A palavra surgia entre os sussurros e gemidos de dor. Deitado na cama, sem poder mexer o lado esquerdo do corpo, meu avô organizava os meus questionamentos sobre o mundo. Com suas histórias, ele transformava meus pontos de interrogação em interjeições de surpresas.

Sempre achei que quem engole muitas palavras com os olhos tem necessidade de soltá-las pela boca. Meu avó era uma dessas pessoas que tinha crescido mastigando o alfabeto.

As histórias do velho Abílio ajudariam a legendar as minhas pequenas observações sobre tudo e todos. Inclusive, seriam previsões de outonos que chegariam.

Como criança gosta de vivenciar tudo, me vesti de muitos personagens que chegaram a cavalo, navio pirata, avião e até sorrateiramente nas suas histórias.

A escola se apresentou com grande expectativa de me tornar um homem dos estudos. O contorno das letras foram ganhando forma na ponta do lápis que riscava as possibilidades das linhas do caderno.
Mas foi no quarto ano dessa trajetória que a presença da professora Carla se tornaria referência em minha vida de leitor. A chave ficava guardada na sala da diretoria e se o professor quisesse, veja bem, quisesse, poderia pegá-la e apresentar aos seus alunos vários objetos de tamanhos, brochuras, formatos tão diversificados que deixávamos-nos  loucos de curiosidade para abri-los. Meus olhos corriam as páginas, letras e imagens de cada livro.

A biblioteca não tinha um acervo grande, mas lembro que as prateleiras eram separadas por séries. Aparentemente só poderíamos retirar livros da 4ª série. Só que a professora Carla nos dizia: fiquem à vontade e sirvam-se de qualquer prateleira. Tínhamos acesso irrestrito! Eu subia numa cadeira e ia logo para a prateleira do 6º, 7º e 8º ano. Fazia pose com livros que pesavam na mão. Era a sensação de crescer por meio dos livros.

Minha mãe tinha em mente que eu fosse sacerdote e, por certo tempo, para satisfazê-la, cheguei a ser coroinha. Lembro de ter ganho o livro A vida de Jesus ilustrada. Li, reli, questionei e não entendi muitas das metáforas que ali estavam. Mas para algumas delas eu inventei significados que eram só meus.Lembro de ver as páginas desse livro se desgastarem na minha mão, na cabeceira da cama e na ação do tempo.

Em um novo outono eu já me via trabalhando. O dinheiro que ganhava foi usado de várias formas e uma delas foi com a assinatura da revista Circulo do Livro. Lá conheci muitos escritores e escritos. Tornei-me confidente de Agatha Christie, Edgar Allan Poe, Miguel de Cervantes, Machado de Assis, Aloísio Azevedo, entre outros. Eram os meus primeiros livros de capa dura e a minha primeira biblioteca particular.

As folhas verdes secaram e fizeram tapete amarelo no chão e o tempo de me assustar com a biblioteca universitária chegou. Senti-me um cego andando por labirintos sem a ajuda do “fio de Ariadne”. A falta de uma biblioteca escolar que me preparasse para transitar por esse equipamento se fez presente nesse meu assombro. Este leitor não tinha sido preparado para ser um leitor autônomo, que pudesse transitar por esse equipamento cultural. Sofri. Mas todo o estranhamento foi aos poucos minimizado pela minha curiosidade de encontrar as palavras de que precisava.

O teatro sempre foi a maneira que encontrei de me expressar. De ser homem-palavra, corpo-verbo.

Quando em uma tarde, varrendo novas folhas secas na calçada da casa de minha mãe, reencontrei no teatro infantil os contos de fadas e a literatura infantil. Era um novo caminho que se abria e mostrava-se uma escolha profissional que me levaria a alcançar essas histórias para outras pessoas.

Meu primeiro espetáculo infantil foi uma releitura de O Mágico de Oz, de Lyman Frank Baum, e tinha como cenário um livro gigante, onde cada página aberta apresentava novos personagens.

Depois do vento sacudir os galhos nus, chegou a hora, como diz a escritora Marina Colasanti, de pagar a minha dívida com a leitura. Foi me envolvendo em ações de promoção de leitura que venho tentando saldar essa dívida.

Atuando em Caxias do Sul e em cidades próximas, depois no Rio de Janeiro junto à Fundação Nacional do Livro Infantil e agora em várias cidades do Brasil, por meio da coordenação do programa Prazer em Ler, do Instituto C&A, foram os caminhos escolhidos para compartilhar o que as letras, escritores, ilustradores e mediadores de leitura contribuíram com a construção do leitor que mora em mim.
Tenho entendido que tive sorte na escolha dos caminhos e com quem encontrei neles. Mas não posso acreditar que todos os brasileiros terão a mesma sorte. Por isso, lembrando do livro da Ana Maria Machado, Abrindo Caminho, é necessário trabalhar para abrir caminhos que levem às prateleiras das bibliotecas, das livrarias, das trocas de afeto, de leituras de leitores de ideias, de conhecimentos e de tudo mais que possa acontecer com o encontro texto-leitor.

Hoje o meu encontro com a leitura passa por mim – Ler, por ele – Levar a Ler e por nós – Defender o direito de ler. É por isso que sempre desembainho as palavras e brando “Um por todos e todos por um Brasil de leitores!”.

Volnei Canônica, Movimento por um Brasil literário, Flip 2013

*Volnei Canônica nasceu em Caxias do Sul, vive no Rio de Janeiro. Especialista em literatura infantil e juvenil, professor, diretor e ator de teatro, produtor cultural. Atuou na criação do Programa Permanente de Estimulo à Leitura – Livro Meu, realização da Feira do Livro de Caxias do Sul e assessor da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Atualmente coordena o Programa Prazer em Ler do Instituto C&A e membro do Movimento por um Brasil Literário.

2 Respostas para “Abrindo Caminho”

  • Lygia Dias de Toledo |

    Volnei encanta em palestras e, agora me vejo a aplaudir tbém o seu lado escritor (e divulgador de uma causa tão imprescindível, que é o incentivo à leitura, o amor e a necessidade de bibliotecas com recursos humanos verdadeiramente capacitados).

  • Vera Lúcia Câmara Vilela de Mendonça |

    Linda história! Me fez lembrar os relatos de Bartolomeu que fora também influenciado por seu avô e pela professora a se tornar um leitor. Não pude deixar também de lembrar de minha própria história, com meu pai como grande responsável pelo meu gosto pela Literatura. Que por sua vez foi “contagiado” por uma tia solteirona que lia e recitava poemas para ele. Há sempre um responsável pela formação de um leitor. Isso aumenta nossa responsabilidade como pais e educadores!

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