Digressões a partir de notícias de morte de livrarias e bibliotecas, por Luiz Percival Leme Britto, conselheiro do Movimento

 

O leite servido da embalagem longa vida na xícara de plástico colorido se mistura ao café embalado a vácuo. Tomo o líquido quente e fumegante sem atinar para sua origem, onde estavam o animal que fez o leite, a planta de onde brotou o grão, o fóssil que permitiu o material moldável. Desatino do trabalho de quem produziu o alimento e seus recipientes. Envolto no cotidiano imediato, sou o consumidor a toda hora. Há quem se espante de que a popcorn de micro-ondas surja de espigas de milho, que a sardinha conservada em molho de tomate estava em um cardume de peixes prateados e que a Knorr tenha penas e viva em puleiro!

 

No mundo da des-ordem pragmática, as projeções subjetivas se tornam mínimas, já não são mais que resistências de desejos recônditos, idiossincrasias teimosas em fazer o sentido da vida. A lógica está na descaracterização de todo gesto, na despersonalização de todas as coisas… A única face evidente é a reprodutividade técnica, das coisas sempre iguais, descartáveis, reutilizáveis, recicláveis – matéria anódina que retorna para a máquina sem consciência de si. Já não há espaço – ou este é cada vez mais mínimo – para o singular, o único, para o que faz sentido guardar e usar de um jeito que pessoa e objeto interagem. Os álbuns de fotografia se transformam em arquivos de computador, a água não vem da fonte, a luz não é natural, a lua no céu embaçado com as luas dos postes se empalidece e recusa os loucos, os amantes e os poetas.

 

Na ordem da racionalidade técnica, em que impera a competitividade, os escritos se submetem à utilidade, ao praticismo, ao saber-fazer sem saber, ao manuseio ignorante dos objetos sem os sentidos.

 

Houve um tempo, todavia recente, em que o engenho humano ainda mantinha proximidade com o que produzia e com quem usava o produzido. Os objetos deviam ser guardados e sobreviviam à morte química. E havia algum vínculo secreto entre a coisa e os sentidos que transportava: havia o padeiro, o leiteiro, o jornaleiro, o guarda… Artesãos do tempo, tornando sensíveis e individuados seus artefatos misteriosos. Tempo em que a cidade era lugar de identidade. Houve um tempo em que a indústria era artesanal, isto é – e paradoxalmente –, fazia-se como “a arte e a técnica do trabalho manual não industrializado, realizado por artesão, e que escapa à produção em série, com finalidade a um tempo utilitária e artística” (Dicionário Houaiss).

 

Dos objetos desejados e cultuados neste tempo, o livro aparecia como um dos que mais resistiam à separação da forma e do conteúdo. Um livro era, em si, um valor, compunha uma arte, trazia cheiro, textura, forma, promessa de voo intelectual, de conhecimento, de perda ou de descoberta da vida e de seu sentido. Escritores, editores, gráficos, livreiros e leitores compartilhavam uma ordem de mistérios, conluios, conspirações (A história sem fim, de Michel Ende).

 

As livrarias, as bibliotecas, as salas de leitura erigiam templos divinos onde ocorria a reinvenção do tempo, da vida, da morte. Os alfarrábios, mais que objetos antigos sem valor – ou cujo único valor seria sua antiguidade (como são percebidos pela lógica da utilidade prática), metamorfoseiam-se em baús de mistérios, em tesouros de corsários, em monumentos milenares, onde se encontrariam guardadas as palavras todas, e todos os gestos produzidos, e todas as indagações e criações da humanidade.

 

Este foi um tempo mítico – que, certamente, nunca foi como se anunciava –, tempo que agora o enunciamos assim em nossas reinvenções nostálgicas, desejosas do paraíso perdido do qual fomos expulsos de uma vez e sempre quando do início do tempo e da história. Ter a posse de um livro antigo seria – foi, é – a senha para penetrar neste idílio e escapar do exílio das coisas em que nos percebemos. O livro já não é coisa de papel e tinta, é presente de presença de alma, é convite à resistência da subjetividade, é a infância restaurada.

 

A babélica biblioteca de Borges é a grande metáfora dessa odisséia: ali se encontrariam, num espaço que se desdobra em outros espaços, em geometrias inexplicáveis, todas as formas de escrever o ser, de indagar o mistério, de inventar as coisas e suas explicações, registradas em milhares de línguas reais e imaginárias, mortas e por nascer. Um saber tão vasto quanto inútil e quanto mais inútil mais pleno de sentido e de vida. Um saber que resulta da incompreensão e da impossibilidade de compreender (as línguas não se comunicam). Que belo exemplo babélico é um livro que traga um poema de Camões em todas as línguas do mundo, vivas e mortas!

 

Mas a grande Babel é múltipla. De algum modo, cada loja em que se reúnem os livros perdidos, esquecidos, abandonados, mofados, com sua atmosfera mesquinha e seus cantos avaros, ciosos do mistério que guardam, seria uma manifestação da grande biblioteca, que une todas as lojas por fios invisíveis. E cada uma que se fecha parece ser o anúncio da morte definitiva da misteriosa saga das Escrituras, mundanas e divinas.

 

Eis a catástrofe, eis o fim de tudo, a besta.

 

E, nostálgicos, nos pomos a desejar e a implorar a todos os deuses que não se acabem as bibliotecas, públicas ou pessoais, que não se fechem as portas das livrarias, em especial daquelas que preservam a memória dos tempos de outrora, que não desapareçam os livreiros artesãos, os bibliotecários esotéricos, a nos proteger do caos da imaterialidade financeira.

 

Equivocamo-nos, contudo.

 

E não porque desejamos os prazeres ínfimos que não se realizam com o que não se compra, o conhecimento inútil dos bardos e bufões, a alegria histriônica dos desajustados. Equivocamo-nos porque nos submetemos ao imperativo do prático, do instruir-se para fazer conforme o protocolo.

 

E cremos que, protegidos os monumentos, sobreviveriam a criatividade, a inventividade e a luz. E, desesperados, tratamos de fundar, de fato ou de vontade, mais e mais leiturações imaginárias; tratamos de repercutir um arremedo de profecia em que a Ordem dos livros seria a Ordem da salvação; tratamos de anunciar, como profetas alucinados, que num mundo imaginário em que todos fossem leitores – leitores de quê? – estaria preservada a felicidade e condenada a praticidade medíocre.

 

Do que mais esquecemos, exatamente, é que o que move a desordem contemporânea é a destruição da pessoa, com sua submissão à racionalidade técnica, que faz valer o adequar-se e o produzir mais e mais sem o mal-estar das coisas que “não prestam para nada”.

 

Equivocamo-nos quando não nos damos conta de que a fantasia do tempo edênico serve não mais que para esconder a miséria e a brutalidade do poder e da desordem capital; quando, para além da dor de viver a morte de lugares inadequados aos tempos modernos, despercebemos que não são espaços de leitura o que nos mais falta (faltam, sim!, mas, por si sós e reinventados a serviço do sistema, são menos que quase nada).

 

O que falta, mesmo, são muitas e mais leituras inúteis e desinteressadas, para deleite ou desespero de ser. É para isso que tem de ter mais e mais bibliotecas.

 

* Luiz Percival Leme Britto é doutor em Lingüística. Professor da Universidade Federal do Oeste do Pará. Membro do Movimento por um Brasil Literário.

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