As razões do direito à literatura

Numa sociedade justa o respeito aos direitos humanos, e fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável. (Antônio Candido)

Luiz Percival Leme Britto

Para que serve a literatura?
Para nada. E para tudo.
A literatura não presta para nada. A poesia, o romance, o conto, a crônica, às narrativas fantásticas e as de cotidiano, as histórias e fatos que não aconteceram e que podiam ou podem acontecer – a literatura não forma nem conforma os espíritos, não salva nem consola, não ensina nem estimula. Enfim, não se presta muito para coisas práticas e aplicadas. Não produz realidades mensuráveis e negociáveis.
A literatura presta para tudo. O texto literário é um convite a uma ação desinteressada, gratuita, uma ação que não espera que dela resulte lucro ou benefício. É o simples por-se em movimento, para sentir-se e existir num tempo suspendido na história, um tempo em que a pessoa se faz somente para si, para ser, um tempo de indagação e contemplação, de êxtase e sofrimento, de amor e angústia, de alívio e esperança, disso tudo de uma só vez e para sempre. Nela a gente se forma e se conforma, perde-se e salva-se, se consola e se estimula, aprende e ensina a viver em realidades incomensuráveis, ainda que realmente intangíveis.
Terá havido um momento da história em que os seres humanos pouco podiam dedicar-se a si mesmos. Tinham de despender quase todas as suas energias na produção da vida material, na garantia da sobrevivência.  Era um tempo em que a busca de conhecer o mundo estaria diretamente relacionada à urgência da sobrevivência. Os homens a as mulheres precisavam agir sobre o meio, dominá-lo no limite de suas capacidades e criar espaços e modos para produzir sua existência. Haveria sobre todo raciocínio uma absoluta determinação pragmática.
Uma vez garantidas as condições de sobrevivência e dominado o território, o conhecimento pôde se desprender do imediato e ganha caráter especulativo, indagando os fundamentos da existência: “por que as coisas são como são?” e, também, caráter contemplativo: “que sentidos têm as coisas?”. Nesse sentido, seu espírito pode se desprender das necessidades imediatas e especular sobre si e sobre os outros, imaginar outras vidas, confrontar destinos.
Essa é a condição humana e implica a consciência de si, da vida e do mundo.
No entanto, se a disponibilidade técnica e cultural libera os indivíduos para indagar das coisas, indagar de si e da vida, os imperativos práticos e ideológicos constrangem-no continuamente a um e a muitos, esvaziando em grande parte essa tensão criativa.
E isso por dois movimentos complementares.
De um lado, premidas pela necessidade de dar conta das exigências da sobrevivência (não pela natureza, mas pela condição de vida, de trabalho e de formação), as pessoas não encontram espaço de fruir o conhecimento estético, qualquer que seja sua forma de manifestação.
Por outro lado, imersa nos afazeres da vida prática, a gente age sem considerar os sentidos e os valores de suas ações e dos instrumentos que usam para realizá-las. Por assim dizer, “agimos sem pensar”. Simplesmente reconhecemos as coisas como elementos definitivos, que parecem ser como se só pudessem ser da maneira como aparecem.
Eis, portanto, o paradoxo: a humanidade produz continuamente conhecimento e arte: seja para saber com são as coisas, como funciona a matéria, permitindo-se agir sobre elas e criar novas condições de vida; seja para indagar a própria existência da matéria e dos mistérios da vida. Mas essa mesma humanidade permite que a ordem material e cultural da existência se realize não pelo desenvolvimento das potencialidades criativas de cada um e de todos, mas pela lógica da acumulação e da desigualdade.
Esse conflito está o tempo todo na matriz criadora da literatura  presente. A arte – e a literatura, arte da palavra – nasce do / no pleno espanto do viver. Indaga a condição humana, e não somente em sua forma imediata, mas em todas as formas possíveis. Se o fazer científico se pauta pela tentativa de controlar a subjetividade, a arte alimenta-se dessa subjetividade e só se realiza em função dela.
Assim, o espanto estético é produto da condição humana, dolorosa e contraditória, desejosa e criativa. Ele não se ajusta à lógica pragmática nem parecer um bom caminho para o sucesso profissional. Ainda que pessoas bem intencionadas insistam na aproximação entre ler literatura e  aprender coisas úteis (o quer não é mentira), a sinceridade obriga a dizer que sim, pode ser, mais isso não é o mais importante.
Calvino, ao indagar os sentidos da literatura num mundo em que a subjetividade tem espaço cada vez mais reduzido, relaciona a razão de ser da literatura ao fato de boa parte dos seres humanos tender “a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é, a um esquecer-se das horas e dos dias fixando o olhar sobre a imobilidade das palavras mudas”.
Umberto Eco, por usa vez, num ensaio em que defende valor da literatura clássica em um tempo em que se multiplicam possibilidades de criação estética e de interação imediata entre leitor e texto, sustenta que “a educação para o fado e para a morte é uma das principais funções da literatura”.
Ambos, assim, sugerem que a literatura é mais que diversão, entretenimento. Isso porque, pela lógica da produtividade moderna o tempo do entretenimento é um tempo de consumo ligeiro, um tempo em que hipoteticamente ficamos sem responsabilidades. Tempo de distração, evasão e gozo imediato. O texto e a leitura literária também se supõem irresponsáveis, mas não no sentido do esquecimento de si  e dos problemas da vida para poder continuar vivendo-os naturalmente, mas no sentido de pensar para nada, pensar para ser, ler para ser, inventar para viver, ler para inventar, num movimento contínuo, sempre a estimular e a incomodar.
Essa é fantasia de que falava de forma tão intensa Bartolomeu Campos de Queirós. A fantasia de poder mentir e mentir-se e construir tarde e mundos fantásticos, e sofrer a dor e a alegria de ser outra, sempre sendo eu mesmo. A fantasia de Queiróz é pura contemplação
É esse gesto desinteressado que interessa quando falamos em direito á leitura: o direito de ser no mundo  e de, sendo, fantasiar-se e fantasiar-se.
E para que esse direito possa ser usufruído, há que se produzirem, as condições materiais e sociais: crianças leitoras nascem, e crescem, e vivem, e criam em ambientes em que a leitura desimpedida ocorra natural e frequentemente: ambientes com muitos e bons livros, com boas histórias e poemas, com palavras e frases desajustadas, novidadeiras, voadoras, atrapalhadas, consoladoras, brincalhonas… palavras mudas e tagarelas.
E se te interpelarem, quanto de virem com um livro na mão, que isso não serve para nada, responde: é, eu leio por isso mesmo… e quero que todos possam fazer o mesmo.

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