Por Julia Priolli

A função da biblioteca na formação do comportamento leitor é um dos temas mais importantes para o Movimento por um Brasil Literário. Com o objetivo de discutir e elucidar questões sobre esse espaço, foram realizadas mesas de debate em dois eventos literários. A primeira ocorreu em 19 de abril, durante o 14o Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro. A segunda, em 5 de maio, na Festa Literária de Santa Teresa (Flist), também no Rio.

Na primeira ocasião, para abrir a conversa, a bibliotecária francesa Geneviève Patte, com décadas de experiência frente a projetos de leitura para a infância, relatou a importância da horizontalidade na relação entre adulto e criança no ato de ler. “Os pequenos gostam de se aninhar a um adulto ao ouvir uma história, independentemente do lugar onde eles estão.” Para Patte, a experiência de rodas reduzidas de leitura no âmbito das bibliotecas é um privilégio para crianças e adultos. As crianças sentem mais intimidade na leitura em situações mais reservadas e os adultos têm a oportunidade de aprender com a emoção e a vibração dos infantes. Patte enfrentou condições adversas para introduzir o comportamento leitor em regiões de vulnerabilidade social na França. Munida de uma cesta de pães, que no lugar de brioches continha livros, ela promovia rodas itinerantes de leitura que foram determinantes na transformação de crianças e adultos. As crianças se apaixonaram pelos livros e passaram a ler em suas casas.

Na mesa de debates, sob o título de “Biblioteca da Escola: silêncios e burburinhos”, a professora e editora da Universidade Federal de Goiás (UFG) Maria da Graça Castro e Christine Fontelles, diretora de Educação e Cultura do Instituto Ecofuturo, falaram sobre suas experiências ao implementar projetos de biblioteca no país nos últimos anos. Atenta às políticas públicas de fomento à leitura e à criação de acervos, Fontelles apresentou uma pesquisa que mostra o potencial das bibliotecas nos entornos de escolas e dentro das comunidades. Maria da Graça Castro elucidou a importância do acervo nas bibliotecas. “Uma biblioteca não se faz com doações dos livros que não queremos mais em casa. Isso é sucata.” De acordo com ela, as bibliotecas devem ter acervos consolidados, com processamento técnico e indexação. Os títulos escolhidos precisam condizer com as demandas do público de cada biblioteca. À frente do Projeto Leia Goiânia,  Castro conseguiu, entre 2001 e 2004,  ajudar na implementação de 92 bibliotecas escolares na rede municipal de ensino e 98 bibliotecas circulantes para centros municipais de educação infantil.

Ato continuo, a premiada escritora e educadora Nilma Lacerda, disse que uma biblioteca não se faz com doações e nem com um silêncio sepulcral: “A biblioteca é um lugar de silêncios e burburinhos que vêm dos leitores e dos infinitos personagens contidos nas páginas dos livros.” Embora seja um local onde o silêncio é palavra de ordem, nem sempre a interação das crianças com esse espaço pode ser tão contida. Nilma Lacerda acredita que a formação do leitor acontece paulatinamente. “Qualquer leitura é comparativa, resultado do contato com os livros que a antecederam. A segunda leitura é sempre mais fácil que a primeira”, afirmou a escritora,  explicitando a importância da persistência nesse processo. Por isso, a figura do bibliotecário deve ultrapassar os limites do zelo. Ele não deve ser apenas o guardião de um acervo, segundo Lacerda. Deve auxiliar os leitores no encantamento pela leitura. “A biblioteca é primeira oportunidade de acesso ao patrimônio científico e cultural para a maioria das crianças que ingressam na escola pública”, completa. Para ela, em uma época em que a atenção do aluno se divide entre tantas outras mídias, em que o tempo passa em alta velocidade, a biblioteca traz diferentes oportunidades de ocupação desse tempo. “É necessário criar esse novo conceito de biblioteca no espaço pedagógico atendendo a educação infantil e o ensino fundamental e médio e prevendo o estabelecimento de diretrizes: adequação do espaço ao público, entender esse espaço como centro dinamizador de leitura e difusor do conhecimento”, afirma.

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