobre. Por mais cuidado que tivesse, as folhas logo se soltaram, um trabalhão recolhê-las do chão no ônibus cheio, depois da freada brusca. Quem manda ler em pé nessa lata de sardinhas? Tinha sempre um gaiato que perguntava e, vez por outra, prendia com o pé a última folha a ser resgatada.
Entendia. Ali estava a vida começando na segunda matrícula, a biblioteca de verdade, os livros muitos e novos resplandecendo nas prateleiras coloridas e baixas. Estavam ali, o melhor da escola:
Mas o melhor da escola era o final da aula. Depois de copiar do quadro os pontos e os deveres de casa, Dona Aurora mandava guardar os objetos. E na frente da turma ela abria o livro. Lia mais um pedaço da história que falava de primavera, verão, outono e inverno. Histórias encantadas onde bruxas e fadas viviam entre reis e rainhas:
“Eu não sei se vi, se ouvi, se morei lá… Eu não sei se vi, se ouvi, se morei lá… O castelo era todo em ouro e cercado por jardins infinitos de girassóis. A luz do dia ao cair sobre o castelo mais parecia que o sol morava aqui na terra.”
Revirou os títulos: Como contar crocodilos, Adivinha, se puder; Giros, contos de encantar, Livro de histórias. Queria tanto ler uma história de amor. Uma história que falasse das suas buscas, seus anseios, medos, silêncios. Seus incompartilhamentos. Aquilo que só com uma personagem poderia dividir, nem com amigas, nem com amigas conseguiria exprimir, simplesmente porque não sabia ainda o que a consumia como coisa de viver.
O bonde se arrastava, em seguida, estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar – o coração batia-lhe violento, espaçado.  Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir – como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse, teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo cada vez mais inclinada – o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou do colo, ruiu no chão – Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava – o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Se na hora perigosa da tarde Ana olhava para o cego e ele dava a ela a verdade gosmenta da vida, Clarisse nessa mesma hora olhava para trás, para seus desastres de criança, a tarde com suas cores pintada na parede da sala da casa modesta, e alugada. Que surra!
Que surra se repetindo agora. O primeiro turno termina às 12h, o segundo entra às 13h, o sol se moveu no céu uma pequena fração, e se nota a diferença. Passado o meio do dia, a luz começa o declínio. Nem se percebe no princípio, mas a agonia é evidente nas lâminas luminosas que caem sobre a terra por volta das três, quatro da tarde. O dia sabe que vai se apagar, sabe que entrará breve no crepúsculo, por hoje não mais. Mas antes de a noite apertar, botão a botão, a luz que permitiu lavrar e pescar, cozer e cortar, a tarde será reconhecida nos ruídos de lenta saturação (morta na memória a agitação veloz que acendeu a manhã).
Clarisse debruçada à janela do ônibus, antes de chegar a seu destino, e esperando a tarde se instalar em definitivo. O dia que vai findar, e se debruça sobre si para reconhecer-se inteiro na manhã e tarde, toma-se como vitorioso em relação à noite, feita somente de noite. E a madrugada? Parte do dia ou da noite?, Clarisse se pergunta. Coisa de dicionário, de ponto de vista. Da meia-noite ao dia novo, a madrugada.  Para fechar a madrugada, a alvorada mancha de luz o poder da noite. Quanto mais escura a madrugada, mais perto o dia e a aurora, os poetas se aproveitam disso.
Madrugada é fruta ganhando sabor no assar do forno entre noite e dia? Que aromas desprende, então? Ela, Clarisse, seria a madrugada de alguma coisa que ainda não sabe? Que cheiros vêm dela para saber? Que fatias de luz nela se embrenham e mostrarão, mostrarão – ?
Quanto mais pesada de silêncio a linguagem, mais próxima está a fala?
Não era um direito humano ler o que quisesse? Alguém não tinha dito isso? E esse livro que nunca termina de ler, indo e vindo, vindo e indo, amarrotado, porque amassa pra caber dentro da bolsa e dorme em cima dele?! E os sonhos de que precisa para olhar seus alunos, poder preencher as fichas? Não é só com os olhos postos no real que se faz isso.
Era clandestina, na terra prometida.  Professora, numa escola com biblioteca, sem livros para ela, sem o tempo que permitisse tomar do maná de leite e mel. Sem maná para ela. Não desprezava os livros que estavam ali, de forma nenhuma. Usufruía da leitura, também, ao ler para as crianças. Mas era gota curta caindo na língua, a boca continuando aberta, à espera do gole completo.
A água não virá. O trabalho que deram a ela não inclui para si própria os direitos que deve facilitar. Não inclui. Inclui, naturalmente – naturalmente –  a culpa, quando o alarde é grande, ninguém lê neste país.
Ninguém lê neste país.
As crianças dela ainda não leem, têm três, quatro anos. Vale mesmo a pena construir com elas um valor de que não poderão usufruir, se vierem a se tornar professoras da educação infantil, da educação básica?
Chegará o fim desta tarde, como chegou o fim da manhã. A hora perigosa de Ana vai passar para ela também, arrumará as crianças e as entregará, uma a uma, aos responsáveis, ao toque do sinal? Ao fim da jornada, todas as tarefas cumpridas, será obrigada a soprar sobre a pequena flama do dia?
Sabia cada vez mais de seus direitos e da história que a trouxera até ali. Ao escolher escola no ano seguinte, quem sabe conseguirá ficar na fronteira entre perto e próximo, as escolas em que vai trabalhar uma de cada lado da linha divisória?  De novo em Sevilha, com as coisas da cabeceira, que o poeta reconheceu:
Algumas delas, e fora as já contadas:
não esparramarse, fazer na dose certa;
por derecho, fazer qualquer quefazer ,
e o do ser, com a incorrupção da seta;
con nervio, dar a tensão ao que se faz
da corda de arco e a retensão da seta;
pies claros, qualidade de quem dança,
se bem pontuada a linguagem da perna.
(Coisas de cabeceira somam: exponerse,
Fazer no extremo, onde o risco começa).

Por derecho e con nervio. Por direito e com garra. Ano que vem, ao se apresentar na nova escola, é assim que dirá:
– Clarisse Santos de Oliveira. Tanto faz como escrever Clarice. E pode esquecer os Santos. Só ponha aí, bem firme, a oliveira.

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Referências
Os textos desejados por Clarisse/ Clarice são, em ordem de aparição, parte das obras a seguir:
“Menino a bico de pena”, de Clarice Lispector. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco,
1997. p. 151
“Coisas de cabeceira, Sevilha”, de João Cabral de Melo Neto in Poesias Completas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. p. 18.
Ciganos, de Bartolomeu Campos de Queirós. Belo Horizonte: Miguilim, 1996,  3° fragmento, s/ n° de p.
“A orelha de van Gogh”, de Moacyr Scliar. In A orelha de van Gogh. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.  p. 35.
“Com licença poética”, de Adélia Prado. In http://www.releituras.com/aprado_bio.asp   Acesso: 5/12/2012.
O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Clássicos para o jovem leitor. 8. ed.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 25. Trad. e adapt. Miécio Tati. Parte disponível em   http://books.google.com.br
Indez, de Bartolomeu Campos de Queirós. Belo Horizonte: Miguilim, 1988. p. 71.
“Amor”, de Clarice Lispector. In: A imitação da rosa. Rio de Janeiro: Artenova, 1973, p. 22.
“Coisas de cabeceira, Sevilha”, de João Cabral de Melo Neto in Poesias Completas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. p. 18.
O texto que emprestou clareza às reflexões de Clarisse/ Clarice é “O leitor interditado”, de Luiz Percival Leme Britto. In:___. Contra o consenso; cultura escrita, educação e participação. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2003. p.143-164.

Os textos encontrados na biblioteca são:
ADAMS, George. Livro de histórias. Il. Peter Utton. Trad. Ana Cecília de Barros. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1996.
Hayd, Margareth. Como contar crocodilos. Il. Emily Bolan. Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1996. 2004.
FURNARI, Eva. Adivinha se puder. São Paulo: Educação, 2011.
BEHRENDT, Mila. Giros: contos de encantar. Il. Marco Antonio Godoy. São Paulo, 2010. nat

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