Painel: Movimento por um Brasil Literário

A Poesia e seus Caminhos de fazer ler

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Flavio Araújo, poeta, Paraty

Luís Dill, escritor, Porto Alegre

Ninfa Parreiras, escritora, Rio de Janeiro

Simone Monteiro Araújo, educadora, Secretaria Municipal de Educação, Rio de Janeiro

Volnei Canônica, especialista, Instituto C&A, Rio de Janeiro

O ÚLTIMO ANDAR

No último andar é mais bonito:

do ultimo andar se vê o mar.

É lá que eu quero morar.

O último andar é mais longe:

custa muito a lá chegar.

Mas é lá que eu quero morar.

Todo o céu fica a noite inteira

sobre o último andar.

É lá que eu quero morar.

Quando faz lua, no terraço

fica todo o luar.

É lá que eu quero morar.

Os passarinhos lá se escondem,

para ninguém os maltratar:

no último andar.

De lá se avista o Mundo inteiro,

tudo parece perto, no ar.

É lá que eu quero morar:

no último andar.

Cecília Meireles (in Ou isto ou aquilo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002)

Aprendi a ler cedo. Com quatro anos e sem medo. Nunca fui gênio. É que minha mãe era prática: com babá não dá, então vem comigo estudar. Professora ela. Pra mim estudar foi um prêmio. Se não sobrava grana pra babá, pra livro, ah, um jeitinho sempre se dava. Mas quando a coisa apertava, lá vinha a melhor solução: pegar emprestado. Mas pode? eu perguntava. Meu pai acenava e coçava o bigode: Sim, pode.

Num desses empréstimos chegou em casa um volume. Não lembro a cor, nem a capa. Mas sei que li num tapa e bum!, alguma coisa aconteceu. Aquelas palavras cercaram meus olhos, moveram meus lábios e, está visto, meu coração já tinha outra madrinha. De nome Cecília sua poesia se tornou um imprevisto. Do Quintana que eu lia no jornal, eu ria, me divertia, e viajava naquela página maior do que eu, um verdadeiro vendaval, um tapete voador.

Mas dela, dessa Cecília de quem eu nada sabia, eu escutava e via cada palavra. Não minto, depois de ler dava pra ver o mar da minha janela. Era alguma magia da tal Cecília? Eu não sabia, muito pequeno ainda. Bom, não importava, pois era ali na minha janela que a noite descia e, adivinhem? Sim, eu morava no último andar! E eu repetia orgulhoso, sem parar, feito ladainha “no último andar, é lá que eu quero morar”. E lá, às vezes, a lua vinha e me lia um pouco mais dela, da bela Cecília. Ela, que delícia, me falava de mosquito, de carneiro, de bolha, de bola, disto, daquilo, e até de uma palmada bem dada.

Cresci.

Muita coisa esqueci, outras decidi deixar pra trás, ah, quem consegue carregar tanta bagagem. O que nunca larguei foi a dona Cecília. Ela me apresentou a um mundo de poetas que eu nem podia imaginar. E eles me trouxeram outros e mais outros que me fizeram gostar de outras formas de contar.

Cresci mais um pouco.

E nessa festa toda, eu confesso: cometi um excesso. Agora bato a mão na testa, talvez nem precisasse tanto egoísmo. O certo é que pedi, comprei e adquiri. Foram cerros, colinas, montanhas de livros. De todos os tipos, do grosso, do fino, do chato, do bom, do fundamental. E a poesia sempre lá, me fazendo ver por dentro das coisas, até uns rabiscos arrisquei, vá entender.

Pois é. Cresci sem parar, saí do último andar.

E então os livros ameaçaram me esmagar.

Até aí tudo bem: um belo esmagamento. (Na verdade saudação, cumprimento ou grande abraço.)

Ocorre que ter montanhas de livros numa só casa pareceu demais – haja espaço! – pretensioso até.

Onde o tempo pra ler e reler e treler tudo?

Pior: tantas bibliotecas de escolas públicas com meia dúzia de exemplares.

Aí o repente, o lampejo, o óbvio evidente: “vou semear, que dizer, doar”.

Sim, eu digo, porque pra mim biblioteca nunca foi castigo, do tipo assim, “fez bagunça já pra biblioteca”. E os endiabrados pra lá iam tirar soneca. Eu que sempre li, ia à biblioteca no recreio. Até a hora eu perdia, pudera, era como um passeio.

Assim, de uns tempos e ventos pra cá tenho semeado/doado os que me abraçavam/esmagavam.

E não só os meus. Céus, não. Recolho livros de quem não os quer ou, como eu, já têm em excesso.

E funciona assim: recolho e carrego qualquer impresso.

Nos supermercados cato caixas de papelão. Aí vai tudo pro porta-livros, digo, porta-malas do meu carro.

Não é um carrão, mas é valente, talvez com vocação pra Rocinante.

Depois é só virar o volante e sair por aí atrás de uma prateleira, mesmo que grosseira, mas disposta a suportar o tornado de emoções que cada volume oferece.

E dizer não carece: livros são casa, casca, fortaleza, um rio namorando janeiro, um são que é Paulo, é Luiz, é José, de todos os santos é maré, um porto alegre para ti e pra quem os experimentar.

É ou não é dona Cecília? Diz aí, seu Quintana.

Então pra dar sossego a essa pena eu pergunto: por que não sonhar a partir desse singelo gesto? Afinal sementes são pra a terra; leitores pra todo o resto.

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