O Movimento por um Brasil literário participou de diversas mesas no ano passado. Uma delas foi em Porto Alegre, que contou com a presença de Ana Paula Cecato (professora, da Câmara Riograndense do Livro); Ninfa Parreiras (escritora), Regina Zilberman (pesquisadora e professora) e Volnei Canonica (promotor de leitura, do Instituto C&A). Confira abaixo os textos de Ana Paula e Volnei para a ocasião. Ninfa, Regina e Volnei são integrantes do MBL.

 

Ana Paula Cecato_PoA

 

 

Pássaro

 

Sou como pássaro

 

Que voa livre

 

Sem saber

 

O que me espera

 

Da vida tão bela

 

Noite de primavera

 

Toca minha vida

 

O vento me leva

 

Para linda floresta

 

Onde o futuro me espera

 

O poema acima foi escrito por um de meus alunos, Matheus Eduardo. Atualmente está no sétimo ano, tem 12 anos. Matheus escreveu este texto em uma de nossas “aulas de imaginação”, quando os alunos são instigados a produzirem textos literários a partir de leituras ou jogos de criação.

 

Uma das atividades que realizo nestas aulas é pedir aos alunos que comparem a poesia com algum objeto e expliquem tal relação. Saltam aos olhos em suas respostas a comparação da poesia com o jogo, a brincadeira, “poesia é uma gangorra porque ali as palavras se balançam”, com sua força simbólica, “poesia é um vulcão porque não sei quando vai entrar em erupção”, com a surpresa “poesia é museu, só entrando nele para saber o que tem dentro”. Crianças e jovens entendem tudo de poesia. Não é à toa que, quando pequenas, elaboram definições espontâneas acerca do alumbramento do mundo, e, quando maiores, usam a última folha do caderno ou as redes sociais para organizar seus conflitos.

 

Neste sentido, ler e produzir poemas ajuda o mediador da leitura a conhecer o modo como as crianças e os jovens percebem o mundo. Isso porque, no gênero lírico, chovem as imagens, reveladoras do impossível verossímil, da verdade interna de cada de um – que ora pode ser a de um pássaro, ora pode ser a de escrever um livro para transformar o mundo, como já me contou Matheus Eduardo.

 

Não sei se Matheus vai escrever o seu livro, mas sei que ele já transformou, com sua sensibilidade, o meu mundo. Não realizo atividades de criação literária em sala de aula com o intuito de que eles se tornem escritores, mas porque acredito no que Gianni Rodari, em Gramática da Fantasia, nos diz “todo uso da palavra a todos: não porque todos sejam artistas, mas porque ninguém é escravo”(RODARI, 1982, p.13). A palavra literária, por ser uma experiência sensível de linguagem, nos possibilita abrir janelas de sentidos para atuarmos no mundo, numa “tarefa de amolecer diariamente o tijolo da massa que se proclama mundo” (Julio Cortázar, Manual de instruções).

 

Nos caminhos de fazer com que meus alunos sejam leitores do mundo e de sua experiência, acredito na força organizadora que o texto literário opera em suas vidas. Em tempos em que constatamos, cada vez mais, na sala de aula, dificuldades de aprendizagem oriundas de flagelos emocionais e afetivos, a literatura transmite um saber que está para além do uso da linguagem. Dentro de um sistema educacional engessado e fadado ao fracasso, por privilegiar conteúdos formais e silenciar os conflitos da experiência humana, precisamos, mais do que nunca, da literatura e da poesia. A palavra poética, promovida a prática político-pedagógica dentro da escola, precisa ser uma ferramenta de intervenção na própria história e de transformação social.

 

Encerro com outro poema do Matheus Eduardo, escrito depois da leitura de uma adaptação da Odisseia, de Homero:

 

Troia a Ulisses

 

Ulisses a Troia foi

 

de lá um desafio começou

 

depois por Circe

 

passou o ciclope

 

derrotou-o com uma

 

estaca de madeira

 

em seu olho.

 

Na ilha de Eólia passou

 

pois de lá Éolo o ajudou

 

os espíritos invocou

 

para voltar a Ítaca.

 

Seu desafio completou

 

para sua casa voltar

 

teve que acreditar

 

no impossível

 

para seu sonho realizar.

 

Acreditemos no impossível.

 

 

Ana Paula Cecato, mestre em Letras, professora da rede municipal de Esteio e coordenadora do Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura da Câmara Rio-Grandense do Livro.

 

 

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Poesia: rotação e translação

 

para Roger Mello – um marimbondo na ilustração

 

por Volnei Canônica

 

Estive recentemente, a convite do Movimento por um Brasil Literário – MBL, na mesa da Festa Literária Internacional de Paraty – Flip que foi organizada pela Ninfa Parreiras para falar da minha relação com a poesia. Nesta mesa falei de como a poesia chegou na forma de estranhamento, de desafio. Como a poesia me incomodou e me fez o menino mais audacioso ao desafiar a professora após colocar no quadro o poema “Isto ou Aquilo”, de Cecília Meirelles.

 

O texto está publicado no site do MBL e todos podem ter acesso para ver como a palavra “poesia” chegou pra mim pela primeira vez e um pouco da trajetória da poesia na minha vida.

Mas o que gostaria de dividir é como a poesia tem trazido reflexões sobre o meu deslocamento no hoje, no presente, no agora, nesta hora.

 

Talvez não consiga ter o distanciamento suficiente para ler os nossos cenários atuais na área da leitura, política, nos movimentos culturais, sociais, enfim, nas transformações. Nos pedidos de mudanças!

 

Apesar de não ter muitas certezas e não poder garantir nada, acredito que os movimentos de rotação e translação irão acontecer, mesmo que eu sente na frente de um aparelho de televisão e resolva ali permanecer por um bom tempo ou pelo tempo suficiente para matar o que resta de pulsante em mim. Então, minha imobilidade é falsa!

 

Posso escolher me acomodar, andar, correr ou voar. Mas não posso escolher ficar parado.

“A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

 

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.” – trecho do poema “Eu sei, mas não devia”, de Marina Colasanti.

 

Falamos de um país que tem 190.732.694 habitantes, conforme o censo de 2010, onde o número de analfabetismo funcional é de 73%, ou seja somente 27% da população brasileira conseguem ler uma lauda e entender o que leu. Então, significa que 139.234.867 estão na classificação de analfabetos funcionais.

Falamos de um país onde a média é de 33 mil pessoas por bibliotecas públicas. Bibliotecas que fazem um esforço para sobreviver ao tempo, a gestões muitas vezes não preocupadas com a construção de um município leitor.

 

Falamos de um país que não olha como deveria para o esforço das iniciativas da sociedade civil de contribuir na promoção da leitura. Que olha como deveria para o importante trabalho das bibliotecas comunitárias e de seus mediadores.

 

Falamos de um país que a cada dia tem promovido eventos literários, que são muito importantes para mobilização da comunidade trazendo o valor simbólico do livro, da leitura e das bibliotecas, mas que, em alguns casos, estão longe de pensar e construir uma comunidade leitora. O evento não pode ser assim como são as festas de aniversário. Olhar para aquelas pessoas uma vez por ano!

 

E a poesia onde anda? Nos saraus? Nos porões? Nas estantes?

 

Quando eu resolvo fazer uma ação de promoção da leitura o que eu realmente quero?

 

Quando escrevo, quando ilustro e quando se publica um livro o que se quer?

 

O que essa mesa quer? O que estamos fazendo neste momento?

 

Contribuir na formação do leitor? Que tipo de leitor? Que ação estruturante estamos fazendo?

 

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”

Poema em linha reta – (Álvaro de Campos – Fernando Pessoa.)

E a poesia pra mim?

Sonoridade, jogos de palavras, repetição, imagens, métrica, formatos, palavras desencontradas, temas, reflexões, não simetria, fruição, protesto, audácia, deslocamento.

Hoje a poesia me fala que sou um falso imóvel e também um falso andarilho. Sou um cigano que nem sei onde estou hoje e muito menos a ideia para onde partirei amanhã.

Desafio quem saiba e tenha as certezas. Desafio quem me traga a possibilidade de acreditar no movimento da mudança de um amanhã além dos movimentos de rotação e translação.

“Rogo à divina Mãe de Deus,

rainha celeste de todas as coisas criadas,

que me dê a pura luz dos animaizinhos

que têm uma só letra em seu vocabulário

animais sem alma, simples formas,

longe da desprezível sabedoria do gato,

longe da profundeza fictícia dos mochos,

longe da escultórica sapiência dos cavalos,

criaturas que amam sem olhos,

com um só sentido de infinito ondulado

e que se agrupam em imensos montões

para ser comido pelos pássaros.

rogo a única dimensão

que têm os pequenos animais planos,

para desviar-se de coisas cobertas de terra

sob a dura inocência do sapato;

não há quem chore porque compreenda

o milhão de mortezinhas que o mercado tem,

essa multidão chinesa das cebolas decapitadas

esse grande sol amarelo de velhos peixes esmagados

Tu, Mãe sempre temível. Baleia de todos os céus.

Tu, Mãe sempre jovial. Vizinha da salsa prateada.

Sabes que eu abranjo a carne mínima do mundo”

 

LUA E PANORAMA DOS INSETOS (O poeta pede ajuda à Virgem) Frederico Garcia Lorca

Mas Volnei onde está a poesia no seu dia a dia? Eu mesmo respondo: na impossibilidade de comandar o mundo, na ausência do que desejo, no meu sofrimento, na morte da flor, na falsa modestia de saber que “abranjo a carne mínima do mundo”, que sou tão útil para alguns, mas que sou tão inútil para o mundo, na minha pequinês, já que sou tão inseto no macrocosmo.


Ah, mas como inseto posso incomodar no seu ouvido, no ouvido do elefante, no ouvido dos governates.

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